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Lupa deixou leitores a pé na checagem sobre tempo gasto de casa ao trabalho

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.set.2018 | 15h50 |

Do Rio de Janeiro a Goiânia, de Maceió a São Paulo, leitoras e leitores contestaram a classificação da Lupa para o tempo que se leva de casa ao trabalho. A afirmação inicial foi feita pelo candidato do PDT à Presidência, Ciro Gomes, em debate realizado pela TV Aparecida na noite de 20 de setembro: “São duas horas para ir para o trabalho, duas horas para voltar [no Brasil]”.

A agência informa que o Rio é a cidade mais congestionada do Brasil,  com base na pesquisa TomTom Traffic Index 2016, e cita estudo da Firjan mostrando que no município do Rio de Janeiro os trabalhadores levaram, em média, 134 minutos nos deslocamentos casa-trabalho-casa. Em São Paulo, relata a Lupa com base na Pesquisa de Mobilidade Urbana da Rede Nossa São Paulo, o tempo médio total de deslocamento diário é de duas horas e 43 minutos. Assim, a frase recebeu a etiqueta “exagerado”.

A partir dos questionamentos dos leitores, é possível identificar pelo menos dois pontos controversos: 1) a quem o pedetista se refere quando fala em “duas horas para ir, duas para voltar”?; 2) qual o meio de transporte utilizado?

A frase completa de Ciro é esta: “São duas horas para ir para o trabalho, duras horas para voltar, destruindo a possibilidade de ter carinho em casa, de ver os filhos dormirem, para a maioria das famílias mais pobres do Brasil”. O candidato se refere aos mais pobres, usuários mais comuns do transporte público.

A checagem tampouco esclarece se a pesquisa da Firjan especifica o meio de transporte que embasa a pesquisa sobre tempo gasto rumo ao trabalho. Quem vai de carro particular entra na conta? Ou só quem usa transporte público? Ou a pesquisa apenas trata de tempo, sem considerar o meio de transporte?

Sem essas informações, o exame fica incompleto, e a Lupa deixa o leitor a pé.

A agência deveria rever a frase do candidato e aprofundar a checagem.


Vídeo e entrevista de Bolsonaro: sem checagem

Líder nas pesquisas eleitorais, o candidato Jair Bolsonaro (PSL) está internado desde 6 de setembro, depois de ser alvo de uma tentativa de homicídio. No dia 16 deste mês, ele gravou um vídeo no hospital. No dia 24, concedeu à rádio Jovem Pan a primeira entrevista desde o atentado. A Lupa não checou nem o vídeo nem a entrevista. As declarações mais relevantes do candidato, já pós-atentado, não mereceram o escrutínio da agência. A Lupa checou, e bem, a entrevista de João Goulart Filho (PPL) à EBC (Empresa Brasil de Comunicação). Este candidato oscila de 0% a 1% nas pesquisas de intenção de voto.

Um dos motes da campanha de Bolsonaro, citado inclusive no vídeo do hospital, tem sido associar uma eventual derrota sua à fraude nas urnas eletrônicas. Sobre esse tema, a agência prestou um bom serviço ao leitor quando avisou ser falsa a informação de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) teria entregue os códigos de segurança das urnas eletrônicas à Venezuela.

Se o candidato, por motivos de saúde, tem falado pouco, o estado-maior de sua campanha ocupou o noticiário. A Lupa não examinou o discurso em que o candidato a vice na chapa de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, declarou que famílias só com mães e avós são fábricas de desajustados. A agência poderia ter informado quantos domicílios brasileiros são chefiados por mulheres. No debate promovido por SBT, Folha de S.Paulo e UOL, a candidata Marina Silva (Rede) informou que são 40,5%. A Lupa checou e confirmou. Poderia ter relembrado aqui o discurso do general.

Circulam nas redes conteúdos em áudio e vídeo que permitem ao eleitor conhecer seus candidatos. Em um deles, ao votar pelo impeachment da então presidente da República Dilma Rousseff, Bolsonaro homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Em julho, a Lupa mostrou que Ustra foi declarado torturador pela Justiça, em decisão definitiva. Deveria relembrar.

Em outro vídeo, Bolsonaro prega que minorias devem se adequar ou desaparecer. Em um terceiro, seus eleitores comparam eleitoras de esquerda a cadelas. São mesmo autênticos tais vídeos?

A agência não precisa esperar que os conteúdos sejam citados como suspeitos pelo projeto em parceria com o Facebook. Pode se antecipar. Examinar o que for possível, comparar dados, oferecer informações suplementares e relevantes ao leitor.


A conta da corrupção

No debate promovido por SBT, Folha de S.Paulo e UOL, Marina Silva repetiu que a corrupção desvia R$ 200 milhões no Brasil. A Lupa já checou e mostrou que o dado é insustentável. Deveria, em nome do leitor, perguntar à candidata de onde ela tira essa informação.


Vale o escrito?

No debate da TV Aparecida, o candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, recebeu um “exagerado” pela declaração: “O PT pediu dezenas de vezes impeachment contra o presidente FHC”. A checagem buscou a informação exata: petistas pediram quatro vezes o impeachment de Fernando Henrique Cardoso.

De acordo com a metodologia adotada pela Lupa, “será considerada exagerada a frase que contiver um número 10% superior ao verdadeiro. Se ele for 100% maior, será tratado como ‘falso’”. E a frase que tiver entre 10% e 100% de diferença, como será tratada? É preciso informar.

De qualquer modo, de quatro para 20 pedidos de impeachment (“dezenas”), há muito mais do que 10% de diferença – há 400%. Aqui não se trata de subjetividade. É preciso corrigir a classificação para “falso”.

Nota da redação: a frase que contiver um dado ou número entre 10% e 99% diferente da informação correta será considerada exagerada. A declaração de Alckmin, de fato, é falsa, de acordo com a metodologia da Lupa. A classificação foi alterada. Pelo mesmo critério, na noite da sexta-feira (28), foi corrigida a classificação da frase de Marina Silva sobre a hepatite.


Tasso e a sabotagem do PSDB: “exagerado”?

Na coluna publicada em 13 de setembro, critiquei o “falso” aplicado ao petista Fernando Haddad pela frase “No dia do anúncio do resultado [das eleições presidenciais] de 2014 já havia contestação do resultado”. A Lupa manteve a classificação.

Em entrevista publicada no mesmo dia 13 pelo jornal O Estado de S.Paulo, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), ex-presidente do PSDB, afirmou que um dos erros do partido foi questionar o resultado eleitoral: “Começou no dia seguinte (à eleição)”. Tasso mencionou o que considera um segundo erro de seu partido: “Votar contra princípios básicos nossos, sobretudo na economia, só para ser contra o PT”.

A entrevista de Jereissati foi citada por Haddad pelo menos duas vezes. No Jornal Nacional, o candidato listou os três erros admitidos pelo tucano: “Tasso Jereissati falou: ‘nós cometemos três erros: (…) questionamos o resultado eleitoral (…). Aprovamos uma pauta em que nós não acreditávamos para prejudicar o PT (…). Embarcamos no governo Temer”. Ganhou “verdadeiro”.

No debate de Aparecida, Haddad voltou à carga: “Tasso Jereissati assumiu que sabotou o governo desde a reeleição, aprovando medidas que o próprio PSDB era contra”. A Lupa deu “exagerado”, por entender que Jereissati não empregou  a palavra “sabotagem”.

Vale reler o que disse o senador do PSDB: “Votar contra princípios básicos nossos, sobretudo na economia, só para ser contra o PT”. Uma leitora questiona: isso não é sabotar?


A Lupa  não viu

Houve, no mínimo, duas falsificações e distorções grosseiras no horário eleitoral da TV e no material de campanha nas redes.

Na primeira, o candidato do PSDB ao governo ao São Paulo, João Doria, usou imagens compradas em sites estrangeiros para ilustrar a construção de creches “paulistanas”. A Lupa não viu.

Na segunda, vídeo divulgado pela campanha de Bolsonaro sobre apoio de mulher negra e pobre exibia, na verdade, uma modelo canadense. De novo, houve recurso a um banco de imagens. A Lupa não checou.


Temer

Nem nos vídeos dirigidos a ex-aliados, nem ao discursar na ONU, o presidente da República, Michel Temer, entra no radar da Lupa. Deveria. Ele não é candidato, mas é um ator relevante da eleição.


Raio-x nos programas de governo

É alvissareira a decisão da Lupa de escrutinar os programas de governo dos candidatos ao Planalto, analisando as propostas por área.  


Nunca se mentiu tanto

Por intermédio do projeto de verificação de notícias, cresce o volume de checagens solicitadas por leitores. A Lupa presta um serviço útil quando se dedica a desmascarar conteúdos inverídicos e identificar falsificações variadas, como a postagem afirmando que a atriz Patrícia Pillar teria dito que foi agredida por Ciro Gomes. Patrícia Pillar gravou um vídeo desmentindo o boato e declarando voto em Ciro, com quem foi casada. São apoios falsos, comícios forjados, fotos e vídeos adulterados ou descontextualizados, convites inexistentes… A proliferação de boatos diz tanto sobre como a eleição brasileira tem sido terreno fértil para  falsificações quanto sobre a necessidade de continuar a combatê-las.


Relevância

O leitor ganhará se a Lupa entrar de cabeça nos temas relevantes da eleição. Ultrapassar a previsibilidade da cobertura cotidiana de debates e entrevistas, passando a atentar para o que de fato está em jogo. Não é pouco. É “só” a democracia.


A ombudsman esteve de licença médica na semana passada. Motivo: duas costelas quebradas. Obrigada pelos votos de recuperação.

Editado por: Equipe Lupa

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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