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Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
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Crivella diz que crimes ‘nas areias’ do Rio cresceram. Verdade?

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
22.fev.2018 | 12h00 |

Alvo de críticas por conta de sua viagem de Carnaval, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, gravou um vídeo no Facebook no início desta semana para justificar sua ida à Europa. Disse que viajou para buscar recursos que pudessem auxiliar o Estado do Rio no combate à violência, mas errou ao analisar alguns dados.

“Temos que vigiar as areias agora (…) está ocorrendo furto nas areias”
Marcelo Crivella, prefeito do Rio, em vídeo postado no Facebook no dia 19 de fevereiro

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Entre 2016 e 2017, os furtos caíram 10% nos bairros em que estão as principais praias cariocas. Além disso, não é possível distinguir quantos desses crimes ocorreram nas “areias” e quantos fora delas. 

Em 2016, nas oito delegacias que atendem aos bairros do Flamengo, Botafogo, Urca, Copacabana, Leme, Ipanema, Leblon, São Conrado, Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes, foram registrados 28.181 furtos, contra 25.220 em 2017.

Mas roubos de rua, somatório das ocorrências de roubos a transeuntes, roubos de celular e roubos em coletivos, cresceram quase 30%. Saltaram de 5.742 para 7.415 ocorrências no mesmo período e na mesma área. Roubos são casos em que há contato direto com vítima, enquanto furtos são crimes em que não há encontro entre o infrator e a vítima.

Para concluir esta checagem, a Lupa ainda contatou o Instituto de Segurança Pública (ISP) para saber se havia alguma forma de precisar se os crimes cometidos no município do Rio haviam crescido “nas areias”. De acordo com o órgão, ligado à Secretaria de Segurança Pública do estado, existe uma ferramenta que aprofunda a análise das ocorrências registradas em território fluminense, mas essas informações são de uso interno e exclusivo das polícias.

Chamado de ISPGeo, a ferramenta foi desenvolvida em parceria com o Instituto Igarapé e permite a criação de mapas de calor do crime, bem como a edição desses mapas – sempre por parte dos policiais. Os dados dessa ferramenta também podem ser usados para alocar pessoal e viaturas das polícias em todo estado. 

Procurado para comentar esta checagem, Crivella informou que se referiu aos “casos notórios de violência” nas areias da orla flagrados durante o carnaval.


“Nas calçadas, nas ruas, o crime caiu muito”
Marcelo Crivella, prefeito do Rio, em vídeo postado no Facebook no dia 19 de fevereiro

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Entre 2016 e 2017, todos os indicadores estratégicos de criminalidade observados pelo ISP cresceram na capital fluminense. O número de casos de letalidade violenta, índice que engloba o total de homicídios dolosos, lesões corporais seguidas de morte, latrocínio e homicídios decorrentes de intervenção policial  registrados, saiu de 1.909 ocorrências em 2016 para 2.125 em 2017, o que representa um aumento de 11%.

Os roubos de rua, somatório das ocorrências de roubos a transeuntes, roubos de celular e roubos em coletivos, cresceram 10%. Foram de 62.197 casos em 2016 para 67.971 em 2017.

A situação é ainda pior no índice de roubos de veículos, que aumentou 34% entre os dois anos. Um total de 19.314 ocorrências foi registrado em 2016. No ano passado, 25.895.

Em nota, Crivella informou que se referiu aos roubos e furtos nas areias durante o carnaval deste ano, “que foram exibidos em reportagens como um dos exemplos da escalada de insegurança na cidade, o que motivou a intervenção federal”. 


“Tenho muitos projetos em Brasília, e eu já conversei com o presidente Michel Temer, que vão ser priorizados porque o Rio precisa sair dessa grave crise”
Marcelo Crivella, prefeito do Rio, em vídeo postado no Facebook no dia 19 de fevereiro

RECORTES-POSTS-DE-OLHO

Crivella de fato esteve com o presidente Michel Temer no sábado (17) para tratar da intervenção decretada na segurança pública do do Rio. E também é verdade que, quando senador (de 2002 a 2016), o atual prefeito apresentou projetos que tinham em sua justificativa a situação de violência do Rio de Janeiro e que eles ainda tramitam no Senado.

Mas não é Temer quem diz o que é “priorizado” na Casa – e sim o presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), que nesta quarta (21) defendeu a autonomia do Legislativo em relação ao Planalto. Segundo Eunício, uma das matérias que terão prioridade agora é da senadora Ana Amélia (PP-RS), que tenta proibir o congelamento do dinheiro do fundo penitenciário.

Ao menos um projeto apresentado por Crivella para a área de segurança está pronto para ser votado. O texto propõe que apenas a Justiça Federal julgue crimes cometidos por organizações paramilitares e milícias. O argumento é de que as investigações desses casos têm de ser feitas pela Polícia Federal, por conta do envolvimento das polícias estaduais nesses grupos. Não há previsão de data para a votação.

O atual prefeito também apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para “permitir que guardas municipais atuem no combate ao crime organizado na região das fronteiras interestaduais”. A ideia é permitir que os municípios constituam guardas municipais para, em convênio com a Polícia Federal, agir nas divisas dos estados. À época, Crivella justificou a proposta, falando da “guerra civil que tem vitimado o Rio de Janeiro”.

O texto chegou a ser arquivado e está parado na Comissão de Constituição e Justiça.  Assim como todas as PECs, esta não poderá ser votada enquanto houver intervenção no Rio de Janeiro.

Procurado, para comentar quais os projetos de sua autoria que seriam priorizados, Crivella informou que articulou com o governo federal a construção de cinco mil unidades do programa Minha Casa Minha Vida, em um encontro realizado na quarta-feira (21) com o ministro das Cidades, Alexandre Baldy. Nesse encontro, segundo a nota, o prefeito também acertou a ampliação do corredor expresso de ônibus Transbrasil, cujas obras foram retomadas no ano passado, e ainda defendeu a construção de reservatórios na cabeceira dos rios Pavuna e Acari, na Zona Norte, como forma de conter a água da chuva.


“Não tivemos greves de garis [durante o Carnaval]”
Marcelo Crivella, prefeito do Rio, em vídeo postado no Facebook no dia 19 de fevereiro

verdadeiro

Ao contrário do que aconteceu durante o Carnaval de 2014, quando a prefeitura estava nas mãos de Eduardo Paes (PMDB), a edição deste ano realmente não registrou nenhuma paralisação da categoria. Entre a sexta-feira (9) e o último domingo (18), a Comlurb recolheu 1.076 toneladas de lixo na cidade do Rio, entre blocos de rua, entornos do Sambódromo e na Avenida Intendente Magalhães, por onde desfilaram as escolas de samba.

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