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Museu Nacional em chamas: a checagem muito além das declarações

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
06.set.2018 | 12h00 |

Numa metáfora pungente do país em ruínas, os brasileiros viram o Museu Nacional ser consumido pelas chamas no domingo (2). Quando o Brasil acordou, na segunda-feira (3), a Agência Lupa já tinha conferido os programas de governo que os candidatos à Presidência entregaram ao Tribunal Superior Eleitoral. Informou: só dois apresentam proposta para os museus; sete contêm orientações para a área cultural, mas sem mencionar museus; e quatro nem sequer abordam o tema da cultura.

O leitor ganha quando a Lupa vai além do relevante serviço de checagem de afirmações. Candidatos não falam só por entrevistas: programas de governo expressam o que eles propõem como projeto de nação. Discursos, projetos de lei, declarações de bens e doações de campanha constroem o pensamento de um político e contam sua história. Além, é claro, de realizações deles no Executivo ou como ex-integrantes do Judiciário.

Por não se restringir a escrutinar declarações prévias, a Lupa enriqueceu seu trabalho. Não ficou refém de discursos eleitoralmente calibrados. Comparou dados sem usar etiquetas. Variou o formato do texto. Valorizou a apuração, combateu a desinformação e ofereceu uma informação relevante que estava ao alcance do público, mas para a qual ninguém ainda tinha atentado. O bom e velho furo. A agência deveria apostar mais nesse modelo.


Os leitores não viram na Lupa

1) É mesmo autêntico o vídeo em que candidato do PSL ao Planalto, Jair Bolsonaro, propõe “fuzilar a petralhada” do Acre? Quem leu somente a Lupa não sabe.

Nota da redação: Não recebemos nenhuma denúncia questionando a veracidade deste vídeo.

2) A candidata da Rede, Marina Silva, afirmou em sua  entrevista ao Jornal Nacional em 30 de agosto: “No Rio Grande do Sul, estamos coligados com um jovem que foi prefeito de Pelotas e, sobre ele, não pesa absolutamente nada”. Não valeria checar? Na disputa pelo governo gaúcho, a Rede apoia Eduardo Leite (PSDB). Um assunto candente da campanha do RS é a investigação do Ministério Público para apurar fraudes em exames de prevenção do câncer feitos por uma clínica contratada pela Prefeitura de Pelotas durante a gestão de Leite (2013-2016).

Nota da redação: O escopo da cobertura da Lupa nas eleições de 2018 é claro: checamos informações relativas à disputa presidencial e às campanhas de RJ, SP e DF.

3) Ainda da série de entrevistas ao JN: leitores cobram verificação sobre a afirmativa de Bolsonaro a respeito de repasses federais à Rede Globo. A emissora se pronunciou no dia seguinte. Ainda é tempo de a Lupa conferir a declaração do candidato.

Nota da redação: a emissora se pronunciou sobre o assunto.


Menos médicos

Em sabatina promovida por Folha de S.Paulo, UOL e SBT, o candidato do PDT, Ciro Gomes, afirmou: “Só temos 3 mil pediatras licenciados no Brasil”. A Lupa qualificou como “falso”. Informou que, segundo o Datasus, em julho de 2018 havia no Brasil 38.882 registros ativos de pediatras, e que, desses, 28.991 atendiam pelo SUS.

A checagem da Lupa registra que, após a entrevista, Ciro se corrigiu no Twitter e disse que o país conta com 30 mil pediatras, “o que ainda é muito pouco”.  A agência citou o estudo “Demografia Médica no Brasil 2018” para esclarecer que, em maio deste ano, o Brasil tinha 19 pediatras para cada 100 mil habitantes – o que o deixa acima da média dos países da OCDE, de 16/100 mil.

Leitores assinalaram que o candidato corrigiu a informação inicial, de 3 mil pediatras. A Lupa manteve o “falso”.

Em seu site, a agência avisa que sua metodologia considerará “exagerada” frase que contiver dado 10% superior ao verdadeiro. Se ele for 100% maior, será tratado como “falso”. Na mesma linha de raciocínio está a etiqueta “subestimado”, aplicada a assertivas em que “dados ou informações sejam ainda mais graves do que sustenta a afirmação do candidato”. Do mesmo modo, as faixas de 10% para menos e 100% aplicadas ao “exagerado” também valerão para o “subestimado”.

O que os leitores questionam é se uma variação de 8.882 médicos (quase 30%) merece “falso”, “exagerado” ou “subestimado”.

Nota da redação: a frase analisada é falsa.


Santinhos do pau oco

Usuários do Facebook têm solicitado a checagem de material que circula naquela rede. A Lupa, por meio do projeto de verificação de notícias, confere. São fotos, gravações, vídeos e, em tempo de campanha, santinhos virtuais. A agência presta serviço relevante ao identificar santinhos e fotos adulterados. No caso específico dos santinhos, artigo de Cristina Tardáguila informa que o Facebook optou por removê-los, mas que no WhatsApp (do mesmo grupo do Facebook) o material continua circulando.

Como o leitor entenderá essa diferença? Não seria o caso de, nos textos do #verificamos, informar permanentemente que a parceria com o Facebook não o obriga a retirar o material apontado como falso e que não inclui o Whatsapp? A avaliar.

Nota da redação: a recomendação da ombudsman é pertinente.

Editado por: Equipe Lupa

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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A informação está comprovadamente correta
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A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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