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Foto: TSE/Divulgação
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Enquanto o TSE bane conteúdo, TRE-PE treina servidores para combater fake news

por Cristina Tardáguila
18.jun.2018 | 16h19 |

Em 7 de junho, o ministro Sérgio Banhos, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tomou uma decisão polêmica: determinou que, em 48 horas, o Facebook retirasse do ar postagens que relacionavam Marina Silva, a pré-candidata da Rede ao Palácio do Planalto, à Operação Lava Jato. De um lado, os assessores da ex-ministra e do partido comemoraram. De outro, instâncias da Justiça Eleitoral ecoavam uma dúvida real: retirar conteúdos da internet é mesmo o melhor caminho para enfrentar notícias falsas?

Na última quinta-feira (14), aterrissei na chuvosa Recife para atender a um pedido do Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE). Em fevereiro, o órgão anunciou a criação de uma Central de Denúncias contra fake news. Algo inovador no Brasil. Segundo o tribunal, a “CD” nasceu como um canal liderado por um desembargador que conta com a ajuda da Polícia Federal, da Secretaria de Defesa Social e do Ministério Público Eleitoral para “receber denúncias sobre fake news, investigar e, eventualmente, punir quem estiver se utilizando desse artifício para prejudicar candidatos ou instituições”. O TRE-PE quer dar maior celeridade às ações de combate a possíveis crimes eleitorais.

“Todos os magistrados e servidores envolvidos neste trabalho serão treinados e orientados a identificar e priorizar ações para diminuir os efeitos das fake news”, disse o desembargador Luiz Carlos de Barros Figueirêdo, presidente do órgão. “Sabemos que é uma tarefa difícil, mas faremos a nossa parte”.

E foi por isso que, na semana passada, o grupo buscava treinamento. Desembargadores, diretores e secretários do tribunal, além de representantes da Presidência, da Corregedoria, da Comissão dos Desembargadores Auxiliares, da Secretaria de Tecnologia da Informação e Comunicação, da Escola Judiciária Eleitoral, da Assessoria de Comunicação e do Ministério Público Eleitoral entenderam que ainda não tinham know-how suficiente para enfrentar as notícias falsas sozinhos. Foram buscar ajuda fora de casa.

Conheci a ideia da “CD” de Pernambuco nos primeiros dias de março, num evento que reuniu representantes de vários TREs em Cuiabá (MT). No encontro, houve palestras de jornalistas, professores universitários, cientistas políticos, especialistas em direito eleitoral e funcionários tanto do Facebook quanto do Google. O tema era “Propaganda eleitoral nas mídias sociais”. Em miúdos, o eterno fake news versus eleições.

Mas, no belo auditório de Cuiabá, ouvi dúvidas de juízes e fiscais eleitorais que me preocuparam. “O que afinal é uma URL?” ou “Como sei que um post do Facebook foi patrocinado?”. Para quem está a poucas semanas do início da campanha deste ano e trabalha com notícia falsa desde 2014, foi um susto. “O pessoal da Justiça Eleitoral nem imagina o que vem por aí”, pensei com certo nervosismo.

O TRE-PE, no entanto, não só imaginou como foi atrás de capacitação. Em quatro horas de aula sobre fact-checking e debuking, o grupo da “CD” foi apresentado às ferramentas mais usadas pelos checadores profissionais do Brasil para verificar a autenticidade de fotos, áudios e vídeos. Viu que é fácil e possível acompanhar a popularidade de postagens feitas no Facebook e no Twitter, assim como descobrir sua origem e saber como elas se espalham.

Nada garante – é claro – que, no calor da eleição, o grupo de Pernambuco conseguirá de fato fazer uso das ferramentas de verificação que apresentei (Google Images, Bing, TinEye, BuzzSumo, CrowdTangle e muitas outras). Mas apostar em capacitação os colocou numa posição bem diferente da do Tribunal Superior Eleitoral, que fechou a semana com a polêmica notícia do banimento de conteúdos online.

**Este artigo foi publicado na edição digital da Revista Época em 18 de junho de 2018.

Editado por: Natália Leal

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