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Em entrevistas, João Amoêdo erra ao falar sobre educação e outros partidos

por Nathália Afonso e Plínio Lopes
31.ago.2018 | 14h00 |

Pelo fato de o Novo não ter o mínimo de cinco parlamentares em Brasília, João Amoêdo, candidato da sigla à Presidência da República, não tem sido convidado a participar dos debates de televisão. Para equilibrar essa ausência, frequenta programas de entrevista e usa as redes sociais para alcançar os eleitores. O presidenciável esteve, por exemplo, no Canal Livre, da Band, na última segunda-feira (27). A Lupa checou algumas das frases ditas por ele no programa e em outros momentos. Veja o resultado a seguir:

“No ranking do Pisa, o ensino público fica, mais ou menos, na posição 63º em 70”
João Amoêdo, candidato à Presidência da República pelo Novo, em entrevista ao Canal Livre, da Band, no dia 27 de agosto de 2018

INSUSTENTÁVEL

Não há um ranking único do Pisa (Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes, em português), mas sim três listas, por áreas de conhecimento: ciência, matemática e leitura. Também não há um dado que englobe todos os resultados obtidos por todos os alunos do “ensino público”, como citou o candidato. Os rankings do Pisa são divididos pelas três esfera administrativa: municipal, estadual e federal.

No último levantamento, de 2015, as escolas estaduais – que correspondiam a 86% do ensino público – ocupavam o 65º lugar em ciência, 61º lugar em leitura, 67º em matemática. Mas as municipais (11% das escolas públicas) ficavam em 72º lugar em ciências, 72º lugar em leitura e 72º lugar em matemática – nove posições abaixo do mencionado pelo candidato. As escolas federais eram 2% do ensino público e tinham índices melhores do que a média da OCDE, que faz o levantamento. Veja aqui.

O Pisa é uma prova realizada a cada três anos em diversos países e economias do mundo. O estudo mais recente avaliou alunos de 15 anos em 72 países.

Procurada, a assessoria de João Amoêdo indicou que utilizou a média entre as três avaliações do Pisa para gerar um ranking próprio e único. A OCDE, no entanto, não utiliza essa média para comparar os países analisados.


“[O governo federal] Investe três vezes mais por aluno [do ensino superior] do que no ensino básico fundamental”
João Amoêdo, candidato à Presidência da República pelo Novo, em entrevista no Canal Livre, da Band, no dia 27 de agosto de 2018

VERDADEIRO, MAS

Os dados do relatório “Education at a Glance 2017”, da OCDE, mostram que o investimento por aluno no ensino superior foi três vezes maior do que no ensino fundamental no Brasil em 2014. No ciclo inicial do ensino fundamental, o governo investiu, segundo a publicação, menos de R$ 5 mil por aluno. No ensino superior, mais de R$ 15 mil.

Mas dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) sobre o mesmo ano indicam que a disparidade foi menor. Em 2014, a União destinou 1,8 vez mais verba por aluno no ensino superior frente ao total gasto com aluno no ensino fundamental: R$ 21.875 contra R$ 11.838. Este é o dado mais recente disponível no órgão.


“O PSDB tem uma cláusula [em seu estatuto] que diz que, se você é cargo comissionado, você tem que direcionar uma parte do seu salário para o partido”
João Amoêdo, candidato à Presidência da República pelo Novo, em entrevista no Canal Livre, da Band, no dia 27 de agosto de 2018

FALSO

Na atual versão do estatuto do PSDB, que data de 2015, não existe nenhuma cláusula que estabelece que filiados do partido que ocupam cargos comissionados precisam contribuir com a sigla, como afirmou Amoêdo. Vale destacar, no entanto, que a versão de 2003 continha um parágrafo que estabelecia o seguinte: “os filiados que exercerem funções […], exoneráveis ‘ad nutum’, contribuirão, mensalmente, com quantia equivalente a 3% do seu vencimento ou remuneração bruta”. A assessoria do PSDB confirmou que essa cláusula “não existe” atualmente.

A assessoria de João Amoêdo citou, por sua vez, o artigo 143 do estatuto do PSDB, que “prevê que 3% das remunerações dos parlamentares (subsídios variáveis, adicionais e extraordinários) vão para o partido”. De acordo com a assessoria, se o deputado ou senador for indicado para um cargo comissionado, a remuneração do partido também aumentaria. Mas, no artigo em questão, não há qualquer menção a transferência de valores ganhos por filiados comissionados à legenda.


“O PT (…) tem uma cláusula [em seu estatuto] que diz que, se você é cargo comissionado, você tem que direcionar uma parte do seu salário para o partido”
João Amoêdo, candidato à Presidência da República pelo Novo, em entrevista no Canal Livre, da Band, no dia 27 de agosto de 2018

VERDADEIRO

O estatuto do Partido dos Trabalhadores, no artigo 184, estabelece que os filiados que ocupam cargos comissionados devem contribuir mensalmente para o partido (página 44). O percentual do repasse depende do fato de o filiado estar ligado ao diretório municipal, estadual ou federal da legenda (página 46).


“Tem uma vantagem no meu caso: não tenho rejeição”
João Amoêdo, candidato pelo Novo à Presidência da República, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo no dia 18 de agosto

FALSO

A pesquisa do Datafolha do dia 11 de junho mostrava João Amoêdo com uma rejeição de 10%. Outros dois pré-candidatos à época – João Goulart Filho (PPS) e Guilherme Afif (PSD) – apresentavam o mesmo índice. Eles tiveram a menor rejeição entre os 21 nomes analisados pelo instituto. Duas pesquisas publicadas após a entrevista de Amoêdo à Folha sustentam que o candidato continua com algum índice de rejeição. O levantamento do Ibope de 20 de agosto mostra Amoêdo com 10% de rejeição, junto com Vera Lúcia (PSTU) e Goulart Filho. Já a pesquisa do Datafolha de 22 de agosto indica que a rejeição ao candidato do Novo cresceu para 17%. Este levantamento aponta ainda que o candidato do Podemos, Alvaro Dias, teve uma rejeição menor do que a do empresário (16%).

Procurada, a assessoria de João Amoêdo afirmou que, em comparação com outros candidatos, a rejeição dele é “muito pequena, ínfima, praticamente inexistente”.


“O Brasil hoje é o 9º país do mundo com a maior quantidade de homicídios a cada 100 mil habitantes”
João Amoêdo, candidato à Presidência da República pelo Novo, em entrevista no Canal Livre, da Band, no dia 27 de agosto de 2018

SUBESTIMADO

Os dados do Banco Mundial mostram que o Brasil aparece em 7º lugar no ranking de taxas de homicídio – não em 9º, como afirmou Amoêdo. São 27 assassinatos a cada 100 mil habitantes. El Salvador, Honduras, Venezuela, Jamaica, África do Sul e Trinidad and Tobago são os países que se encontram à frente do Brasil, considerando os números de homicídios por 100 mil habitantes. Os dados são de 2015.

Procurada, a assessoria de João Amoêdo afirmou que “há alguns países sem dados para 2015, como Guatemala e Belize”. Por essa razão, para os países em que não tinha dado, a assessoria utilizou os números de 2014 do Banco Mundial. Contudo, sabe-se que, metodologicamente, não é correto misturar dados de anos diferentes. Vale destacar ainda que, em 2014,  o Brasil se encontrava na 10ª posição.


“Os funcionários públicos do nível federal ganham 69% a mais na mesma função da iniciativa privada”
João Amoêdo, candidato à Presidência da República pelo Novo, em entrevista no Canal Livre, da Band, no dia 27 de agosto de 2018

VERDADEIRO

Divulgado em novembro de 2017, um estudo do Banco Mundial mostra que um servidor público ganha 67% a mais que um funcionário da iniciativa privada, mesmo que ambos tenham o mesmo cargo e formação profissional. O estudo informa ainda que o “prêmio salarial” do funcionalismo no Brasil é o maior do que 52 países analisados pelo Banco Mundial.

Editado por: Cristina Tardáguila e Natália Leal

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VERDADEIRO, MAS
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EXAGERADO
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CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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