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Facebook remove ‘santinhos’ falsos, mas WhatsApp nada faz contra fraude

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.ago.2018 | 14h00 |

No mar de desinformação em que o WhatsApp se transformou, “santinhos” de candidatos à Presidência da República com números de urna trocados fizeram a festa ao longo da última semana. É preciso redobrar a atenção ao receber mensagens desse tipo por lá. O aplicativo ainda é terreno no qual o trabalho dos fact-checkers profissionais parece ter pouco impacto. Por isso, redobre sua atenção.

Na manhã da última segunda-feira (20), logo cedo, entrou no meu celular a foto do candidato Jair Bolsonaro (PSL) com o seguinte texto: “Passando para lembrar que o número de Jair Bolsonaro é 13”. “Não. O número dele é 17”, pensei. “Que truque baixo…”.

Pouco depois, recebi a segunda imagem. Era Marina Silva (Rede), com a frase: “Não vamos desistir do Brasil. Presidente Marina 17”. “Não!”, repeti. “Marina é 18 na urna”. E não parou por aí. Um amigo me encaminhou as versões de “Geraldo Alckmin 17 Presidente” e “Guilherme Boulos presidente – PSOL 17”. Para esclarecer de uma vez por todas: nas urnas, Alckmin será 45; e Boulos, 50. As fotos que recebi tinham sido adulteradas e consistem em fraude eleitoral.

Mas o ponto desta coluna é outro. Usando ferramentas como o CrowdTangle, a Lupa conseguiu saber que essas imagens haviam aterrissado no Facebook e que, naquele dia, já contavam com mais de 10 mil interações. Na tarde da própria segunda-feira, os checadores preparam um farto material, atestando a falsidade das fotos, e informaram não só a plataforma, como também seus usuários sobre a inveracidade daqueles conteúdos. A partir dali, o Facebook tomou medidas. Considerou que as imagens em questão feriam “os padrões da comunidade”, consistiam em “declarações de intenção ou apoio a fraude” e optou por removê-las da rede.

No WhatsApp, no entanto, nada pôde ser feito – e olha que estamos falando da mesma empresa. O Facebook comprou o aplicativo de mensagens em 2014, lembra? A Lupa não conseguiu medir o alcance dos “santinhos” falsos no WhatsApp. Não pôde rastrear sua origem nem alertar quem gerencia o sistema sobre sua existência.

A atuação dos checadores profissionais no WhatsApp é quase zero – no Brasil e no mundo. E isso dá uma sensação de impotência, de batalha perdida. Nas eleições de 2018, o aplicativo continua sendo a grande caixa preta, o lugar onde o cuidado do eleitor precisa ser redobrado. E é só isso que os fact-checkers podem pedir: sua atenção redobrada. “Na dúvida, não compartilhe” nada no WhatsApp.

Na Índia, país que vem padecendo com casos de linchamentos e mortes decorrentes de notícias falsas espalhadas pelo app, o governo tomou uma medida radical. Pediu que a empresa torne possível rastrear a origem de uma determinada mensagem. Os indianos querem saber quem foi o primeiro a postar textos, vídeos e imagens falsos – e, em seguida, a lista dos que compartilharam esses conteúdos. O pedido já foi oficialmente negado. O WhatsApp não tem nenhum plano de suspender a criptografia que usa.

Na tentativa de equilibrar sua posição, resolveu, no entanto, tomar medidas – não só lá, como aqui no Brasil também – para tentar minimizar as fake news. Assim, já não é possível encaminhar uma informação para mais de 20 contatos, e conteúdos “encaminhados” vêm, há algumas semanas, com uma etiqueta chamativa no alto da mensagem para que não haja dúvida de que seu contato não foi o autor daquele conteúdo que você acaba de receber. Além disso, o WhatsApp lançou uma configuração de grupo em que é possível fazer com que só o administrador fale com todos – em vez de permitir uma conversa ampla e infinita – e abriu um programa de pesquisas que oferece bolsas de até US$ 50 mil para quem quer estudar formas de combater notícias falsas no app. Entre os temas de estudo, está o uso do aplicativo para distribuição de conteúdo inverídico capaz de influenciar voto e/ou eleição.

Por fim, vale lembrar aos usuários do WhatsApp que, aqui no Brasil, existe outra polêmica envolvendo o sistema de troca de mensagens. Em agosto deste ano, o Tribunal de Justiça de São Paulo deu uma sentença determinando que o administrador de um grupo pode ser – sim – responsabilizado pelo que lá é dito e distribuído. Nesse caso específico, tratava-se de uma condenação por danos morais, de uma administradora que não coibiu ofensas cometidas contra um dos membros de seu coletivo. Mas, ao emitir a sentença, a Corte se baseou no artigo 186 do Código Civil e resolveu multá-la em R$ 3 mil. O artigo em questão estabelece que “aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”.

Imagine, agora, se uma campanha eleitoral faz uso dessa jurisprudência? Será que os grupos de WhatsApp precisarão de termos de uso? E como ficariam aqueles em que todos são administradores? Enfim, como será o futuro do aplicativo?

*Este artigo foi publicado no site da revista Época em 27 de agosto de 2018.

Editado por: Natália Leal

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