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Crivella disse que Garotinho ‘é pobre’. Será? Nós fomos conferir

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
29.nov.2017 | 10h30 |

Na última quinta-feira (23), o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, saiu em defesa do ex-governador Anthony Garotinho, preso pela Polícia Federal por suspeita de ter firmado contratos fraudulentos com algumas empresas com objetivo de repassar dinheiro para campanhas eleitorais. Ao jornal Folha de S.Paulo, Crivella afirmou:

“O Garotinho é pobre. É um cara que não tem nenhum tostão”Recortes-Posts_FALSODe acordo com o Banco Mundial, são pobres os indivíduos que vivem com menos de US$ 1,90 por dia. Não é o caso do ex-governador Anthony Garotinho. Entre 2010 e 2014, o patrimônio que ele declarou à Justiça Eleitoral foi de R$ 80 mil para R$ 303.538 mil, numa alta de 279%.

Em 2010, quando se elegeu deputado federal, Garotinho era proprietário de uma casa e um terreno em Campos dos Goytacazes (RJ) no valor de R$ 45 mil e R$ 2 mil, respectivamente. Tinha R$ 32 mil em ações na Palavra de Paz Produções, que edita seus livros. Quatro anos depois, quando foi candidato ao governo do Rio e perdeu a disputa, seu patrimônio tinha crescido e se diversificado. Garotinho passou a ter R$ 171 mil em um plano de previdência privada e as ações da ‘Palavra de Paz Produções’ tinham se valorizado. Valiam R$ 116 mil.

Vale lembrar ainda que Garotinho, entre 2011 e 2015, ganhou um salário mensal de R$ 33.763,00, referente ao seu mandato como deputado federal. O valor é R$ 3.503% maior do que o valor do atual salário mínimo, de R$ 937.

Só em salário, Garotinho recebeu R$ 1,756 milhão ao longo de seu mandato como deputado. Além disso, o ex-governador gastou, em quatro anos, R$ 1,31 milhão do chamado ‘Cotão’, referentes a gastos com alimentação, aluguel de veículo e escritório, passagens aéreas e divulgação de mandato. Todo mês os parlamentares têm direito a até R$ 45.240,67 para gastar com essas despesas.

Após perder as eleições de 2014 para o governo do Rio, Garotinho assumiu um cargo na prefeitura de Campos dos Goytacazes, cuja prefeita era Rosinha Garotinho, sua mulher. Ficou por lá entre fevereiro de 2015 e novembro de 2016 e manteve vencimentos mensais de R$ 7.585,25. Nesse período, o ex-governador recebeu, no mínimo, R$ 166.875 da prefeitura.

Além disso, Garotinho é, desde março de 2017, apresentador de um programa na Super Rádio Tupi.

Procurado para comentar esta checagem, Crivella não retornou.

A defesa de Anthony Garotinho, por sua vez, reafirma que ele e sua família não enriqueceram na política, apesar de Garotinho ter sido governador, prefeito de Campos e deputado federal; e Rosinha ter sido governadora e prefeita de Campos duas vezes. “Onde estão as mansões, fazendas e contas no exterior no nome de qualquer membro da família?”, destaca a nota. A defesa ressalta que o ex-governador sempre viveu de seu trabalho e que os salários acumulados em cargos públicos e na profissão de radialista sustentaram, ao longo dos últimos anos, uma família de nove filhos, sendo que seis deles ainda vivem com Garotinho.


“Garotinho denuncia o PMDB todos os dias. É uma briga terrível”RECORTES-POSTS-VERDADEIROGarotinho e sua esposa, Rosinha, se filiaram ao PMDB em agosto de 2003. À época, ele era secretário de Segurança do Rio, e ela, governadora do estado. Em junho de 2009, porém, Garotinho deixou o partido e começou a atacar Sérgio Cabral – então governador – e a sigla.

Ao sair do PMDB, Garotinho transformou o partido em seu alvo preferencial de críticas e denúncias. Uma delas entrou para história política do Rio. Em maio de 2012, Garotinho publicou em seu blog uma série de fotos da chamada “Farra dos Guardanapos”. A sequência de imagens mostrava Cabral e a cúpula do governo fluminense dançando e usando guardanapos na cabeça no hotel Ritz, em Paris, durante um evento realizado em 2009. Estavam nas fotos reveladas por Garotinho alguns secretários atualmente presos como Wilson Carlos, Régis Fichtner e Sérgio Côrtes.

Neste ano, o Ministério Público Federal informou que o jantar luxuoso pode ter sido a comemoração antecipada da escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016: “O Rio de Janeiro recebeu um prêmio em Paris. Foi o famoso fato que ficou conhecido, quando saíram as fotografias, como a ‘farra do guardanapo’. É uma imagem em que todos vão se lembrar daquela festa, daquela comemoração que vários dos nossos, agora investigados, estavam presentes”, declarou a procuradora geral da República Fabiana Schneider, na coletiva de imprensa sobre a Operação Unfair Play, que prendeu o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, em setembro deste ano.

No blog do ex-governador, é possível encontrar denúncias e críticas contra outros membros do PMDB, como Jorge Picciani (presidente do partido e atualmente preso), Paulo Melo (deputado estadual também preso) e o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes.


“Duvido que ele e a Rosinha tenham saqueado o Estado. Crime é superfaturamento. O resto é injúria, calúnia e difamação”RECORTES-POSTS-DE-OLHOCom essa frase, o prefeito Marcelo Crivella tentou minimizar as possibilidades de crimes em que o casal aliado estaria involucrado. Mas, para além de um possível superfaturamento, o Ministério Público do Rio de Janeiro e a Polícia Federal apuram uma série de outros crimes, supostamente cometidos por Rosinha e Anthony Garotinho: corrupção, vantagem indevida, participação em organização criminosa e falsidade na prestação de contas eleitorais.

Segundo a denúncia da promotoria eleitoral, Anthony Garotinho seria o comandante de uma organização criminosa. De acordo com o documento, o ex-governador do Rio ameaçava empresas abordadas e seus sócios sugerindo que a não contribuição para campanhas eleitorais poderia trazer prejuízos às empresas com valores pendentes para receber junto ao município.

É importante lembrar que Garotinho já foi condenado, em primeira instância, a 9 anos, 11 meses e 10 dias de prisão pela prática dos crimes de corrupção eleitoral, associação criminosa, supressão de documento público e coação durante o processo.

Nessa decisão, o juiz Ralph Machado Manhães Junior, da 100ª Zona Eleitoral fluminense, entendeu que Garotinho usou ilicitamente o programa Cheque Cidadão, de Campos dos Goytacazes, para comprar votos para sua mulher se reeleger prefeita nas eleições municipais de 2016. O ex-governador chegou a ser preso duas vezes pelo episódio, em novembro do ano passado e em setembro deste ano. Por decisão da maioria do Tribunal Superior Eleitoral, ele  recorre em liberdade.

Procurado para comentar a checagem, o prefeito Marcelo Crivella não retornou.

Já Garotinho e Rosinha divulgaram nota conjunta, quando da prisão deles, na semana passada, atribuindo o fato à perseguição política que o ex-governador alega sofrer desde que começou a denunciar o governo Cabral.

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