A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Boulos e Vera Lúcia: os discursos das 2 chapas puras de esquerda na eleição

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
30.jul.2018 | 07h01 |

Dois partidos de esquerda oficializaram seus candidatos à presidência na última semana. O PSOL, que lançou Heloísa Helena, Plínio de Arruda Sampaio e Luciana Genro nas últimas eleições, escolheu Guilherme Boulos para encabeçar a chapa em 2018. Já o PSTU, que tem desde 1998 Zé Maria como candidato, pela primeira vez lança uma nova candidata: Vera Lúcia. A Lupa checou algumas declarações dadas pelos candidatos recentemente, veja:

“Nessa política de tudo pelo mercado, o Brasil voltou ao mapa da fome”

Guilherme Boulos, candidato do PSOL à Presidência da República, no programa Café com Boulos 6, no dia 12 de julho de 2018

AINDA É CEDO PARA DIZER

O Mapa da Fome é um estudo do Programa Alimentar Mundial (WFP), da ONU, que elenca todos os países nos quais a taxa de subnutrição é superior a 5%. Após redução nesse índice, o Brasil foi removido desse mapa em 2014, e não voltou a ele desde então. A última edição foi publicada em 2017, mas com dados referentes ao triênio de 2014 a 2016. Portanto, o efeito da crise econômica ainda não foi medido na sua integralidade.

Há estudos que mostram que a taxa de subnutrição pode aumentar a ponto de colocar o Brasil novamente no Mapa da Fome, como o relatório elaborado pelo Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para Agenda 2030. Mas ainda não é possível afirmar que isto ocorreu.

Procurado, Boulos afirma que se baseia em estudos apresentados pela ONU por mais de 40 ONGs e, por essa razão, afirma que o Brasil “inevitavelmente voltou ao mapa da fome”.


“Hoje, o acionista [de uma empresa] recebe (…) lucros e dividendos e não paga imposto nenhum por isso”

Guilherme Boulos, candidato do PSOL à Presidência da República, no programa Café com Boulos 6, no dia 12 de julho de 2018

VERDADEIRO

No Brasil, desde 1995, a distribuição dos lucros e dos dividendos das empresas não é tributada, diferentemente do que ocorre na maior parte dos países do mundo. Em todos os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com exceção da Estônia, o lucro das empresas é taxado em dois momentos. Primeiro, na obtenção ou seja, a própria empresa paga tributos sobre os lucros. Depois, quando esse dinheiro sai dos cofres da empresa e vai para os acionistas desta vez, o imposto é pago por quem recebeu o dinheiro. No Brasil, somente o primeiro passo é tributado.


“O Brasil é o quinto país em violência contra a mulher no mundo”

Guilherme Boulos, candidato do PSOL à Presidência da República, no programa Café com Boulos 7, no dia 16 de julho de 2018

VERDADEIRO

O Mapa da Violência 2015 – Homicídios de Mulheres mostra que o Brasil tem uma taxa de 4,8 homicídios para cada 100 mil mulheres. Sendo assim, ocupa a 5ª posição em uma lista de 83 países (página 38). O Brasil fica atrás de El Salvador (8,9), Colômbia (6,3), Guatemala (6,2) e Rússia (5,3). 


“[O pagamento dos juros da dívida pública] vai para os cofres de quatro bancos”

Vera Lúcia, candidata do PSTU à Presidência da República, em discurso na convenção do partido, no dia 20 de julho de 2018

FALSO

Segundo a edição de junho do Relatório Mensal Dívida Pública Federal (DPF), 96,1% da dívida, R$ 3,6 trilhões, é composta por títulos do Tesouro. Isso inclui, por exemplo, os títulos negociados pelo Tesouro Direto que, em junho deste ano, contava com 619.538 investidores ativos. Todas essas pessoas recebem uma parcela dos juros pagos pelo governo federal. Ou seja, não são apenas quatro bancos os beneficiários dos pagamentos dos juros da dívida pública.

Ainda segundo o relatório da dívida, os bancos e outras instituições financeiras, detém 22,6% dos títulos da DPF atualmente. Institutos de previdência detém 25% e fundos de investimento, 26,5%.

Procurada, Vera Lúcia afirmou que os “grandes bancos e investidores estrangeiros detêm 62% do total da dívida”. Ela afirmou ainda que os investidores ativos correspondem somente a 0,36%  do estoque da dívida interna.


“[A dívida pública] hoje leva nada mais, nada menos do que 40% de todo orçamento da União”

Vera Lúcia, candidata do PSTU à Presidência da República, em discurso na convenção do partido, no dia 20 de julho de 2018

VERDADEIRO, MAS

Segundo a Lei Orçamentária Anual de 2018, o orçamento total da União para este ano é de R$ 3,506 trilhões. Isso corresponde ao orçamento fiscal somado ao orçamento da seguridade social. Desse valor, R$ 316,2 bilhões devem ser pagos em juros e encargos da dívida, e outros R$ 1,462 trilhão serão usados para amortizar a dívida. Isso quer dizer que 50,7% dos gastos da União são com pagamentos da dívida, um percentual ainda maior do que o citado pela candidata.

Entretanto, o orçamento tem dois lados: a despesa e a receita. Quando olhamos o lado da receita, R$ 1,951 trilhão são classificadas como receitas de capital, ou seja, dinheiro que o governo, de uma forma ou outra, toma emprestado. Isso corresponde a 55,7% das receitas da União. Ou seja, na prática, o Brasil empresta mais dinheiro do que paga. Por esse motivo, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) do país cresceu de 51,5% do PIB em dezembro de 2013 para 77% do PIB em maio de 2018.

Vale destacar, ainda, que parte desse dinheiro corresponde à chamada rolagem da dívida, ou seja, o governo cria uma dívida nova para pagar uma dívida antiga.


“A classe trabalhadora tem mais de 27 milhões de desempregados, se contarmos os que perderam o emprego recentemente mais os desempregados por desalento”

Vera Lúcia, candidata do PSTU à Presidência da República, em discurso na convenção do partido, no dia 20 de julho de 2018

VERDADEIRO, MAS

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral (Pnadc/T), do IBGE, no primeiro trimestre de 2018 a chamada “força de trabalho subutilizada” era de 27,7 milhões de pessoas no Brasil. Mas esse número é composto por desempregados, desalentados e subocupados por insuficiência de horas – e não apenas desempregados e desalentados, como diz Vera Lúcia.

Para o IBGE, os desocupados, ou desempregados, são as pessoas que não trabalham, mas procuraram emprego no último mês. De janeiro a março deste ano, esse número chegou a 13,7 milhões de pessoas. Já os desalentados, pessoas que têm interesse em trabalhar, mas não buscaram empregos, somam 7,8 milhões. Por fim, 6,1 milhões de pessoas são consideradas subocupadas por insuficiência de horas – aquelas que trabalham menos horas do que gostariam. Veja os conceitos do IBGE aqui.

Editado por: Natália Leal

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo