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Alckmin erra ao falar de pesquisas e de fraude na merenda escolar

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
23.jan.2018 | 06h00 |

Na última terça-feira (16), o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, concedeu entrevista aos jornalistas José Luiz Datena e Fernando Mitre, na Rádio Bandeirantes e comentou as pesquisas eleitorais para presidente da República. Falou também sobre o escândalo da máfia das merendas e os efeitos da crise econômica no governo de São Paulo. A Lupa checou algumas das declarações do governador. Veja a seguir:

“O Aécio tinha, em abril [de 2014], 5%. (…) Eu tenho de 9% a 12%”
Geraldo Alckmin em entrevista à Rádio Bandeirantes no dia 16 de janeiro de 2018Recortes-Posts_FALSOAécio não tinha 5% das intenções de voto em pesquisas estimuladas feitas em abril de 2014, e sim o triplo disso.

Naquele mês, três institutos nacionais divulgaram pesquisas eleitorais. O Ibope pesquisou cinco cenários envolvendo Aécio, e ele oscilou entre 14% e 17%. O Datafolha também pesquisou cinco cenários, e o senador mineiro estava em um patamar parecido: entre 14% e 18%. Já a Confederação Nacional do Transporte (CNT) testou três cenários, e mostrou o senador em um patamar ainda mais alto: entre 21,2% e 21,6%.

Alckmin exibe, atualmente, números mais modestos. No Datafolha, em pesquisa divulgada em dezembro do ano passado, ele aparece em seis cenários, oscilando entre 7% e 12%. Ele passa dos 10% apenas em cenários sem a presença do ex-presidente Lula como candidato. No Ibope, cujo levantamento foi divulgado em outubro, são quatro cenários, nos quais ele oscilou entre 4% e 8%. Finalmente, pela CNT/MDA, de setembro, ele aparece em um único cenário, com 8,7%.

Nas pesquisas espontâneas, na qual o nome dos candidatos não é informado ao eleitor, a “vantagem” de Aécio é ainda maior. Ele foi citado por 3% dos entrevistados pelo Datafolha, 7% pelo Ibope e 9,3% pela CNT/MDA. Já Alckmin fez 1% no Datafolha e no Ibope e 1,2% na CNT/MDA.

Procurado, o governo de SP declarou que o raciocínio do candidato está correto e informou que uma pesquisa espontânea da CNT/MDA, de janeiro de 2014, apontava 5,6% das intenções para Aécio, enquanto uma estimulada realizada pelo Ibope  “na mesma época” mostrava o candidato com 13%. As pesquisas, na verdade, são de fevereiro e março, respectivamente. Além disso, a assessoria do governador disse que era “óbvio” que o governador comparava os dois candidatos em períodos semelhantes. Na entrevista, Alckmin foi bastante claro ao se referir a pesquisas de abril de 2014.


“[Foi] O governo que descobriu [o caso de fraude nas merendas]. O governo que fez todo o processo e agora vai a Justiça delimitar [a responsabilidade]”
Geraldo Alckmin em entrevista à Rádio Bandeirantes no dia 16 de janeiro de 2018Recortes-Posts_FALSOEm janeiro de 2016, o Ministério Público e a Polícia Civil de São Paulo deflagraram a Operação Alba Branca para investigar um esquema de superfaturamento na venda de alimentos para a merenda escolar infantil. Em nota, a Polícia Civil de São Paulo informou que “as investigações se iniciaram à partir de denúncia formal de um ex-funcionário da Cooperativa Agrícola Familiar – COAF de Bebedouro”.

A Operação Alba Branca se debruçou sobre um esquema de corrupção através do qual uma organização pagava propina em troca de contratos superfaturados para fornecer merenda escolar à Secretaria de Estado da Educação, do governo Alckmin, e a 22 prefeituras paulistas.

Na última segunda-feira (15), o Ministério Público denunciou os envolvidos, incluindo o ex-presidente da Assembleia de São Paulo Fernando Capez (PSDB). Em suma: não foi o governo que descobriu, tampouco o governo que “fez todo o processo”. 

A assessoria de imprensa do governo de São Paulo destacou que a Polícia Civil é um órgão do Governo do Estado e que a Secretaria de Educação tomou todas as medidas administrativas cabíveis, solicitando, inclusive que a Coaf fosse proibida de participar de licitações.


“São Paulo (…) conseguiu manter o investimento [durante a crise]”
Geraldo Alckmin em entrevista à Rádio Bandeirantes no dia 16 de janeiro de 2018RECORTES-POSTS-EXAGERADOO investimento direto feito pelo governo de São Paulo caiu significativamente desde 2014. É possível verificar isso nos relatórios resumidos de execução orçamentária, publicados bimestralmente. Em 2014, São Paulo investiu (considerando valores liquidados) 8,1% do que arrecadou. Em 2015, essa proporção caiu para 5,6% e, em 2016, 4,9%. Os dados finais de 2017 ainda não estão disponíveis no Portal da Transparência de São Paulo, mas, até outubro, essa proporção era de 4,2%.

Em valores absolutos, corrigidos pelo IGPM, a queda foi ainda mais acentuada. Em 2014, São Paulo investiu R$ 13,1 bilhões. Esse número caiu em mais de um terço, para R$ 8,5 bilhões, em 2015, e, novamente, para R$ 7 bilhões, em 2016. Veja aqui o levantamento completo.

Procurado, o governo de SP disse que manteve o patamar de investimentos dos cinco anos anteriores em 2015 e 2016, apesar da queda de arrecadação. No cálculo, a assessoria do governo incluiu inversões financeiras primárias e investimentos de empresas estatais. Mas, mesmo assim, a proporção de investimento sobre o arrecadado teve queda. De acordo com a própria assessoria, foi de 12% em 2014 para 9% em 2016.


“O Brasil, da década de 30 à década de 70, (…) cresceu 5% ao ano durante 40 anos”
Geraldo Alckmin em entrevista à Rádio Bandeirantes no dia 16 de janeiro de 2018verdadeiroSegundo série histórica mantida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a média de crescimento do Brasil no período foi de 5,7%, patamar próximo ao citado pelo tucano.

Não se tratou de um crescimento constante, havendo períodos de aquecimento e resfriamento da economia durante o período. Por exemplo: ainda sob a influência do crash de 1929, a economia chegou a diminuir 3,3% em 1931, enquanto, em 1936, o crescimento chegou a 12,1%.

*Esta reportagem foi publicada pela versão impressa do jornal Folha de S.Paulo em 23 de janeiro de 2018.

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