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Brasil importou o que houve de pior na eleição dos EUA e no referendo do Brexit

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
24.set.2018 | 12h45 |

Ainda faltam 13 dias para o primeiro turno das eleições de 2018 e mais de um mês para o desfecho da campanha eleitoral. Apesar disso, no que diz respeito às notícias falsas, já dá para lamentar um fato: o Brasil importou o que houve de pior e de mais nefasto tanto das eleições dos Estados Unidos, em 2016, quanto do referendo do Brexit, no Reino Unido. Não soube se blindar frente ao mar de notícias falsas – por mais óbvias e odiosas que elas sejam.

Agora acompanhe o raciocínio e lamente comigo.

A campanha que levou Donald Trump à Casa Branca foi permeada por fake news ligadas a questões morais e éticas. Você se lembra, por exemplo, do escândalo do “pizzagate”? Daquela teoria da conspiração que nasceu no submundo da internet, a partir de e-mails ligados a membros da campanha de Hillary Clinton e que enxergou na expressão “cheese pizza” um sinônimo de “child pornography” – apenas porque ambas começavam com as mesmas letras?

Pois bem. Consistia numa notícia falsa tão difícil de combater quanto às que agora circulam no Brasil com relação ao kit gay, eternamente atrelado à figura de Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência da República.

Assim como nunca existiu uma rede de pedofilia e tráfico infantil liderada por Hillary no porão de uma pizzaria de Washington D.C, também não é verdade que as imagens de sexo explícito que circulam pela web hoje em dia faziam parte do material que foi produzido por um grupo de ONGs em 2011 para combater a discriminação em escolas. Para tentar pôr fim a essa fake news incontrolável, nos últimos dias, os checadores da Agência Lupa se debruçaram sobre todo o chamado kit gay – folha a folha, vídeo a vídeo – e não encontraram nele as imagens que muitos da web juram que integram “o kit de Haddad”. Veja detalhes da checagem aqui.

E o escândalo do “pussygate”? Aquele em que Trump aparecia fazendo comentários vulgares e machistas sobre as mulheres? Lembra quanta notícia falsa nasceu dali? No Brasil, na última semana, os checadores profissionais identificaram como falsa a informação de que a atriz Patrícia Pillar “havia contando” que tinha sido agredida por Ciro Gomes, candidato do PDT à Presidência da República, quando eram casados. A atriz gravou um vídeo negando qualquer incidente do tipo. Mas o conteúdo falso segue popular nas redes e no submundo do WhatsApp.

Na campanha feita no Reino Unido em 2016, quando se discutia a saída do país da União Europeia, vimos notícias falsas com raízes econômicas e migratórias. Muitas delas com requintes de xenofobia. Recordemos, por exemplo, o poster de Nigel Farange mostrando uma leva de homens e mulheres não-brancos, lotando uma estrada e caminhando para o que supostamente seria o Reino Unido. Teve enorme impacto no debate político, apesar de ser um clique antigo, feito na fronteira entre a Croácia e a Eslovênia, sem qualquer relação com os britânicos.

Aqui no Brasil, as fake news de migração já aparecem nas redes e no debate político-eleitoral. Na maioria das vezes estão relacionadas aos venezuelanos que chegaram a Roraima. A desinformação sobre este tema, já denunciada pela Lupa, está solta na web, com requintes de excessos. Mas o pior é que já vem sendo repercutida por candidatos em entrevistas, debates e sabatinas. Humpf!

Nos Estados Unidos de 2016, o humor virou fake news. O principal caso é o do apoio do Papa Francisco à campanha de Trump. O Snopes, um dos maiores sites de checagem do planeta, mostrou que essa história surgiu numa página de cunho satírico, a WTOE5 News, mas que esse “pequeno detalhe” não foi levando em conta pelos que a repercutiram, fazendo desta a maior notícia falsa de toda a campanha de 2016.

Aqui no Brasil, nos últimos dias, os fanfics (textos fictícios) feitos pela cantora Rita Lee no Twitter anos atrás foram usados de forma brutal contra a campanha e a figura de Jair Bolsonaro, candidato do PSL à Presidência da República. Assim como o pontífice jamais declarou apoio a Trump, Rita Lee e Bolsonaro nunca namoraram. Veja a checagem que detalha esse caso aqui.

E as teorias da conspiração? Ah! Também temos! Quando a Polícia Federal e a Receita Federal apreenderam malas de dinheiro da comitiva do vice-presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Mang, no aeroporto de Viracopos, as redes surtaram.

A avalanche de fake news sobre o assunto foi tão grande que o BNDES precisou publicar um desmentido oficial. Não é verdade que o banco emprestou dinheiro ao país de Obiang Mang nem que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva perdoou essa enorme dívida. Essa história é tão insana e tão absurda quanto a do “pizzagate”. Mistura Guiné Equatorial com Guiné Bissau e prova a fragilidade do ecossistema noticioso brasileiro nas profundezas da internet. Leia mais aqui.

Mas quem espalha tanta besteira? Tudo igual, mais uma vez. Levantamento feito pela Sala da Democracia da FGV/DAPP e divulgado na sexta-feira passada mostra que, pela segunda semana consecutiva, houve um aumento nas interações motivadas por bots nas redes sociais brasileiras. No campo pró-Bolsonaro, primeiro nas pesquisas de intenção de voto, os robôs representam 17,8% das conversas. No campo pró-Haddad, que aparece em segundo, 13,2%. Como se sabe, a participação de trolls e bots marcou as campanhas americana e britânica. Há inclusive investigações em aberto sobre isso. No Brasil, não conseguimos evitar.

Para concluir a coluna desta semana, não poderia deixar de falar da violência armada: outro horror que importamos. Em dezembro de 2016, o restaurante Comet Ping Pong, “envolvido” no “pizzagate” foi invadido por um homem de 28 anos que portava um rifle AR-15 e que queria elucidar de uma vez por todas aquela história. O homem fez ao menos três disparos e, por sorte, não matou ninguém. Foi preso e, na Justiça, reconheceu sua culpa.

No dia 6 de setembro, Adélio Bispo de Oliveira, de 40 anos, esfaqueou Bolsonaro em Juiz de Fora (MG). Não teve pudor da multidão que o cercava. Nas redes sociais, Adélio fazia postagens desconexas e parecia acreditar em teorias da conspiração. Na polícia, confessou o crime e segue preso. Até onde se vê, encaixa bem no perfil de quem consome, acredita e compartilha fake news. Talvez tenha feito isso antes de puxar a faca contra Bolsonaro.

*Este artigo foi publicado pelo site da revista Época em 24 de setembro de 2018.

Editado por: Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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