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Representando Lula, Berzoini exagera ao falar de desemprego

por Chico Marés
02.ago.2018 | 06h00 |

Esta publicação foi corrigida às 15h12 do dia 15 de agosto de 2018. Veja abaixo.

O ex-presidente do PT Ricardo Berzoini foi sabatinado nesta quarta-feira (1) pelo portal Metrópoles. Ele representou o pré-candidato do partido à Presidência da República, o ex-presidente Lula, que não pode comparecer por estar preso em Curitiba. A Lupa checou algumas declarações de Berzoini, confira:

“No último ano do primeiro mandato do governo Dilma, o desemprego era 4,6%. Hoje, está em 13%”
Ricardo Berzoini, ex-presidente do PT, em entrevista ao portal Metrópoles, no dia 1º de agosto de 2018

EXAGERADO

Os números citados por Berzoini estão próximos de números que existem, mas são originários de duas pesquisas com metodologias diferentes, e que não devem ser comparadas. Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE, em dezembro de 2014, a taxa de desemprego no Brasil estava em 4,3%. Essa pesquisa foi descontinuada em 2016, e, portanto, não há dados atuais.

Já a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (Pnadc/M), publicada também pelo IBGE, mostra a taxa de desocupação em 12,4% no segundo trimestre de 2018. Nesta pesquisa, no último trimestre de 2014, os desocupados eram 6,5% da população economicamente ativa do Brasil.

Consultado pela Lupa, o IBGE disse que é inadequada a comparação entre os dois levantamentos. Segundo o instituto, a metodologia das pesquisas, incluindo o escopo e os questionários, são diferentes, e, portanto, os resultados não são comparáveis. Entre as diferenças, a PME era realizada somente em sete regiões metropolitanas específicas, enquanto a Pnadc/M abrange todo o país.

Procurado, Berzoini declarou que, se a PME não tivesse sido descontinuada, o número seria o mesmo, pois a diferença metodológica seria “irrelevante para períodos em que não há grandes oscilações”.


“[Foram] 20 milhões de empregos [criados nos governos do PT]”
Ricardo Berzoini, ex-presidente do PT, em entrevista no portal Metrópoles, dia 1.º de agosto de 2018

VERDADEIRO, MAS

Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho, a diferença entre o número total de pessoas empregadas entre 2002, último ano antes de Lula tomar posse, e 2015, último ano completo do PT no governo, era de 19,4 milhões.

Já o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), também do Ministério do Trabalho, mostra que, durante os governos do PT, 14,1 milhões de empregos foram criados. O número é o resultado da soma dos empregos gerados entre o primeiro mês do governo Lula (janeiro de 2003) e o último mês completo do governo Dilma Rousseff (abril de 2016).

Há diferenças importantes entre essas duas fontes oficiais que explicam a diferença nos números. Primeiro, o escopo. O Caged mostra apenas empregos no setor privado, enquanto a Rais também contabiliza empregados na administração pública. Entre 2002 e 2015, a administração pública criou 2,4 milhões de novos postos de trabalho.

Além disso, a periodicidade de atualização das duas fontes é diferente. Como o nome diz, a Rais é anual, enquanto o Caged é publicado todo mês. Por causa disso, pela Rais, não é possível saber quantos empregos foram perdidos entre janeiro e abril de 2016, últimos meses de Dilma no comando do país, enquanto no Caged esse dado está disponível.

Correção feita às 15h10 do dia 15 de agosto de 2018:  anteriormente, a Lupa havia considerado apenas o Caged para determinar o saldo de empregos no país. A agência consultou os dados da Rais e concluiu que os números citados por Berzoini são corretos. Diante disso, a etiqueta “exagerado” foi modificada para “verdadeiro, mas”. O texto e o título foram atualizados.

(Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, de janeiro de 2003, quando Lula foi empossado, até abril de 2016, quando Dilma Rousseff sofreu o impeachment, o saldo positivo entre admissões e demissões foi de 14,1 milhões – quase 6 milhões a menos do que o número citado pelo ex-presidente do PT.

Considerada as gestões petistas, o saldo de empregos chegou a 16,1 milhões no período de janeiro de 2003 a dezembro de 2014. Mas a partir de 2015, o número de demissões superou o de admissões. Assim, entre janeiro de 2015 e abril de 2016, o saldo foi negativo em 2 milhões de vagas. Veja o levantamento aqui.

Procurado, Berzoini disse ter baseado sua declaração em números da Relação Anual de Informações do Trabalho (RAIS), também do Ministério do Trabalho, citando matéria do site Rede Brasil Atual.)


“Essa reforma [trabalhista] do Temer não gerou emprego, ao contrário, está gerando desemprego e precarização”
Ricardo Berzoini, ex-presidente do PT, em entrevista no portal Metrópoles, dia 1.º de agosto de 2018

AINDA É CEDO PARA DIZER

A reforma trabalhista foi sancionada em 13 de julho do ano passado, mas entrou em vigor somente em 11 de novembro. Entre o quarto trimestre de 2017, quando a reforma foi sancionada, e o segundo trimestre de 2017, o número de desempregados cresceu de 12,3 milhões para 13 milhões. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Mensal (PnadC/M), do IBGE. No entanto, o próprio instituto recomenda que, nesses casos, a comparação seja feita entre iguais períodos de anos diferentes, ou seja, apenas no quarto trimestre de 2018 será possível avaliar se o desemprego subiu ou caiu após a reforma.

Essa recomendação existe por conta da sazonalidade. O desemprego varia, usualmente, ao longo do ano no início, tende a ser maior, e, no final, menor. Portanto, o mais recomendado é comparar os números de períodos equivalentes. Em 2017, antes da reforma entrar em vigor, eram 13,7 milhões de desempregados portanto, 700 mil a mais do que no último trimestre.

Procurado, Berzoini declarou que “a minúscula queda do desemprego deve-se ao aumento do desalento (pessoas que desistem de procurar) e à geração de ocupações por conta própria, que não caracterizam emprego”. Ele ressaltou, ainda, aumento na informalidade e disse que isso seria reconhecido até por “analistas da grande mídia”.


“O PT, hoje, tem 20% da preferência do eleitorado”
Ricardo Berzoini, ex-presidente do PT, em entrevista no portal Metrópoles, dia 1.º de agosto de 2018

VERDADEIRO

Segundo a última pesquisa Datafolha, de junho de 2018, 19% dos eleitores declararam ter o PT como partido de preferência. PMDB e PSDB têm 3% da preferência dos consultados, enquanto PSOL, PDT e PV aparecem com 1%. Nenhum outro partido atingiu a marca de 1% da preferência dos eleitores. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.


“Nós [o Distrito Federal] temos a renda per capita mais alta do brasil e uma das maiores desigualdades”
Ricardo Berzoini, ex-presidente do PT, em entrevista no portal Metrópoles, dia 1º de agosto de 2018

VERDADEIRO

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do IBGE, em 2017 a renda familiar mensal média do Distrito Federal era de R$ 2.548. Entre as unidades da federação, é a mais alta em São Paulo, que tem a segunda maior renda, a média é de R$ 1.712.

Já a Síntese dos Indicadores Sociais (SIS), também do IBGE, mostra que o Distrito Federal tem um índice de Gini de 0,567. É o mais alto entre as unidades da federação e o terceiro mais alto entre as capitais, atrás somente de Recife (0,621) e Natal (0,581). A média brasileira é de 0,525. O índice de Gini é uma das métricas usadas no cálculo da desigualdade. Quanto mais alto ele for, mais desigual uma economia é.

Editado por: Natália Leal

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VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
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Não há dados públicos que comprovem a informação
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A informação está comprovadamente incorreta
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