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Fonte: Agência Câmara
Fonte: Agência Câmara

Deputados confundem dados ao votar decreto de intervenção no RJ

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.fev.2018 | 06h00 |

Na madrugada da terça-feira (20), a Câmara dos Deputados debateu e aprovou o decreto que estabeleceu uma intervenção federal na área de segurança do Estado do Rio de Janeiro. A Lupa acompanhou as falas dos deputados e checou algumas das declarações que eles fizeram em plenário. Confira abaixo:

“O carnaval do Rio de Janeiro neste ano foi menos violento do que todos os carnavais de 2014 para cá”
Deputado Ivan Valente (PSOL-SP), na sessão em que a Câmara aprovou o decreto de intervenção federal na segurança pública do RJRECORTES-POSTS-EXAGERADODados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do RJ mostram que o índice de letalidade violenta (que engloba o total de homicídios dolosos, lesões corporais seguidas de morte, latrocínio e homicídios decorrentes de intervenção policial) do carnaval de 2018 é maior do que o observado no mesmo período em 2015: 92 contra 76 casos.

O total de roubo de veículos em 2018 (859) também foi o maior registrado na série histórica dos últimos carnavais. O carnaval de 2018 foi, por outro lado, o que registrou menor número de roubos de rua desde 2015. Esse indicador, que soma os roubos a transeunte, em coletivos e roubos de aparelho de celular, caiu 30% na comparação com 2016. Naquele ano, recorde da série histórica, foram registrados 2185 casos – contra 1527 em 2018. O ISP destaca, porém, que os números sobre 2017 foram afetados devido a greve da Polícia Civil.

Procurado, o deputado informou que baseou seu discurso em “matérias e artigos publicados na grande imprensa”, entre eles entrevista que a diretora-presidente do ISP, Joana Monteiro, deu ao jornal O Estado de S.Paulo. Nela, Joana negou que tivesse havido uma “explosão de violência durante o carnaval de 2018”.


“A violência maior é esse governo, que levou ao desemprego 14 milhões de pessoas”
Deputado Paulo Teixeira (PT-SP), na sessão em que a Câmara aprovou o decreto de intervenção federal na segurança pública do RJRECORTES-POSTS-EXAGERADOEntre maio de 2016, quando Michel Temer assumiu a Presidência de forma provisória, e dezembro de 2017, último dado disponível, o número de desempregados no Brasil aumentou em 464 mil.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (Pnadc/M), do IBGE, o número estimado de desocupados no trimestre móvel de maio, junho e julho de 2016 era de 11,8 milhões. No trimestre móvel de outubro, novembro e dezembro de 2017, de 12,3 milhões.

Os 14 milhões citados pelo deputado são, na verdade, o número máximo de desocupados atingido durante o governo Temer (no trimestre móvel de janeiro, fevereiro e março de 2017).

Em nota, o deputado assumiu o equívoco. “A Agência Lupa está correta em apontar a divergência nos dados em minha exposição. Me comprometo a corrigi-los no próximo discurso relacionado ao tema”, disse.


“Nós deixamos (…) essa porcaria de audiência de custódia. Qualquer bandido que é preso hoje o Poder Judiciário coloca em liberdade. 80% em 48 horas”
Deputado Major Olímpio (SD-SP), na sessão em que a Câmara aprovou o decreto de intervenção federal na segurança pública do RJRECORTES-POSTS-EXAGERADOSegundo o Conselho Nacional de Justiça, o número de presos libertados em audiências de custódia é muito inferior ao citado pelo deputado: 46%. Esse é um instrumento processual que determina que todo preso em flagrante deve ser encaminhado em 24 horas à autoridade judicial. Ela, por sua vez, deve definir se a prisão foi legal e se deve ou não ser transformada em prisão preventiva.

Procurado, o deputado não retornou.


“Houve 750 mil ocorrências [no RJ] no ano de 2017”
Deputado Áureo (SD-RJ), na sessão em que a Câmara aprovou o decreto de intervenção federal na segurança pública do RJRECORTES-POSTS-VERDADEIRO-MASO dado citado pelo deputado é correto. Segundo o Instituto de Segurança Pública, autarquia ligada à Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, 750.608 ocorrências foram registradas no estado em 2017. Entretanto, vale frisar que se trata do número mais baixo desde 2012, quando houve 718.733 registros. Em 2014 e 2016, o número de ocorrências passou de 800 mil.

A assessoria de imprensa do deputado informou que o número usado por ele se referia “aos meses de janeiro a setembro de 2017”. Mas essa informação não é verdadeira: 750 mil ocorrências cobre todo o ano passado. E esse número consta no ISP desde o dia 18 de janeiro.

A assessoria do deputado também destacou o crescimento, observado entre 2016 e 2017, de alguns crimes específicos: homicídio doloso (5,8%), roubo de veículo (30,4%) e roubo de aparelho celular (24,7%). Esses dados estão corretos.


“No RJ, nós temos mais de 1 milhão de medidores elétricos (…) que não são acessados pelas companhias que os instalaram”
Julio Lopes (PP-RJ), na sessão em que a Câmara aprovou o decreto de intervenção federal na segurança pública do RJverdadeiroA Light e a Enel, as duas maiores distribuidoras de energia do RJ, estimam que mais de 1 milhão de domicílios em áreas consideradas de risco – ou seja, sob o controle de traficantes ou milicianos – recebem energia irregularmente.

A Light fala em cerca de 1,75 milhão de domicílios e informa que a metade deles (entre 850 mil e 900 mil) fica em áreas do RJ consideradas inacessíveis por questões de violência.

A Enel estima que 395 mil clientes estão “em áreas que a companhia não consegue atuar, em razão da violência”. A maioria, nos municípios de Niterói e São Gonçalo.

* Esta reportagem foi publicada na versão impressa do jornal Folha de S. Paulo em 20 de fevereiro de 2018.

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