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Foto: Reprodução/Fotos Públicas
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Atentado contra Bolsonaro: pega fogo a luta contra imagens falsas no Facebook

por Cristina Tardáguila
10.set.2018 | 15h30 |

Provando que o Brasil não é diferente do resto do mundo, no fim da semana passada, o atentado cometido contra o candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL), em Juiz de Fora (MG), fez ruir nossas redes sociais em termos de qualidade. Facebook, Twitter e WhatsApp foram inundados por textos, fotos e vídeos inverídicos e se tornaram lugares onde reinou a perversidade e a desinformação. Pessoas debateram sem se importar com dados e opinaram ignorando fatos. Preferiram ceder ao frenesi dos botões “encaminhar” e “compartilhar” a vivenciar o saudável silêncio da reflexão. Reproduzimos em território nacional o que ocorreu nos últimos atentados terroristas de Espanha, Reino Unido, França e Estados Unidos. Em meio à crise, demos voz às odiosas fake news.

Das 17h da quinta-feira (6) até as 17h da sexta (7), toda a equipe da Agência Lupa trabalhou para analisar o maior número possível de postagens denunciadas como falsas no projeto de verificação de notícias do Facebook. Tratamos o ataque como um atentado político de grande proporção e mergulhamos no mundo das mentiras que circulavam online. Dentre as análises feitas nesse período, duas merecem destaque – não só por mostrar a dimensão que a desinformação toma em dias de pânico, mas também por evidenciar a dificuldade que os fact-checkers ainda encontram para combatê-la.

Na quinta, às 19h07, enquanto Bolsonaro era operado em MG, o sistema de denúncias do Facebook mostrou o pedido de análise de duas imagens (aqui e aqui). Elas estampavam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva numa passeata ao lado da senadora e hoje presidente do PT, Gleisi Hoffmann. Alguns metros atrás deles, em meio a dezenas de militantes com bandeiras vermelhas, “via-se” Adélio Bispo de Oliveira, preso horas antes pela agressão ao candidato do PSL. Para chamar ainda mais a atenção, os autores das postagens haviam feito um círculo vermelho em torno do rosto de Adélio e sugerido que ele seria militante do PT.

A equipe de checadores entendeu que aquela imagem se espalharia com velocidade e resolveu se debruçar sobre ela. Mas não demorou nem 10 minutos para descobrir que se tratava de uma montagem feita a partir de um registro do dia 5 de maio de 2017, do fotógrafo Ricardo Stuckert (que costumava acompanhar Lula). A original – sem Adélio Bispo de Oliveira – está disponível no site do PT.

Uma consulta aos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostrou, ainda, que Adélio não estava entre os filiados da sigla. Fora, na verdade, membro do PSOL de 2007 até 2014.

Mas, nos poucos minutos entre a apuração, a redação e a publicação da checagem, os posts originais, denunciados como falsos, se multiplicaram, dando origem a muitos outros. E esses, por sua vez, a outros tantos. Em menos de 12h, a fotomontagem acima tinha dezenas de milhares de compartilhamentos e foi denunciada ao Facebook pelo menos 20 vezes. A todas elas, a Lupa aplicou a etiqueta “falso”, o que, segundo informa a plataforma, gera quatro reações imediatas:

1- a pessoa responsável pela postagem é notificada sobre a análise feita pelos checadores, ou seja, fica sabendo que postou algo inverídico;

2- as pessoas que compartilharam a informação falsa antes da análise dos fact-checkers são notificadas sobre o resultado desse trabalho e convidadas a ler o resultado da checagem;

3- os usuários que decidirem compartilhar aquele post após a verificação são alertados para a baixa qualidade da notícia, podendo, mesmo assim, compartilhá-la;

4- a plataforma reduz o alcance daquele post, tornando-o menos visível no feed de notícias.

Mesmo assim, na noite de domingo (9), após mais de 72 horas de intenso combate a essa fake foto, 12 das 20 postagens classificadas como “falsas” continuavam ativas na rede social. Juntas, elas contabilizavam mais de 1,2 mil compartilhamentos – um desafio para os checadores.

O segundo caso mostra que o mesmo acontece do lado oposto do espectro político. Na mesma noite, por volta das 19h50, começaram a entrar no sistema do Facebook fotos e vídeos de Bolsonaro posando sorridente ao lado de enfermeiros e médicos, vestindo a camiseta amarela que usava ao ser atacado e distribuindo abraços pelos corredores de um hospital em Juiz de Fora. Seus detratores passaram a compartilhar essas imagens como prova cabal de que o esfaqueamento jamais havia acontecido.

Mas é fato que, naquela manhã, o candidato do PSL ao Planalto tinha estado em um hospital filantrópico da Associação Feminina de Prevenção e Combate ao Câncer da cidade mineira, e havia sido fartamente registrado lá dentro. As imagens e gravações tinham sido feitas, portanto, horas antes do esfaqueamento e estavam sendo espalhadas de forma equivocada, fora de contexto.

A checagem foi escrita e publicada em poucos minutos. Em seguida, usada para classificar como “falsas” ao menos 15 postagens reportadas como duvidosas por usuários do Facebook. Àquela altura, no entanto, o material já tinha registrado dezenas de milhares de compartilhamentos e vazava para outras redes sociais como Twitter e WhatsApp.

Na noite de domingo (9), sete das 15 postagens contendo essas imagens e vídeos fora de contexto haviam sido deletadas. Outras oito continuavam ativas, contabilizando mais de 3 mil compartilhamentos – mais um motivo para entristecer a equipe que trabalhara todo o fim de semana para pôr fim a essa desinformação.

Seriam essas duas fake news indeléveis? Quantos brasileiros ainda compartilharão a fotomontagem de Adélio com Lula e Gleisi? E quantos dirão que Bolsonaro entrou no hospital sorrindo após ser esfaqueado em MG?

Por volta das 20h de ontem (9), enquanto terminava este texto, um tuíte chegou para o @agencialupa, sugerindo uma verificação: “@agencialupa esta foto está circulando nas redes sociais. Um exemplo claro de fake news”. Tratava-se da fotomontagem do agressor de Bolsonaro com o ex-presidente petista. O usuário do Twitter não havia visto o trabalho feito no Facebook.

*Este artigo foi publicado na versão digital da revista Época no dia 10 de setembro de 2018.

Editado por: Natália Leal

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