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Estudo da DAPP FGV identificou ação de robôs na plataforma durante debate na última quinta (9). Foto: DAPP FGV
Estudo da DAPP FGV identificou ação de robôs na plataforma durante debate na última quinta (9). Foto: DAPP FGV

Sob críticas, Twitter ‘desafia’ contas no Brasil com sistema que ‘não lê conteúdo’

por Clara Becker e Cristina Tardáguila
13.ago.2018 | 14h35 |

Esta publicação foi corrigida às 13h32 do dia 14 de agosto de 2018. Veja abaixo.

“O algoritmo usado para detectar contas automatizadas no Twitter é o mesmo no mundo inteiro. Ele não sabe ler conteúdo, apenas padrões de comportamento”. Foi assim – de forma taxativa – que, na última sexta-feira (11), o vice-presidente global de Políticas Públicas do Twitter, Colin Crowell, negou que sua plataforma esteja agindo contra perfis de direita no Brasil.

Crowell esteve em São Paulo por conta da proximidade das eleições. Deu entrevista a alguns meios de comunicação (Folha e BuzzFeed) e, na manhã de sexta, reuniu-se com um grupo de fact-checkers profissionais. Um dia antes, a International Fact-checking Network (IFCN) tinha publicado um artigo duro, questionando a falta de propostas da rede para combater notícias falsas na plataforma. Crowell queria mostrar o que estava sendo feito.

No encontro, que durou pouco mais de uma hora, defendeu que a ação realizada pelo Twitter no Brasil se assemelha à do resto do mundo. Todas as semanas, a plataforma analisa cerca de 10 milhões de contas ativas na rede por conta do que considera atividades suspeitas – e não detalha muito sobre isso. A partir daí, toma medidas: desafia os donos dessas contas a provar que não são robôs.

Primeiro, a rede bloqueia temporariamente seus perfis e pede a seus proprietários que insiram um número de telefone ou um reCAPTCHA para poder voltar a tuitar. O Twitter faz questão de mudar a pergunta do desafio de tempos em tempos de forma a impossibilitar o desenvolvimento de sistemas automáticos de resposta. Mesmo quem não executa a verificação segue visível na rede, só não consegue fazer novos tuítes.

Nos últimos seis meses, por exemplo, 95% das contas suspeitas de relação com terrorismo “desafiadas” pelo Twitter foram identificadas pelo uso da tecnologia de machine learning, conta Crowell, sem dar detalhes sobre o Brasil. Desse montante, 75% foram excluídas antes mesmo do primeiro tuíte, o que confirma a presença massiva de robôs agindo na plataforma. E é contra essa automatização maliciosa – e não tanto contra noticia falsa – que o Twitter parece querer brigar nas eleições de 2018.

O resultado até agora, no entanto, é a polêmica entre o TW Brasil e os perfis de direita, que na última semana levaram a hashtag #DireitaAmordaçada a figurar entre os Trending Topics – os assuntos mais comentados na própria plataforma. A isso se somaram discursos nas tribunas de Brasília (Eduardo Bolsonaro) e protestos virtuais durante o primeiro debate presidencial das eleições deste ano.

Na última quinta-feira (10), circulou nas redes sociais a “notícia” de que o Twitter teria removido menções ao candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) dos Trending Topics durante o debate da Band. Levantamento feito pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas indicou que o conteúdo acabou sendo um dos 10 que mais repercutiram no Facebook e no Twitter entre as 12h de quinta (9) e as 12h de sexta (10). Mas uma análise detalhada indica o seguinte: a imagem usada para sustentar a afirmação não mostrava os Trending Topics, mas sim os Assuntos para você, uma lista de temas recomendados para cada usuário.

O Twitter explicou à Lupa como os dois espaços funcionam. De acordo com a plataforma, a lista dos Assuntos para você é elaborada por um algoritmo que leva em consideração os perfis com os quais o usuário mais interage e sua localização. Ou seja: não diz respeito ao que está sendo mais comentado no Twitter, de uma forma geral, num determinado momento, tratando-se apenas de sugestões personalizadas para cada conta na rede social.

Já os Trending Topics são “determinados por um algoritmo que identifica os tópicos populares da atualidade de acordo com uma série de variáveis. A lista de TTs é dinâmica e se baseia exclusivamente nas atividades das pessoas na plataforma”, diz a nota enviada pelo Twitter à Lupa.

Ou seja, apesar da queixa da direita, o Twitter nega estar agindo contra o grupo. Sua ferramenta, insiste a rede, observa apenas o comportamento das contas. Não entende o conteúdo do que foi tuitado. Não sabe se é de direita ou esquerda. Piada ou assunto sério. Mas a Lupa seguirá acompanhando o caso. De perto.

Correção feita às 13h30min do dia 14 de agosto de 2018: anteriormente, a Lupa afirmou que “Nos últimos seis meses, 95% das contas “desafiadas” pelo Twitter no mundo todo foram identificadas pelo uso da tecnologia de machine learning”. Porém, esse percentual corresponde apenas às contas associadas a terrorismo. O Twitter esclareceu a informação. O texto foi corrigido.

Editado por: Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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