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Sabatina Folha, UOL e SBT: Boulos exagera ao falar de EUA e fundo partidário

por Chico Marés, Clara Becker, Leandro Resende, Nathália Afonso e Plínio Lopes
06.set.2018 | 15h00 |

Na manhã de quinta-feira (6), Guilherme Boulos, candidato à Presidência da República pelo PSOL, foi sabatinado por Folha, UOL e SBT. A série de entrevistas com os principais postulantes ao Planalto começou na segunda, com Ciro Gomes. Marina Silva foi entrevistada na terça-feira. A Lupa checou as declarações de Boulos. Veja o resultado:

“[O Brasil] voltou a falar fino com os EUA”
Guilherme Boulos, candidato à Presidência da República pelo PSOL, na sabatina Folha, UOL e SBT, no dia 6 de setembro de 2018

EXAGERADO

Desde janeiro de 2017, o Brasil se posicionou de forma pública e contrária aos EUA em pelo menos seis ocasiões. Todas elas em questões polêmicas, de grande repercussão internacional. Em junho, o Itamaraty classificou como “prática cruel” a separação de menores de seus pais e responsáveis. Em abril, se colocou contra as intervenções americanas na Síria, feitas sem aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Em março, publicou nota quando o governo dos EUA decidiu aplicar sobretaxa de 25% no aço e 10% no alumínio brasileiros. O Brasil estava disposto a ir à Organização Mundial do Comércio (OMC). Em dezembro de 2017, o Itamaraty foi contra o reconhecimento pelos EUA de Jerusalém como capital de Israel. Em agosto, se alinhou ao Mercosul e mostrou “repúdio à violência e qualquer opção que envolvesse o uso da força” por parte dos EUA na Venezuela. Em janeiro do ano passado, o governo brasileiro criticou a ideia de Donald Trump de construir um muro na fronteira com o México.

Procurado, Boulos afirmou que “é coisa de ‘país-capacho’ simplesmente emitir uma nota” para o caso das crianças brasileiras separadas dos pais nos EUA. O candidato também criticou a gestão do PSDB à frente do Itamaraty, que, segundo ele, tornou o Brasil uma nação “subserviente, covarde e irrelevante.”


“[Recebemos] Mais ou menos 20 vezes menos do que o MDB [do fundo eleitoral para a campanha]”
Guilherme Boulos, candidato à Presidência da República pelo PSOL, na sabatina Folha, UOL e SBT, no dia 6 de setembro de 2018

EXAGERADO

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), popularmente conhecido como fundo eleitoral, distribuiu R$ 1,7 bilhão. Desse total, R$ 234 milhões foram para o MDB e R$21,4 milhões, para o PSOL, ou seja, o PMDB ganhou 10,9 vezes mais. Ainda segundo o TSE, até o momento, R$ 4 milhões foram repassados à campanha de Boulos. A de Henrique Meirelles, nome do MDB na disputa, era a única que ainda não tinha declarado o recebimento de verba do fundo. Procurado, Boulos não respondeu.


“O Brasil é um dos países que mais consome (…) antidepressivo do mundo”
Guilherme Boulos, candidato à Presidência da República pelo PSOL, na sabatina Folha, UOL e SBT, no dia 6 de setembro de 2018

INSUSTENTÁVEL

Não há dados sobre o consumo de antidepressivos no Brasil nos levantamentos realizados pelas organizações mundiais da área de saúde. A OCDE publicou, em 2017, o relatório “Health at a Glance”, que mostra que Islândia, Austrália e Portugal são os países que mais consomem esse tipo de medicamento no mundo. O levantamento, no entanto, analisou 29 países, e o Brasil não está entre eles. Um estudo da seguradora SulAmérica indicou que, de 2010 a 2016, a quantidade de antidepressivos adquirida pelos clientes do plano de saúde aumentou 74% no Brasil. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou, em 2015, que 5,8% da população brasileira tinha algum distúrbio relacionado à depressão, o que equivale a 11.548.577 casos. Nos Estados Unidos e na Austrália, essa taxa atinge 5,9% dos habitantes, enquanto na Ucrânia, chega a 6,3%.

Procurado, o candidato usou pesquisas da IMS Health e da Proteste para justificar sua fala. Segundo a assessoria de imprensa de Boulos, a IMS Health indica que “praticamente um em cada cinco brasileiros consome uma caixa de antidepressivo (…) por ano”, e a Proteste mostra que “brasileiros usam mais tranquilizantes do que os europeus”. Os estudos citados não foram disponibilizados à Lupa.


“Sabe qual o investimento do estado do Rio de Janeiro (…) em inteligência este ano? (…) R$ 283”
Guilherme Boulos, candidato à Presidência da República pelo PSOL, na sabatina Folha, UOL e SBT, no dia 6 de setembro de 2018

VERDADEIRO

De acordo com o Portal da Transparência, até setembro de 2018, o Rio de Janeiro gastou R$ 258 em “informação e inteligência”. O orçamento previsto para o ano é de R$ 3,5 mil. Em 2017, o estado gastou R$ 2,5 mil dos R$ 5 mil orçados. Em 2016, não utilizou verba nesta função.


“Mais de 70% dos empregos no país são gerados pelas micro, pequenas e médias empresas”
Guilherme Boulos, candidato à Presidência da República pelo PSOL, na sabatina Folha, UOL e SBT, no dia 6 de setembro de 2018

VERDADEIRO

Segundo levantamento do Sebrae com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), os pequenos negócios respondem por 72% do total de empregos gerados no Brasil em julho de 2018. As micro e pequenas empresas tiveram um saldo líquido de 33.896 contratações, enquanto as médias e grandes geraram 14.951 vagas.  


“Só neste ano, R$ 283 bilhões de desonerações fiscais para grandes empresas neste país”
Guilherme Boulos, candidato à Presidência da República pelo PSOL, na sabatina Folha, UOL e SBT, no dia 6 de setembro de 2018

EXAGERADO

A estimativa da Receita Federal é de que a União deixe de arrecadar R$ 283,4 bilhões em impostos em 2018 com as desonerações, ou “gastos tributários”. Entretanto, nem todo esse dinheiro vai para “grandes empresas”, como mencionou o candidato.

O maior de todos os chamados “gastos tributários” (R$ 80,7 bilhões) está ligado ao Simples Nacional, que consiste em um programa destinado exclusivamente para micro e pequenas empresas.

O segundo item mais caro é as isenções dadas no Imposto de Renda de Pessoa Física (R$ 27,1 bilhões). Como o próprio nome diz, são destinadas a pessoas físicas, não a empresas.

Esses dois itens sozinhos já correspondem a 38% do total de desonerações. Somando-o a outras desonerações específicas para pessoas físicas, para micro e pequenas empresas, microempreendedores individuais e para o terceiro setor, chega-se a 52,93% do total.

Portanto, é exagerado dizer que R$ 283 bilhões em desonerações vão somente para grandes empresas, como informou Boulos.

Procurado para comentar, o candidato não retornou.

Correção feita às 17h45 do dia 12 de setembro de 2018: Na checagem original, a Lupa havia considerado apenas o número citado por Boulos e desconsiderado a afirmação de que as desonerações beneficiariam somente “grandes empresas”. Por conta disso, agora muda a etiqueta da checagem de “verdadeiro” para “exagerado”.

 

Editado por: Cristina Tardáguila e Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
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A informação está comprovadamente incorreta
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