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Plataformas digitais anunciam iniciativas de contra-ataque às notícias falsas

por Cristina Tardáguila
16.jul.2018 | 15h00 |

Quatro grandes iniciativas marcaram a batalha contra as notícias falsas na última semana – e todas elas vieram do Vale do Silício.

Depois de ter eliminado 70 milhões de perfis falsos entre os meses de maio e junho deste ano, o Twitter anunciou na última quinta-feira (12) que esticaria o cabo de sua vassoura digital e removeria da plataforma mais uma gigantesca leva de perfis questionáveis. Reduziria assim, numa só tacada, o número de seguidores de muitos famosos que apostaram na compra de seguidores para se tornarem numericamente mais relevantes. De quebra, desencorajaria aqueles que andam lucrando com a venda de fazendas de bots. Aos olhos do Twitter, esse negócio precisa acabar.

“Nós não podemos apoiar a compra de seguidores nem a criação de perfis falsos para inflar artificialmente determinadas contas”, disse Del Harvey, a vice-presidente do Twitter para Confiança e Segurança (Trust and Safety), ao jornal New York Times. “Queremos que as pessoas tenham confiança no número de usuários que estão verdadeiramente engajados e seguindo os perfis”.

Quem está na luta contra as fake news entende que a medida parece ter alguma conexão com a decisão de empresas de grande porte, como a Unilever, que decidiram deixar de gastar dinheiro de publicidade com influencers acostumados a comprar seguidores ou a usar robôs para tornar seus tuítes mais compartilhados. As gigantes do mundo do marketing finalmente entenderam que em muitos casos os números altos expostos nas plataformas estavam inflados por sistemas robóticos e não representavam clientes potenciais – gente de carne e osso. O boicote delas a quem segue por esse caminho pode, portanto, ter levado o Twitter a dar seu mais recente – e muito bem-vindo – passo.

Do lado do WhatsApp, a novidade também ficou visível para usuários do sistema. Desde 10 de julho, quem recebe mensagens de texto, imagens ou vídeos encaminhados vê uma marcação diferente no conteúdo – a palavra “encaminhado” aparece no alto da mensagem. Para a empresa, “essa informação extra vai ajudar as pessoas e os grupos a saber se um amigo ou familiar realmente escreveu aquilo que enviou ou se a mensagem originalmente veio de outra pessoa”. Em teoria, isso deve ajudar a diminuir a proliferação de correntes falsas no aplicativo.

E os indianos – já penalizados pelo sistema – comemoraram. Em entrevista ao Poynter Institute, Govindraj Ethiraj, fundador da plataforma de checagem Boom Live, disse esperar que essa seja apenas uma das muitas medidas tomadas pelo WhatsApp para aliviar o problema da desinformação que assola seu país. Nos últimos meses, ao menos 15 indianos foram mortos em decorrência de notícias falsas que circularam no WhatsApp. Em Roma, no início de junho, checadores profissionais questionaram a plataforma sobre a possibilidade de ter um sistema de detectação de fotos falsas por reversão de imagens (image reverse). O representante do WhatsApp prometeu analisar a hipótese.

No dia 9, foi a vez de o Youtube tornar públicas algumas de suas ideias sobre como combater notícias falsas. Entre elas, está apoiar com US$ 25 milhões organizações jornalísticas ao redor do mundo. Para receber os valores, elas precisam ser capazes de desenvolver boas operações em vídeo e linkar artigos de texto produzidos por “fontes com autoridade” em suas páginas. É claro que falta definir quem são essas fontes – e isso deve gerar muita discussão. Mas o pontapé foi dado.

O Facebook, por sua vez, resolveu iniciar na semana passada o compartilhamento de dados com uma rede de estudiosos – a Social Science One. A proposta é que a comissão de especialistas estude os efeitos da plataforma e das mídias sociais na democracia e nas eleições. Os especialistas receberão 1 milhão de gigabytes para analisar. Prometem fazer isso de forma privada e cuidadosa.

Nós, do lado de cá, esperamos os resultados.

**Este artigo foi publicado na edição digital da revista Época no dia 16 de julho de 2018.

Editado por: Natália Leal

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