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1 ano de Donald Trump: ‘Fogo e Fúria’ vende bem, mas não revela fontes

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.jan.2018 | 06h00 |

Donald Trump está no cargo há menos de um ano e já existe um relato interno, cheio de fofocas, que alega revelar as reais bizarrices de sua Casa Branca. O livro “Fogo e Fúria: Por Dentro da Casa Branca de Trump”, do jornalista Michael Wolff, retrata um alto escalão rachado, se digladiando. Mostra um presidente narcisista e distraído demais para ser capaz de governar. É um retrato fiel? Não muito. A narrativa geral é verdadeira? Bom, isso já é outra história.

Wolff escreveu que John Boehner, presidente da Câmara, se demitiu em 2011. Foi em 2015. Disse que Trump não sabia quem era Boehner em 2016. Mas, no mesmo ano, o hoje presidente tuitou sobre a fama de chorão do ex-porta-voz. O autor informou que foi Trump quem escolheu Wilbur Ross para a Secretaria do Trabalho. Na verdade, foi para a Secretaria do Comércio. Que o dossiê de Christopher Steele, um compilado particular feito por um ex-oficial do MI-6 sobre a relação de Trump com a Rússia, sugeria que o presidente americano estava sendo chantageado. Uma interpretação mais contida sugere que Trump estaria sujeito à chantagem, mas não que já era vítima disso.

Mas o maior problema de “Fogo e Fúria” é que, de acordo com os padrões de bom jornalismo, padece de transparência e fontes.

Um dos principais enredos do livro é a luta entre o hoje ex-conselheiro Steve Bannon e a família de Trump, mais especificamente, a filha Ivanka e o cunhado Jared Kushner. Todos disputavam influência sobre o presidente. Vazavam à imprensa informações negativas sobre seus rivais. E Wolff escreveu:

“No Salão Oval, na frente do pai dela, Bannon atacou abertamente [Ivanka]. ‘Você’, ele disse, apontando para ela enquanto o presidente assistia, ‘é uma mentirosa do caralho’. As reclamações amargas de Ivanka, que, no passado, teriam diminuído Bannon, agora encontravam um Trump que não se intrometia: ‘Eu te disse que essa cidade é dura, filhinha’”.

Mas como Wolff sabe que essa cena aconteceu? Estava lá? Bannon lhe contou? Ivanka? Trump? Não há como saber. Wolff não explica. E há várias cenas do livro que são assim.

Na introdução, o autor conta que entrevistou mais de 200 pessoas e que teve acesso à Casa Branca com frequência, aparentemente com permissão para entrar e observar tudo de perto já que ninguém teria sido suficientemente perspicaz para barrá-lo.

Certamente uma de suas fontes foi Steve Bannon. Ele é citado várias vezes ao longo do texto, e todo o drama parece girar em torno de suas tentativas de manter Trump puro – isto é, não moderar suas políticas e irritar os progressistas ao máximo. Também é provável que Wolff tenha falado diretamente com outros conselheiros: Kellyanne Conway e Katie Walsh. Mas, depois disso, o relato fica nebuloso. Ele entrevistou Jared Kushner e Ivanka Trump? Eles são pouco citados de forma direta, mas o autor é capaz, por exemplo, de descrever pensamentos íntimos de Kushner em alguns momentos. Um deles quando viu Bannon participar da famosa Conferência para a Ação Política Conservadora (CPAC) de 2016.

“Pavio curto, na defensiva, alerta, [Kushner] interpretou o discurso de Bannon como uma mensagem enviada diretamente para ele. Bannon acabara de creditar a vitória de Trump a todas as outras pessoas. Kushner tinha certeza de que estava sendo insultado”.

Ao ser questionado sobre suas fontes, Wolff tem preferido enfatizar que fez várias entrevistas e esteve muitas vezes na Casa Branca. “A real intenção desse livro é sentar com os leitores no sofá e assistir ao que acontece na Ala Oeste”, declarou o autor no programa Meet the Press. “Eu entrei nisso sem nenhum tipo de agenda política. Eu não tenho nenhum comportamento especial com relação a Donald Trump. O livro é todo sobre a natureza humana”.

E esse clima de levar o leitor a ser como uma mosca na parede da Casa Branca vai, sem dúvida, vender livros. Mas, assim como em a “Virada no Jogo”, livro de 2010 sobre a candidatura de Barack Obama, “Fogo e Fúria” certamente não segue a direção do jornalismo de boas fontes, de um relato baseado em evidências. É um ensopado de cenas dramáticas de origem misteriosa.

Não especificar a origem das informações que divulga é problemático porque sugere que as evidências foram ofuscadas em favor do poder da narrativa. Isso encoraja os leitores a suspender o senso crítico e se deixar levar pelas emoções de uma história prazerosa. Ela pode ser verdadeira ou não, e isso é quase impossível de avaliar de modo independente.

As pessoas que dedicarem tempo ao livro encontrarão um retrato arrasador de Trump. Ele é descrito como avoado, um indivíduo com capacidade de concentração curta, incapaz de ler resumos de planos políticos, analisar problemas e tomar decisões bem embasadas. Trump é mostrado na obra como alguém que vê TV frequentemente, que está frustrado e confuso com o fato de não ter obtido aprovação generalizada dos americanos. Seus assessores aparecem cientes de seus defeitos e, segundo o livro, se perguntam por quanto tempo podem manter a ilusão de que Donald Trump é capaz de governar. Até quando?

Leia o artigo de Angie Holan, do Politifact, na íntegra aqui (em inglês)

Tradução e edição de Hellen Guimarães e Cristina Tardáguila, da Agência Lupa

*Este artigo foi publicado na versão impressa do jornal Folha de S.Paulo no dia 19 de janeiro de 2018.

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