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Bolsonaro e Marina em discussão durante o debate na RedeTV, na última sexta (Foto: Reprodução)
Bolsonaro e Marina em discussão durante o debate na RedeTV, na última sexta (Foto: Reprodução)

Falas falsas de presidenciáveis sobre salário de homens e mulheres no debate da RedeTV impactam discussões no Twitter

por Equipe Lupa
22.ago.2018 | 10h00 |

As checagens da Lupa sobre a desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho foram as que tiveram maior destaque nas conversas geradas no Twitter sobre as afirmações falsas ditas pelos presidenciáveis durante debate na RedeTV, na última sexta-feira (17). A análise é da FGV DAPP, parceira da Lupa na Sala de Democracia Digital – #observa2018.

A afirmação de Jair Bolsonaro (PSL) de que nunca tinha defendido que mulheres devem ganhar menos do que homens, classificada como falsa pela agência, e a reação de Marina Silva (Rede) à fala geraram 23,5 mil referências diretas, ou quase 7% das referências conjuntas aos candidatos. Entre as principais menções, a maioria acusa Bolsonaro de ter mentido: cerca de 3 mil tuítes trazem o link para a entrevista que desmente a afirmação. Alguns usuários, porém, especialmente mulheres, defendem o candidato e afirmam que a falta de igualdade salarial não seria uma realidade e refletiria tentativa de vitimização de Marina.

A afirmação de Henrique Meirelles (MDB) de que 76% das mulheres ganham menos do que os homens para exercer a mesma função e tendo a mesma qualificação – também incorreta – motivou 1.316 referências ao candidato do MDB. Entre as postagens mais retuitadas, estão críticas à postura — não pela incorreção nos dados, mas pela compreensão de que se tratou de uma tentativa de aproximação com os movimentos sociais. Também foram recorrentes afirmações de que não haveria desigualdade de gênero no mercado de trabalho, ao contrário do afirmado por Meirelles.

Já a repercussão das falas dos candidatos sobre economia consideradas falsas pela Lupa foi menor. A afirmação de Ciro Gomes (PDT) de que as “lideranças de São Paulo” sempre foram contra a criação do IVA (Imposto sobre Valor Agregado) não mobilizou debate significativo nas 48h analisadas. Foram 755 referências ao assunto, somadas as menções a Geraldo Alckmin (PSDB), a quem Ciro se dirigia. Quando relacionadas apenas ao tucano, as publicações dividem-se entre o apoio à medida e uma certa “incredulidade” quanto a sua efetividade. Já nas menções ao candidato do PDT, predomina o reforço à informação falsa, por meio de narrativas pelas quais o PSDB teria mudado de ideia e copiado a proposta de reforma tributária de Ciro.

A atribuição de autoria do Plano Real ao governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso por Alckmin motivou 663 referências, que, em geral, ironizam o erro do candidato. Segundo as postagens mais retuitadas, a fala foi uma tentativa de legitimar os governos do PSDB, o que apontaria a falta de ações positivas. Também foi destacada a briga entre Alckmin e Ciro pela “paternidade” do Plano Real.

Enquanto isso, a tentativa de Meirelles de não se identificar como político, destacando sua trajetória no setor financeiro, motivou 1.053 publicações. Dessas, cerca de 50% referem-se à checagem da Lupa de que a informação é falsa – Meirelles foi presidente do Banco Central e ministro da Fazenda, além de ter sido eleito deputado estadual. O candidato foi criticado pelo que, na opinião de alguns usuários, seria uma tentativa também de se afastar do governo Michel Temer.

Menções a Marina crescem após embate com Bolsonaro

O segundo debate presidencial de 2018 teve baixa atuação de contas automatizadas em proporção ao total de interações na rede, com 278 robôs. Estes, contudo, foram responsáveis por 12,6 mil interações (2% dos retuítes) — volume relevante dada a alta quantidade de publicações sobre o debate. Usualmente com baixo engajamento nas redes, Marina Silva viu as menções ao seu nome no Twitter, de forma geral, dispararem após o debate na RedeTV. O principal motivo foi o embate com Jair Bolsonaro envolvendo esse tema, além de aborto e desarmamento. Em 48h (de 20h de sexta-feira a 20h de domingo), foram registradas cerca de 400 mil referências a Marina – volume 26,5% maior do que o total de citações a ela em todo o restante do mês de agosto. O enfrentamento com Bolsonaro respondeu por 75% dos registros. Se somadas as menções aos dois presidenciáveis, foram identificadas 354,4 mil publicações sobre a discussão durante o debate.

Mapa de interações sobre os presidenciáveis – das 21h de 17 de agosto às 12h de 18 de agosto

Até o debate na Rede TV, Marina se mantinha com baixa capacidade de atração de perfis e discussões temáticas no Twitter, sem conseguir se posicionar em um núcleo específico de apoiadores. Lula, Ciro Gomes, Bolsonaro e mesmo João Amoêdo, que tem baixos números nas pesquisas de intenção de voto, já reúnem ao redor de si na rede social grupos próprios de influência, nos quais conseguem obter impacto com o que publicam. Com a repercussão do embate com Bolsonaro, a candidata da Rede foi “adotada” pelo mais grupo mais volumoso das discussões no Twitter sobre os presidenciáveis.

Análise de perfis automatizados

O mapa de interações gerado a partir de 962.056 tuítes e 621.969 retuítes sobre os presidenciáveis — já com a remoção das interações feitas por contas automatizadas — entre as 21h de sexta-feira (17) e as 12h de sábado (18) mostra que Marina foi a principal influenciadora do grupo laranja, que reuniu 45% dos perfis. As menções do grupo se alternaram entre elogios e agradecimentos à ex-senadora por “enfrentar” Bolsonaro, e publicações de cunho humorístico, que ironizam o deputado federal e outros candidatos. Esse grupo, que, em análises anteriores, normalmente se articulava a partir da oposição a Bolsonaro, desta vez se organizou em função da fala de Marina para criticá-lo, conduzindo a candidata a uma centralidade de impacto na rede social que ainda não havia alcançado nestas eleições.

Bolsonaro e seu grupo estável de apoio estão no núcleo em azul-escuro (26,5% dos perfis) e também se engajaram fortemente para defendê-lo na contraposição a Marina e aos grupos contrários ao deputado federal. A postagem mais retuitada (4.670 vezes) foi uma crítica de Bolsonaro ao Twitter, acusando a rede social de derrubar hashtags nos trending topics. No primeiro debate entre os presidenciáveis, também houve essa acusação por parte dos usuários – a informação foi considerada falsa pela Lupa.

Ainda à direita, João Amoêdo – que não participou do debate – reuniu 4,7% dos perfis no grupo em azul-claro, com debate em geral voltado a críticas aos presidenciáveis convidados e à representação política das principais chapas concorrendo à Presidência. O núcleo de apoio a Lula (em vermelho) concentrou 12,4% dos perfis, enquanto o grupo em rosa, também de inclinação à esquerda, respondeu por 7,4% dos perfis. Já a base de apoio de Ciro (em verde) teve 1,3% dos perfis participantes na repercussão do debate da Rede TV.

O grupo de Bolsonaro e o grupo petista novamente foram os que mais apresentaram atividade de robôs — 2,6% e 2,9%, respectivamente, das interações foram não-orgânicas. No total, nos seis principais núcleos de discussão, 278 contas eram robôs, mas eles foram responsáveis por 12,6 mil interações, um número considerado expressivo. O baixo percentual observado na análise decorre, sobretudo, do alto volume de postagens sobre o debate (o grafo reúne 621.969 retuítes). As duas análises são feitas com base em metodologia desenvolvida pela FGV DAPP e que pode ser conferida na seção de metodologia da Sala de Democracia Digital.

* A Lupa é parceira da FGV DAPP na Sala de Democracia Digital – #observa2018.

** Esta análise foi produzida pela FGV DAPP.

Editado por: Natália Leal

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