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SobreElas: quem é Dida Nascimento, homenageada por Marielle

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
25.mar.2018 | 12h00 |

Mulheres tiram som de pandeiros, cavacos e tamborins. Em volta, todos cantam um samba de Jovelina Peróla Negra. Marielle Franco acompanha a roda, batendo na palma da mão. Pouco antes, a vereadora pelo PSOL do Rio de Janeiro tinha presidido uma sessão solene na Câmara de Vereadores. Era 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Quem relembra a cena, entre suspiros e lágrimas de incredulidade, é Dilma Nascimento, a Dida.

Dona de um bar na região central do Rio, ela foi homenageada por Marielle com a medalha Chiquinha Gonzaga, distinção concedida às personalidades femininas que se destacam no Brasil. Marielle fez o pedido à Câmara, destacando que a Casa deveria homenagear Dida por ela estar à frente de um local que “alia gastronomia, família, cultura negra e acima de tudo afeto”.“Tantas mulheres poderiam receber essa homenagem. E ela me escolheu”, diz Dida, ainda surpresa.

Foto: Reprodução/Facebook

A voz dessa economista aposentada que decidiu curtir a vida (sem revelar a idade) tocando um bar que homenageia a África e a cultura negra é serena, porém firme e atenta. “Acham até que sou mãe de santo”, diverte-se ela, que é umbandista e viu os filhos seguirem pelo candomblé.

Na parede sobre a mesa onde conversamos, em meio à chuva da última quinta-feira, uma foto de Mãe Beata de Iemanjá. Atrás de nós, uma mesa onde ficam os músicos das rodas de samba e jazz que ela promove. No cardápio, pratos típicos de países como Moçambique e Angola. Na lembrança, os almoços de Marielle Franco no local. “Meu filho a conhecia, e ela passou a vir aqui almoçar. Vinha sozinha, batia papo, parava para conversar quando nos encontrávamos no supermercado. Trouxe o pai no Dia dos Pais do ano passado”.

Na infância e adolescência no Méier, Zona Norte do Rio, Dida aprendeu com o pai e com o irmão a valorizar as belezas da cultura negra e aprendeu a chamar a África de mãe, “porque mãe não tem defeito”. Aprendeu a fazer festa com a mãe, rezadeira poderosa da Pavuna, de quem também herdou o gosto pela cozinha. “Ela tinha uma barraca de comida e bebida e, quando aparecia um chato, ela olhava para uma foice de mentira que ficava na parede, para espantar”, ri.

Estudou em escola pública, teve de conciliar a graduação em economia na faculdade particular com o emprego e, por 35 anos, trabalhou em uma concessionária de distribuição de energia elétrica da região metropolitana do Rio. Negra e suburbana, chegou a ser chamada de bandida em uma reunião, mas cresceu e ocupou uma das diretorias da empresa.

Com ajuda da mãe, criou três filhos e duas sobrinhas – é com eles que toca o bar de perto, firme e atenta, supervisionando tudo. Sabe que não é trivial ter chegado onde chegou, mas tem esperança. “Houve uma evolução muito grande para nós, negros, e para a mulher também. Conto nos dedos quem se formou antes de mim, na minha família. Dos meus cinco (filhos e sobrinhas), quatro já se formaram. É difícil, mas estamos lutando pela igualdade”.

Foto: Leandro Resende

Dida sabe que o mundo mudou e que hoje se fala muito em “empoderamento”. Cita a palavra e logo se recorda dos últimos momentos com Marielle. Dida esteve no mesmo carro em que a vereadora e o motorista, Anderson Gomes, foram mortos – uma carona entre a homenagem na Câmara dos Vereadores e a festa em seu bar. “Depois que chegamos, Marielle ainda me deu uma bandeira. Ela sambou, brincou… Foi embora em paz”. 

Seis dias depois de sair do bar, a um quilômetro de distância do local, Marielle levou quatro tiros na cabeça. Anderson levou três. “Soube do crime quando estava saindo do shopping. Nem consegui dormir. Não é só uma vereadora. É uma mulher que era mãe, mas também era filha”, conta Dida. Desde então, ela anda ressabiada. Durante a conversa, se assustou com a passagem de pessoas pela rua, disse que tem medo da violência e desconfia das perguntas que lhe fazem sobre Marielle.

O susto e a dor a impedem de pensar, agora, em uma celebração, uma forma de retribuir a honraria que recebeu da vereadora. Ela promete algo em seu bar, onde sempre se emociona quando um negro ou uma negra comemora ali o término da faculdade ou o começo de uma pós-graduação.

É na religião que Dida encontra forças para lidar com a morte de Marielle e, em meio às dúvidas, sublinha uma certeza. “A gente vem no mundo para cumprir uma missão. E a missão dela parece que foi concluída e ficou distribuída para várias pessoas, em busca de paz para esse Rio de Janeiro”.  

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