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Crédito: Casa Branca
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Nos EUA, Donald Trump erra ao defender primeiro ano de seu governo

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
02.fev.2018 | 06h03 |

Na última terça-feira (30), Donald Trump fez seu primeiro Discurso sobre o Estado da União, um balanço apresentado anualmente pelos presidentes americanos ao Congresso. O republicano focou na economia e no patriotismo, ressaltando que “nunca houve um momento melhor para começar a viver o sonho americano” do que o atual.

Entre suas conquistas econômicas, citou o alívio nas finanças da classe média após o corte de US$ 1,5 trilhão em impostos, alegando ter sido “a maior redução fiscal da história”. Também inflou os feitos de seu governo no setor energético, além de atacar a imigração com dados equivocados. Veja o compilado da Lupa com base na checagem do Politifact.

“Conforme prometi ao povo americano (…), realizamos o maior corte de impostos da história dos EUA”

Donald Trump, durante o Discurso sobre o Estado da União, 30 de janeiro de 2018

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No mês passado, Trump conseguiu aprovar sua reforma tributária junto ao Legislativo. Na véspera da aprovação do pacote no Senado, o Comitê Conjunto de Taxação do Congresso (JCT) divulgou que os cortes custariam cerca de US$ 1,5 trilhão em dez anos aos cofres públicos – ou seja, US$ 150 bilhões a menos por ano na arrecadação.

Porém, a redução não é a maior da história. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos publicou uma lista das maiores leis de redução fiscal sancionadas entre 1940 e 2012. O órgão comparou os cortes não só por valores atuais, mas também com correção monetária e porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB). Várias leis desde 1980 são maiores que aquela sancionada por Trump.

Pelo método de correção monetária, a de Trump é a quarta maior da série. As duas maiores são de Obama: a primeira, de 2013, custou US$ 321 bilhões por ano. Já a de 2010 cortou US$ 210 bilhões ao ano. Em seguida, está a redução fiscal de Reagan, sancionada em 1981, que custou US$ 208 bilhões por ano.

Pela porcentagem do PIB, a reforma de Trump cai ainda mais no ranking: é a sétima. Segundo o Comitê por um Orçamento Federal Responsável, para superar o recorde de Reagan nesse quesito, a reforma de Trump deveria custar US$ 680 bilhões por ano.


“A Loteria do Green Card concede vistos aleatoriamente, sem nenhum critério sobre habilidades, méritos ou a segurança do povo americano”

Donald Trump, durante o Discurso sobre o Estado da União, 30 de janeiro de 2018

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A Loteria de Vistos da Diversidade – programa do governo americano popularmente conhecido como Loteria do Green Card – de fato seleciona os candidatos por um sorteio eletrônico. Porém, para ter o direito de concorrer ao processo, é necessário atender a requisitos específicos de formação e experiências profissionais, por exemplo.

Os candidatos ainda passam por uma inspeção do governo americano antes de obter a permissão para entrar no país e devem fornecer várias informações: passaporte, históricos médicos, ficha criminal, fotos, documentos traduzidos para o inglês e comprovantes de educação ou trabalho.

A loteria ocorre anualmente desde 1995 e seleciona pessoas de países de onde tenham saído poucos imigrantes para os EUA nos cinco anos anteriores. O objetivo do programa é diversificar a população imigrante dos Estados Unidos.


“Depois de anos de estagnação, os salários finalmente estão aumentando”

Donald Trump, durante o Discurso sobre o Estado da União, 30 de janeiro de 2018

RECORTES-POSTS-EXAGERADO

Os salários realmente tiveram alta nos primeiros seis meses de Trump no cargo, e mantiveram-se estáveis no trimestre seguinte. Entretanto, a renda voltou a cair no fim de 2017, anulando os ganhos o último ano e até de anos anteriores ao governo Trump.

A mediana de ganhos reais por semana é o parâmetro usado para medir os salários em empregos estáveis, corrigidos pela inflação. De acordo com dados do Banco de Reserva Federal de Saint Louis, a do último trimestre de 2017 ficou em US$ 345 – um pouco abaixo dos US$ 349 registrados em dezembro de 2016.

Ainda que se ignore essa queda, as altas salariais começaram nos anos finais de Obama – e não no governo Trump. Após a maior queda recente, no segundo trimestre de 2014, a recuperação ganhou força entre 2014 e 2015, e a alta foi contínua desde o segundo trimestre de 2016.


“Nós já soltamos centenas e centenas de terroristas perigosos só para encontrá-los de novo no campo de batalha – incluindo o líder do EI, al-Baghdadi”

Donald Trump, durante o Discurso sobre o Estado da União, 30 de janeiro de 2018

RECORTES-POSTS-EXAGERADO

A cada seis meses, o Diretor de Inteligência Nacional publica dados sobre detentos transferidos de Guantánamo. De acordo com o relatório mais recente, de outubro de 2017, foram mais de 700 desde que a prisão foi aberta, em 2002. Nesses 15 anos, 122 prisioneiros comprovadamente voltaram a se envolver com atividades terroristas – e não “centenas e centenas”, como afirmou o presidente. Oito dos reincidentes saíram de Guantánamo durante o governo Obama. Os outros 114, cerca de 92%, foram libertados durante o governo Bush.

Quanto ao líder do Estado Islâmico, al-Baghdadi, os Estados Unidos já não tinham sua custódia quando ele foi solto. Segundo o Departamento de Defesa, Baghdadi esteve detido na prisão americana de Camp Bucca entre fevereiro e dezembro de 2004. As tratativas para sua transferência foram acertadas durante o governo Bush, e o contrato entre os EUA e o Iraque garantia que o governo americano abriria mão da custódia de praticamente todos os detentos. Seria preciso um esforço extra dos EUA para manter Baghdadi, e não há evidência de que ele estivesse no radar. Ele foi entregue à justiça iraquiana, que o soltou um tempo depois.


“Nós agora somos, orgulhosamente, exportadores de energia para o mundo”

Donald Trump, durante o Discurso sobre o Estado da União, 30 de janeiro de 2018

RECORTES-POSTS-EXAGERADO

Ressaltando suas medidas de incentivo à produção interna de energia, o presidente declarou que seu governo “acabou com a guerra contra a energia americana e o belo carvão limpo”. Uma interpretação possível para a declaração de Trump é que só agora, em seu governo, os EUA começaram a exportar energia. Mas isso está simplesmente equivocado.

“Nós exportamos carvão, gás natural, eletricidade, produtos refinados e tecnologias energéticas há muito tempo”, declarou o professor da Universidade de Defesa Nacional Paul Sullivan ao Politifact.

Talvez o presidente queira dizer que os EUA se tornaram exportadores líquidos de energia, ou seja, que o país passou recentemente a exportar mais do que importa. Também não é verdade. De acordo com a Secretaria de Informação Energética, o país só deve se tornar um exportador líquido de energia em 2026. Em relação ao carvão, os EUA até vendem o produto mais do que compram. Porém, o país atingiu essa marca em 2011 – e não no governo Trump.

Por Allison Graves, Jon Greenberg, Louis Jacobson, John Kruzel, Katie Sanders, Amy Sherman, Manuela Tobias, Miriam Valverde, no Politifact
Tradução: Hellen Guimarães

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