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Checagem automática de discursos feitos pelos políticos? Sim! Isso já existe

por Cristina Tardáguila
25.jun.2018 | 14h47 |

Imagine o dia em que um sistema será capaz de decupar de forma automática e sem qualquer erro tudo aquilo que os políticos dizem na tribuna da Câmara e do Senado e, em questão de segundos, informar o que é falso. Pois bem: esse dia chegou. Pelo menos na Inglaterra.

Na última sexta-feira (22), Meevan Babakar, responsável pelos produtos digitais do Full Fact, plataforma de checagem do Reino Unido, tomou o palco do #GlobalFactV, o quinto encontro mundial da International Fact-checking Network (IFCN), e deixou a plateia de checadores boquiaberta. No telão instalado em uma escola particular de Roma, ligou o protótipo batizado como Alpha e o conectou a um vídeo da BBC que transmitia o discurso de um político no Parlamento britânico.

Em instantes, a máquina começou a transcrever o que o parlamentar dizia com uma diferença de poucos segundos e sem falhas ortográficas. Quando o sistema “ouviu” a frase “o desemprego está caindo”, gerou automaticamente um gráfico do lado direito da tela, mostrando com clareza que a informação estava errada, segundo os dados mais recentes do próprio governo britânico. Se Meevan quisesse, poderia ter tuitado a verificação naquele mesmo minuto. Não o fez porque precisava seguir em frente com sua incrível apresentação.

Diante da plateia chocada, a jovem britânica mostrou então que o Alpha também consegue identificar no discurso dos políticos frases que já foram avaliadas pela equipe do Full Fact. Ou seja, o sistema desenvolvido na Inglaterra é capaz de “enxergar” mentiras repetidas e disparar alertas que levam o leitor para artigos previamente checados.

Como se não bastasse, Meevan revelou que o sistema também permite que os checadores profissionais estabeleçam buscas na plataforma de forma a acompanhar frases que vem sendo repetidas à exaustão e que trazem conteúdo equivocado. A ideia é ser veloz. Diminuir a distância entre a informação comprovadamente errada e a correção feita por profissionais.

Mas nem tudo que brilha é ouro. Ao fim da apresentação, Meevan foi aplaudida e precisou responder a dúvidas da plateia. Entre elas, estava a dos australianos. “Se a frase tivesse sido ‘a inflação está caindo’, o Alpha teria problemas”, disseram os fact-checkers de Sidney. “Na Austrália, há mais de um índice, e o sistema provavelmente não seria capaz de entender sobre qual deles o político estava falando. Como seria?” Meevan balançou a cabeça. O Alpha não funcionaria perfeitamente.

Daniela Flamini, pesquisadora da Duke University, nos Estados Unidos, estava no evento e entendeu a mensagem. “O Alpha deixa mais eficiente a busca por informações falsas e seu combate, mas ainda está longe de dispensar a participação de humanos”.

Na América Latina, quem está em primeiro lugar na automação do fact-checking é o argentino Chequeado. Pablo Fernández, diretor de inovação editorial da plataforma, foi à Roma na última semana para apresentar à IFCN seu Chequeabot. Trata-se de um sistema capaz de rastrear os principais jornais e sites da Argentina e selecionar frases que são passíveis de verificação – ou seja, aquelas que contêm dados, comparações ou questões relacionadas a leis.

Pablo trabalha no Chequeabot há mais de um ano, ensinando a máquina a identificar sentenças que precisam de verificação. Pouco a pouco aprimora a máquina – reduzindo o trabalho braçal de sua equipe. Assim, todas as segundas-feiras, quando sua equipe faz a reunião de pauta e decide o que será analisado, Pablo apresenta o conteúdo extraído do robô e executa a checagem de pelo menos uma frase.

“Há dois empecilhos impedindo que ambos os sistemas cresçam e possam ser usados por toda a comunidade de checadores do mundo”, conta a pesquisadora Daniela. “Um é a língua, que tem de acentos à metáforas, e o outro é a falta de mão de obra. Ao que tudo indica, ainda é preciso conquistar os desenvolvedores para a luta contra a notícia falsa”.

Para saber mais sobre o encontro mundial dos checadores, siga a hashtag #GlobalFactV.

*Este artigo foi publicado pelo site da revista Época em 25 de junho de 2018.

Editado por: Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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