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Contra vídeos falsos? Cheque a respiração, o pulso e até o piscar de olhos

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
20.ago.2018 | 14h00 |

O calendário fixado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determina que a propaganda de TV começa na próxima semana, na sexta-feira (31). A partir daí, o Brasil será inundado por vídeos com conteúdo político diverso, feito por milhares e milhares de candidatos. E o que isso tem a ver com notícias falsas? Tudo: nos obriga a ampliar a conversa sobre fake news para o mundo dos vídeos.

Todos aí sabem o que são deepfakes? Aquelas gravações fraudulentas, adulteradas, super bem feitas e de difícil detecção? Todos aí sabem que, para identificar os deepfakes os checadores profissionais vêm estudando até mesmo como verificar a pulsação, a respiração e o piscar de olhos das pessoas filmadas? Pois bem. Vêm aí o incrível mundo da manipulação audiovisual e o próximo desafio para os fact-checkers.

De acordo com o site TechTudo, o termo deepfake surgiu em dezembro de 2017, quando um usuário que usava esse codinome no Reddit começou a postar no fórum online vídeos falsos de sexo usando imagens de mulheres famosas, entre elas as atrizes Gal Gadot e Emma Watson. De lá para cá, os deepfakes avançaram não só no território pornô, mas também no político – e já é possível achar exemplos de gravações adulteradas com personalidades do porte de Barack Obama, Vladimir Putin e muitos outros líderes mundiais.

Quem trabalha com a produção e a edição audiovisual – sobretudo na indústria cinematográfica – sabe que não é tão difícil assim manipular imagens e gravações. Ferramentas como o Adobe Cloak, por exemplo, permitem deletar partes de um edifício, retirar pessoas de uma determinada cena, trocar o fundo e assim por diante.

Nos smartphones, sistemas aparentemente inofensivos como o FaceSwap, do Snapchat, também fazem a festa. Com extrema facilidade, permitem misturar rostos para gerar imagens híbridas. Quem aí ainda nunca testou esse artifício (e até riu)?

Mas há projetos mais assustadores no universo da manipulação audiovisual. O Face2Face e o Deep Video Portraits viabilizam, por exemplo, que os movimentos faciais de uma determinada pessoa (um ator) sejam transferidos para outra, sem que ela saiba ou tenha autorizado.

Os desenvolvedores afirmam que isso ajuda indústrias como a do cinema. Evita refilmagens e barateia custos. Também pode melhorar sistemas como o FaceTime e o Skype de vídeo, mas o mau uso está claro e solto por aí. Geoge W. Bush já é visto piscando copiosamente e fazendo caretas inusitadas em gravações adulteradas a partir do YouTube. Assista (em inglês):

 

Há, ainda, quem se dedica a editar áudios para que eles encaixem com precisão em vídeos. O LipSync Obama Project conseguiu inserir uma frase dita pelo jovem Obama em 1990 na boca do político democrata quando ele ocupava a Casa Branca. Tratava-se de um trabalho acadêmico da Universidade de Washington, feito sob supervisão, mas imagine o estrago que algo assim pode causar numa campanha eleitoral. Veja a seguir, a partir de 5min16seg (em inglês):

O deepfake é a próxima fronteira para quem trabalha todos os dias com fact-checking político. E, para vencê-la, é indispensável acompanhar de perto os avanços tecnológicos disponíveis.

A Witness é uma organização internacional sem fins lucrativos que recentemente fez uma parceria com o First Draft, coalizão de empresas de tecnologia, veículos de comunicação e universidades da qual a Agência Lupa faz parte, e preparou uma análise robusta sobre os deepfakes, mostrando o que há de mais moderno para combatê-los.

Um dos mecanismos mais impressionantes é a análise da pulsação da pessoa filmada. Amplificando poucos pixels de um vídeo é possível ver se a cor de sua pele se altera conforme a passagem do sangue. Essa alteração tem que existir e ser constante. Caso não haja, o deepfake fica comprovado. O mesmo tipo de análise pode ser feito com a respiração. Entenda no vídeo (em inglês):

E a parceria entre checadores e ciência vai além. Os olhos também estão em constante movimento e podem indicar adulterações. “Piscar de forma espontânea é uma função biológica importante para limpar os olhos e remover impurezas”, escreveram os pesquisadores da Universidade de Albany. Em repouso, a média humana é de 17 piscadas por minuto. Quando o ser humano está lendo, o que acontece muito com políticos em discursos e jornalistas diante de teleprompters, as 17 piscadas caem para 4,5 por minuto. Assim, com esses e mais alguns números na cabeça o grupo de estudiosos passou a analisar vídeos e flagrou ao menos um grande falso.

Na gravação original, o homem observado piscava no segundo 75. Na adulterada, nenhuma vez. Bingo! Deepfake! Não é mesmo genial?

*Este artigo foi publicado pelo site da revista Época no dia 20 de julho de 2018.

Editado por: Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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