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Haddad, Bolsonaro, Boulos e homicídios: questões de método

por Fernanda da Escóssia
13.set.2018 | 07h30 |

Ao checar a entrevista à Globonews do petista Fernando Haddad, ainda como candidato a vice-presidente, a Lupa conferiu “falso” à seguinte afirmação: “No dia do anúncio do resultado [das eleições presidenciais] de 2014 já havia contestação do resultado”.

De acordo com a verificação, Dilma Rousseff foi reeleita presidente em 26 de outubro de 2014, e a primeira contestação oficial do resultado foi feita no dia 30 do mesmo mês pelo deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP). A diferença de um para quatro dias justificaria a etiqueta, entendeu a agência.

Por e-mail e nas redes sociais, leitores discordaram da classificação: na interpretação de alguns deles, Haddad teria usado uma hipérbole, figura de linguagem que expressa exagero, para transmitir a ideia de que as urnas foram questionadas logo depois da votação. Não é o primeiro alerta de leitores sobre os riscos de examinar uma declaração que embute linguagem conotativa, figurada.

Ao analisar o e-mail de um leitor, a direção de Redação da Lupa ponderou que o checador trabalha com a literalidade das afirmações. O manto da linguagem figurada poderia estar protegendo declarações incompatíveis com a realidade. Se o candidato tivesse dito “na semana”, estaria certo, justificou a agência.

Leitores insistem: qual o ponto principal, o núcleo da frase? A celeridade da reação, atestando a inconformidade dos adversários com o resultado. Além do mais, sublinha uma leitora, Haddad falou em “contestação” – não usou a palavra “oficial”.

Dilma foi reeleita em 26 de outubro de 2014. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) promulgou oficialmente o resultado provisório em 28 de outubro. Já que tomou por base uma contestação oficial, a Lupa não deveria ter referenciado a data da promulgação oficial?

A checagem remete a uma nota do deputado Carlos Sampaio, e um clique permite lê-la. O texto afirma: “A medida é necessária diante da série de questionamentos, sobretudo nas redes sociais, quanto à lisura do processo eleitoral brasileiro”. Ou seja, já havia questionamentos nas redes. O documento enviado por Sampaio ao TSE menciona uma petição virtual criada em 28 de outubro de 2014.

Quanto tempo demorou, depois do anúncio do resultado, a contestação? Se consideradas as datas da promulgação oficial do resultado provisório pelo TSE (28 de outubro) e da reclamação de Carlos Sampaio (30 de outubro), dois dias. Se tomadas a data da eleição (26 de outubro) e a data da petição on line citada por Sampaio (28 de outubro), dois dias. A Lupa adotou as datas da eleição (26 de outubro) e da iniciativa do parlamentar tucano (30 de outubro), o que dá quatro dias.

Se tomadas as datas da eleição (26 de outubro) e dos primeiros questionamentos nas redes, de quantos dias seria o intervalo? É possível também eleger como parâmetros a promulgação do resultado provisório pelo TSE e a petição virtual – ambas de 28 de outubro, o que tornaria a afirmação de Haddad literalmente correta.

A assertiva verificada pela agência tem um contexto que não foi considerado. A informação central – a ação rápida, muito rápida, frente ao resultado das urnas – não pode ser ignorada. É preciso atentar para o que de fato importa, para o que é relevante. Sob pena de a Lupa acabar incorrendo numa nova etiqueta, o “falso, mas” – quando a literalidade da frase tem um erro, mas o resto todo é verdadeiro.


“Falar fino” e “falar grosso”

O candidato do PSOL ao Planalto, Guilherme Boulos, disse que o Brasil, em sua política externa, voltou a “falar fino” com os Estados Unidos. A afirmação foi feita em sabatina promovida por “Folha de S.Paulo”, UOL e SBT. A Lupa classificou como “exagerado” e elencou seis posicionamentos do Itamaraty contrários aos EUA, todos de grande repercussão.

Procurado pela Lupa, Boulos respondeu que “é coisa de ‘país-capacho’ simplesmente emitir uma nota” para o caso das crianças brasileiras separadas dos pais nos EUA.

Se Boulos tivesse dito que o Brasil não reagiu, a sentença poderia ser checada. “Falar fino”, porém, é uma expressão essencialmente opinativa. Transmite uma avaliação de alguém – no caso, o candidato – sobre algo: a atitude do Brasil em relação aos EUA.

Julgar que uma nota foi uma medida aquém do necessário é parte da avaliação do candidato, e sua resposta à Lupa reitera isso. É pouco, entende ele. É sua opinião. A Lupa não inclui a checagem de opinião entre as suas atribuições.


Contra falsificações

Em seguida ao atentado contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL), a Lupa desencadeou um processo para analisar em tempo real informações que circulavam nas redes. Melhor dizendo, desinformações: foram seis “falsos” para conteúdos adulterados ou fora de contexto. Segundo a agência, só com duas imagens falsas, foram 35 postagens. Na noite de domingo (9), 20 desses posts comprovadamente inverídicos permaneciam ativos no Facebook, com mais de 4,2 mil compartilhamentos.

A Lupa contribui para qualificar o debate público quando identifica esse tipo de falsificação, não importa de onde ela venha.


Homicídios dolosos

A Lupa publicou levantamento exclusivo sobre homicídios dolosos (intencionais) no Estado do Rio de Janeiro. Foi um furo significativo, a ser fartamente citado em reportagens e estudos acadêmicos sobre o tema. Com números obtidos por intermédio da Lei de Acesso à Informação, a reportagem mostra que, dos 5.042 homicídios dolosos registrados no Estado em 2016, só 331, módicos 6,5%, levaram o agressor a ser denunciado pelo Ministério Público, com subsequente abertura de processo. A agência, mais uma vez, não se limitou a checar o que alguém disse. Teve a iniciativa de produzir dado atualizado sobre a investigação das mortes, assunto crucial no Rio e no país.

A Lupa usou a metodologia do Instituto Sou da Paz sobre taxas de esclarecimento de homicídios. Titulou: “Apenas 6,5% dos homicídios ocorridos no RJ em 2016 foram esclarecidos”. A formulação se repetiu ao longo do texto.

Apesar de a metodologia escolhida autorizar tal conclusão, considero que a agência se arrisca ao optar pelo termo “esclarecido”. Supor que um caso está esclarecido com a denúncia do Ministério Público e a abertura do processo é ignorar tudo o que pode acontecer ao longo do julgamento. E se o réu for absolvido? Ainda assim o caso será considerado “esclarecido”? Uma solução possível seria dizer que os casos chegaram à Justiça.

Nota da redação: O conceito adotado pelo Instituto Sou da Paz e reutilizado na reportagem da Lupa é conhecido e respeitado por estudiosos de segurança pública. Assim, a agência optou por aplicá-lo em seu levantamento e destacá-lo no título. Para dirimir qualquer mal-entendido, colocou uma explicação clara sobre o que considerou “esclarecido” logo no início da reportagem. A informação está na quinta linha do texto.

Editado por: Equipe Lupa

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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