Tem certeza que deseja sair da sua conta?
Foto: Reprodução de vídeo
Foto: Reprodução de vídeo

Os erros e acertos da senadora Gleisi Hoffmann no vídeo para a Al Jazeera

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
20.abr.2018 | 16h30 |

Na última quarta-feira (18), a senadora e presidente do PT, Gleisi Hoffmann, gravou um vídeo para a TV Al Jazeera, do Catar, denunciando o que acredita ser uma prisão política do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem ela chama de “grande amigo do mundo árabe”.

O vídeo, que faz parte da estratégia do PT para engrossar o apoio a Lula no exterior, causou polêmica no Congresso e nas redes sociais. Parlamentares e grupos organizados na internet acusaram a senadora de incitar terroristas, ameaçando a segurança do país.

Na tribuna, senadores como Magno Malta (PR-ES) e José Medeiros (PSD-MT) discursaram em oposição a Gleisi. Major Olímpio chegou a protocolar uma ação na Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo que se investigue a fala da senadora, sob acusação de que ela violou a Lei de Segurança Nacional. Até a manhã desta sexta-feira (20), a PGR ainda não tinha se manifestado sobre a abertura de inquérito.

Enquanto a polêmica corre solta, a Lupa ouviu a fala de Gleisi e checou algumas das frases. Veja o resultado:

“Lula foi o único presidente [brasileiro] que visitou o Oriente Médio”
Gleisi Hoffmann, senadora e presidente do PT, em entrevista à TV Al Jazeera em 18 de abril de 2018Em 2014, a ex-presidente Dilma Rousseff esteve em Doha, no Catar. Ela se reuniu com o Emir e outras autoridades cataris para discutir as relações comerciais e diplomáticas entre os dois países. 

Em nota, o Itamaraty informou que D. Pedro II, quando imperador do Brasil, fez uma visita ao atual Líbano, então parte do Império Otomano, em 1876. E que Lula fez uma série de viagens à região. Em 2003, foi aos Emirados Árabes Unidos, Líbano, Egito, Síria e Líbia. Em 2009, visitou Arábia Saudita e os Emirados Árabes novamente. No ano seguinte, esteve em Israel e na Palestina, bem como nos Emirados Árabes Unidos e na Jordânia.

O Ministério das Relações Exteriores considera como Oriente Médio a região que compreende os países do Levante – Israel, Palestina, Jordânia, Líbano e Síria – e os do Golfo da Península Arábica – Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Iraque, Kuwait e Omã.


“[No governo Lula] O comércio com o Oriente Médio se multiplicou por cinco”
Gleisi Hoffmann, senadora e presidente do PT, em entrevista à TV Al Jazeera em 18 de abril de 2018Segundo a série histórica da balança do comércio exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, em 2002, quando o ex-presidente Lula foi eleito para seu primeiro mandato, o intercâmbio comercial entre o Brasil e o Oriente Médio alcançava US$ 2,3 bilhões. Em 2010, último ano do segundo mandato do governo Lula, as importações e exportações para a região somavam US$ 10,5 bilhões. O valor é 4,6 vezes maior do que quando o presidente petista assumiu oito anos antes.


“Em 2005, Lula promoveu em Brasília a primeira Conferência da América do Sul e dos Países Árabes”
Gleisi Hoffmann, senadora e presidente do PT, em entrevista à TV Al Jazeera em 18 de abril de 2018A criação da Cúpula América do Sul – Países Árabes (ASPA) partiu de uma proposta brasileira apresentada em 2003. Segundo informações do Ministério das Relações Exteriores, em maio de 2005, foi de fato realizada a primeira conferência da ASPA, que reuniu em Brasília 34 países integrantes da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Liga dos Estados Árabes (LEA). As reuniões têm o objetivo de aproximar as duas regiões, bem como buscar convergência diplomática em temas de interesse comum.


“O Brasil foi um dos três países não-árabes convidados para a Conferência de Annapolis, em 2007”
Gleisi Hoffmann, senadora e presidente do PT, em entrevista à TV Al Jazeera em 18 de abril de 2018A Conferência de Annapolis, realizada em cidade homônima americana em novembro de 2007, foi um encontro promovido pelos Estados Unidos com o objetivo de consolidar o apoio internacional para a criação de um Estado palestino. Cinquenta convidados, entre eles Estados e organizações, foram chamados para participar da Conferência, que também ficou conhecida como Cúpula de Paz para o Oriente Médio.

Segundo nota do Departamento de Estado Americano à época, pelo menos 20 outros convidados não pertenciam ao mundo árabe. Além do Brasil, Canadá, China, Dinamarca, Noruega, França, Alemanha, Grécia, Índia, Indonésia, Itália, Japão, Polônia, Rússia, África do Sul, Marrocos, Espanha, Senegal, Suécia, Reino Unido e organizações como Banco Mundial, Comissão da União Europeia e Fundo Monetário Internacional também estiveram presentes.  

Procurada, Gleisi não retornou.


“Lula sempre defendeu a existência do Estado palestino”
Gleisi Hoffmann, senadora e presidente do PT, em entrevista à TV Al Jazeera em 18 de abril de 2018Em março de 2010, Lula fez uma visita oficial a Israel e, no Parlamento local, defendeu o Estado Palestino. Mas, a defesa da solução de dois estados (Israel e Palestina) é uma posição tradicional da política externa brasileira, algo que não foi inaugurado pelo governo Lula. O Itamaraty informa que o estabelecimento de relações entre Brasil e Palestina se deu em 1975

Durante seu discurso no legislativo israelense, o então presidente do Brasil também apoiou o Estado de Israel e a necessidade das negociações serem feitas de forma pacífica: “Defendo a existência de um Estado de Israel soberano, seguro e pacífico. Ele deverá conviver com um Estado Palestino, igualmente soberano, pacífico, seguro e viável”, destacou.


“A política externa [brasileira] passou a ser ditada pelo Departamento de Estado norte-americano [após o impeachment de Dilma Rousseff]”
Gleisi Hoffmann, senadora e presidente do PT, em entrevista à TV Al Jazeera em 18 de abril de 2018Em diversas ocasiões recentes, a política externa brasileira defendeu abertamente posições contrárias à diplomacia norte-americana. Há menos de uma semana, por exemplo, o Itamaraty manifestou preocupação com a escalada do conflito militar na Síria e defendeu que a resolução do litígio tivesse “base nas resoluções do Conselho de Segurança” da ONU. Ou seja, foi contra as intervenções americanas, feitas sem aprovação do conselho.

No comunicado oficial divulgado sobre o assunto no último dia 14, o Itamaraty escreveu o seguinte: “o Brasil reitera o entendimento de que o fim do conflito somente poderá ser alcançado pela via política, por meio das tratativas sob a égide das Nações Unidas e com base nas resoluções do Conselho de Segurança”.

Em março, quando o governo dos Estados Unidos decidiu aplicar sobretaxa de 25% no aço e 10% no alumínio brasileiros, o Itamaraty publicou nota afirmando que “recorrerá a todas as ações necessárias, nos âmbitos bilateral e multilateral, para preservar seus direitos e interesses”, deixando em aberto recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a decisão americana.  

A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou, em dezembro passado, resolução condenando o reconhecimento pelos Estados Unidos de Jerusalém como capital de Israel. O Brasil votou a favor da resolução. Países mais alinhados aos Estados Unidos e a Israel votaram contra ou se abstiveram. Guatemala e Honduras votaram contra e México e Canadá se abstiveram.

Em agosto do ano passado, o presidente americano Donald Trump afirmou “não descartar uma opção militar na Venezuela”. O Ministério das Relações Exteriores brasileiro se opôs e afirmou que a posição do Mercosul é de “repúdio à violência e qualquer opção que envolva o uso da força” no país vizinho.

Além disso, em janeiro do ano passado, o governo brasileiro publicou nota de repúdio após Trump anunciar a construção de um muro entre os Estados Unidos e o México.

Procurada, Gleisi não respondeu.

Leia outras checagens de ‘País’ / Outras publicadas neste mês / Volte à home

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

A Lupa está infringindo esse código? Clique aqui e fale com a IFCN

 

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo