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Foto: Jonas Pereira/Agência Senado
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O artigo de Aécio x a denúncia aceita no Supremo

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
18.abr.2018 | 06h00 |

Na segunda-feira (16), o senador Aécio Neves (PSDB) publicou artigo na Folha de S. Paulo para se defender das denúncias de corrupção passiva e obstrução de justiça oferecidas pelo Ministério Público Federal (MPF). Na terça-feira (17), ele passou a ser réu no STF por conta desse caso. A Lupa conferiu algumas das frases que o senador escreveu em seu artigo. Confira abaixo o resultado:

“Esse telefonema [entre Andréa Neves e Joesley Batista], omitido pelo delator, foi recuperado pela Polícia Federal”
Senador Aécio Neves (PSDB-MG) em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo no dia 16 de abril de 2018O senador Aécio Neves se refere a um telefonema que sua irmã, Andréa Neves, fez ao empresário e delator Joesley Batista para tratar da venda de um imóvel. O telefonema foi de fato recuperado pela PF, e a assessoria do senador do PSDB divulgou o áudio para a imprensa em outubro do ano passado. Também é verdade que a conversa em que a irmã do senador contata o empresário e delator para tratar da venda de um imóvel não foi mencionada na denúncia nem integra a delação premiada de Joesley. O senador se queixa que esse fato, entendido como prova de um pedido de empréstimo lícito, foi omitido. A Procuradoria-Geral da República informa, por sua vez, que essa informação só foi acrescentada por Joesley mais tarde.


“Numa conversa criminosamente gravada e induzida por ele [Joesley Batista]”
Senador Aécio Neves (PSDB-MG) em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo no dia 16 de abril de 2018A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal considera legal – portanto não criminosa – a gravação ambiental realizada por um dos interlocutores sem o conhecimento do outro. A gravação pode, inclusive, ser utilizada como prova em processo judicial.

No dia 18 de maio de 2017, com base em farta jurisprudência, o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, afirmou que as gravações de Joesley Batista não são ilegais. O entendimento está na decisão na qual o ministro autorizou a abertura da investigação contra o senador Aécio Neves, o presidente Michel Temer e o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures.

As investigações também mostram que foi Andréa Neves quem procurou o dono da JBS. O encontro, portanto, foi provocado por parte do senador – não induzido por Joesley.

Procurado, Aécio Neves afirma que usou a palavra “criminosamente” para se referir à ilegalidade da participação de membros da PGR na preparação da gravação.


“Minha irmã (…) foi injusta e covardemente exposta apenas por ter contatado o delator com a intenção de vender um imóvel”
Senador Aécio Neves (PSDB-MG) em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo no dia 16 de abril de 2018A denúncia da Procuradoria-Geral da República mostra que Andréa Neves se encontrou com Joesley no dia 18 de fevereiro de 2017 e que lhe pediu R$ 2 milhões para o pagamento de “honorários advocatícios”. No dia 24 de março do mesmo ano, em conversa gravada, o senador Aécio Neves aparece agradecendo o empresário por ter recebido sua irmã e, ao ser informado sobre os R$ 2 milhões que ela havia solicitado para pagar serviços jurídicos, perguntou: “Você [Joesley] consegue me ajudar nisso?”, sem demonstrar estranheza com relação à destinação dos valores.

Procurado, Aécio Neves disse que a PGR não tem provas de que Andréa tenha solicitado qualquer valor a Joesley. Afirma que, na gravação de 24 de março de 2017, em nenhum momento o empresário lhe disse que Andréa “solicitou” algo. Em nota, o tucano destacou que Joesley se limitou a dizer que Andréa tinha falado sobre “fazer R$ 2 milhões para tratar de advogado”. Quando Andréa foi detida, seus defensores afirmaram que ela não havia negociado propina e que tivera apenas um encontro com Joesley. Nele oferecera o apartamento da família.


A própria Procuradoria-Geral da República indicou que não houve nenhuma contrapartida no caso”
Senador Aécio Neves (PSDB-MG) em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo no dia 16 de abril de 2018A denúncia da Procuradoria-Geral da República realmente não apontou nenhuma contrapartida obtida de forma direta neste caso. Mas indicou que ela poderia ocorrer. Segundo memorial escrito pela procuradora-geral, Raquel Dodge, aos ministros do Supremo Tribunal Federal, o senador Aécio Neves “estava preparado para prestar as contrapartidas de interesse do grupo J&F, no momento oportuno. Justamente por isso é que disponibiliza a Joesley Batista qualquer diretoria da Companhia Vale do Rio Doce que fosse de interesse do empresário”.

A denúncia do ex-procurador Rodrigo Janot também lista condutas anteriores de Aécio que teriam beneficiado a JBS. Entre elas, por exemplo, “liberação de créditos de R$ 12,6 milhões de ICMS da JBS Couros e dos créditos de R$ 11,5 milhões de ICMS da empresa Da Grança, adquirida pela JBS na compra da Seara”.

Em nota, Aécio Neves disse que “há uma grande contradição na argumentação da PGR”. Segundo o senador, o caso de liberação de créditos de ICMS citado pela PGR integra a delação de Ricardo Saud, ex-executivo da JBS, que também teria afirmado que o senador nunca fez nada pela empresa.


“Na gravação, poucos se recordam de que rechacei prontamente a sugestão, feita por ele, para que apoiasse um nome para a presidência da Vale”
Senador Aécio Neves (PSDB-MG) em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo no dia 16 de abril de 2018Na gravação feita pelo empresário e delator Joesley Batista, ele aparece conversando com Aécio Neves sobre uma possível indicação de Aldemir Bendine para o cargo de presidente da Companhia Vale S.A. Em tom amistoso, o senador não aceita a sugestão, mas por uma razão clara. Confidencia que já havia indicado outra pessoa para o posto. “Vou falar para você o que não falei para ninguém. Nomeei o presidente da Vale hoje. Eu fiz um negócio raro para caramba. Coloquei o cara dentro do headhunter”.

Em seguida, o tucano informa ao empresário e delator que poderia disponibilizar qualquer outra diretoria da empresa, e termina o assunto garantindo uma vaga a Bendine: “Podemos encaixar ele mais para frente”.

Em nota, Aécio lembra que negou o pedido de Joesley, disse que a conversa foi induzida pelo empresário e que “o importante, numa conversa informal e privada não é como as coisas são ditas, mas o resultado concreto do que foi dito”.

*Esta reportagem foi publicada pela edição impressa do jornal Folha de S.Paulo no dia 18 de abril de 2018.

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