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Foto: Mariana Leal / MEC
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E quando as questões do Enem têm informações questionáveis?

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
17.nov.2017 | 06h00 |

Nos últimos dois domingos, milhares de brasileiros realizaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que funciona como principal meio de acesso ao Ensino Superior.  Repleta de mudanças, a prova avaliou os conhecimentos dos concursantes em Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas. Mas será que todas as informações contidas na prova são verdadeiras? A Lupa se debruçou sobre o caderno de questões do primeiro domingo (5) do exame. Confira a checagem:

“20% da população de Israel é muçulmana”

Texto de apoio da questão número 2 da prova de Inglês. Retirado de um guia de viagemRECORTES-POSTS-EXAGERADOEm 2016, o Ministério de Relações Exteriores de Israel divulgou um relatório que mostra claramente que há no país 1.454.000 muçulmanos e que isso corresponde a 16,9% da população israelense. O mesmo documento também informa que, em 2014, a população árabe de Israel correspondia a 21% do total. Vale frisar que os termos “árabe” e “muçulmano” não são sinônimos. A palavra “árabe” se refere a um grupo étnico que compartilha o árabe como idioma, e a palavra “muçulmano” é estritamente ligada à religião. Existem árabes que não são muçulmanos e muçulmanos que não são árabes. A questão avaliava a compreensão de texto do concursante. 

Atualização feita às 11h15 do dia 17 de novembro de 2017: Em nota enviada à Lupa após a publicação desta checagem, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelas provas, informou que “os itens das provas do Enem são selecionados a partir de um banco de itens continuamente alimentado por especialistas de diferentes áreas do conhecimento”, que “os textos utilizados nos itens trazem informações apresentados na fonte citada, ou seja, no caso da questão 2, o Inep manteve o conteúdo presente na página www.worldtravelguide.net, consultado em 2012 (quando da elaboração do item)”.


 

“Segundo o pesquisador Aryon Rodrigues, há 40 mil índios que falam o idioma [tikuna]”

Texto de apoio da questão número 17 da prova de Português. Trecho retirado de revista sobre a língua portuguesaRECORTES-POSTS-EXAGERADOEm 2013, o pesquisador Aryon Rodrigues publicou um livro estimando que chegava a 30 mil o total de índios que falavam tikuna – 10 mil a menos do que o citado no Enem 2017. Segundo o último Censo do IBGE, feito em 2010, o Brasil tinha 34.069 falantes de tikuna. De acordo com a Funai, há no país 30.057 pessoas capazes de falar o idioma dessa etnia. A questão 17 da prova de Português também buscava medir a capacidade de interpretação de texto dos concursantes. 

Atualização feita às 11h15 do dia 17 de novembro de 2017: Em nota enviada à Lupa depois da publicação desta checagem, o Inep informou que “o texto do item refere-se a informação sobre o número de índios falantes da língua ticuna disponível na revista Língua Portuguesa publicada no ano de 2010” e que “ainda que existam dados diferentes na edição mais atualizada do livro do professor Aryon Rodrigues, de 2013, não foi essa a referência utilizada na elaboração do item”.


“A última edição do Ethnologue, o mais abrangente estudo sobre as línguas mundiais, de 2005, listava 516 línguas em risco de extinção”

Texto 2 da questão número 17 da prova de Português. Retirado de revistaRecortes-Posts_FALSOO Ethnologue de 2005, de fato, listava 516 línguas ameaçadas de extinção, mas não é a última edição do estudo “mais abrangente sobre as línguas mundiais”. Desde aquele ano, foram publicadas cinco edições da obra: em 2009, 2014, 2015, 2016 e até uma em fevereiro deste ano. Todas elas estavam disponíveis para consulta pública antes de junho de 2017, quando, segundo o MEC, a prova do Enem foi finalizada e enviada para impressão. De acordo com o Ethnologue deste ano – esse sim o mais recente, há 2.467 línguas em risco de extinção em todo o mundo, 378% a mais do que afirmou a questão do Enem.

Atualização feita às 11h15 do dia 17 de novembro de 2017: Em nota enviada à Lupa depois da publicação desta checagem, o Inep informa que “o texto do item é uma informação divulgada na Revista Veja, n. 36, de 12 de setembro 2007. Os dados apresentados correspondem ao período no qual o item foi elaborado”. Ainda esclarece que, uma vez elaborado o item (a pergunta) passa por revisão e segue para pré-teste”. De acordo com o órgão, “ainda que existam dados mais recentes, é preciso manter os parâmetros psicométricos dos itens. Para o instituto, “nos dois itens da prova de Linguagens, a existência de dados mais recentes não implica em prejuízo pedagógico para a resolução dos mesmos e, por isso, foram utilizados”.  


“A Academia Americana de Pediatria decidiu enfrentar o HPV por meio da vacinação de homens e mulheres”

Texto de apoio da questão 4 da prova de Espanhol. Retirado de um site mexicano sobre saúdeRECORTES-POSTS-VERDADEIROPara avaliar a interpretação de texto do candidato, o Enem 2017 falou sobre o HPV (papilomavírus humano), um vírus sexualmente transmissível que aflige principalmente as mulheres, mas também pode afetar os homens. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a doença é comum e transitória e, na maioria dos casos, sequer apresenta sintomas na versão masculina. Na feminina, pode causar câncer de colo de útero. É verdade, portanto, que, em fevereiro de 2012, a Academia Americana de Pediatria (AAP) revisou sua política de prevenção ao HPV e passou a recomendar que os homens também fossem vacinados contra esse vírus. Eles aconselham que a vacinação seja realizada aos 11 ou 12 anos, antes do início da vida sexual, já que a produção de anticorpos é maior entre os 9 e os 15 anos.


“Foi somente em 2002 que a Língua Brasileira de Sinais foi reconhecida como a segunda língua oficial do país”

Texto-base da redação do Enem 2017RECORTES-POSTS-VERDADEIRO-MASEm 24 de abril de 2002, o então presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei 10.436, que oficialmente estabeleceu a Língua Brasileira de Sinais como “meio legal de comunicação e expressão” no país. O texto também determina que o poder público é obrigado a apoiar a difusão da Libras e a oferecer aos surdos atendimento adequado em saúde. Também exige a inclusão do ensino de Libras em cursos de formação de professores e fonoaudiólogos.

Mas, segundo o próprio governo federal, a acessibilidade para surdos ainda é um desafio. Essa parcela da população ainda enfrenta dificuldades para conseguir realizar atividades cotidianas. A falta de intérpretes em Libras causou saia-justa, por exemplo, na cerimônia de acendimento da tocha paraolímpica, durante os Jogos de 2016.

*Hellen Guimarães sob a supervisão de Cristina Tardáguila

**Esta reportagem foi publicada pela edição impressa do jornal Folha de S.Paulo no dia 17 de novembro de 2017.

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