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Foto: Reprodução
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Erros e acertos dos candidatos ao governo de São Paulo em debate na Record

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
29.set.2018 | 19h15 |

Sete candidatos ao governo de São Paulo participaram, neste sábado (29), do debate promovido pela TV Record. O encontro durou cerca de uma hora e meia e contou com a participação de João Doria (PSDB), Luiz Marinho (PT), Marcelo Cândido (PDT), Márcio França (PSB), Paulo Skaf (MDB), Professora Lisete (PSOL) e Rodrigo Tavares (PRTB). A Lupa checou algumas das declarações dos candidatos. Veja:

“Não falei se você [Márcio França] emagreceu ou deixou de emagrecer”
João Doria (PSDB)

EXAGERADO

Em sua propaganda eleitoral, João Doria (PSDB) exibiu uma comparação de duas fotografias de Márcio França (PSB) – antes e depois da cirurgia bariátrica que o atual governador fez no ano passado, por conta da diabetes. O comercial diz: “essa é uma foto do candidato Márcio França, que se apresenta como novo governador. E essa é uma foto do Márcio França, antes da eleição. Parecem dois candidatos diferentes, mas a história é uma só”.

A coligação de França entrou com uma representação no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) pedindo a suspensão da veiculação das imagens, alegando que elas utilizavam uma característica física com intenção de degradação e ridicularização.

O juiz auxiliar da propaganda eleitoral Mauricio Fiorito não concordou com a argumentação, mas suspendeu a propaganda por um erro na legenda. Sobre a utilização das imagens, o juiz afirmou que “a propaganda questionada, embora contenha crítica ácida, aparentemente não extrapolou os limites da liberdade de expressão e direito à crítica constitucionalmente assegurados, não acarretando em possível lesão à honra do candidato”.

Em nota, a assessoria do candidato alegou que a Justiça afirmou que não houve ofensa na propaganda.


“Você, aliás, (…) [foi] coordenador de campanha do Garotinho, que agora foi cassado”
João Doria (PSDB)

VERDADEIRO

Então prefeito de São Vicente, Márcio França (PSB) assumiu a coordenação da campanha de Anthony Garotinho, à época filiado ao PSB, para a presidência da República, em 2002. Há registros da participação de França em várias reportagens da época (veja aqui, aqui e aqui). Garotinho teve sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral na última quinta-feira (27). Cabe recurso da decisão.


“Eu e Lula geramos 14 milhões de empregos com carteira assinada”
Luiz Marinho (PT)

FALSO

Luiz Marinho foi ministro do Trabalho de julho de 2005 a março de 2007, durante o governo Lula. Neste período, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), foram gerados 1,8 milhões de vagas formais. O número citado por Marinho é próximo do total de vagas criadas em todo o governo Lula, de 2003 a 2010. Segundo a Relação Anual de Informações Sociais, foram 15,4 milhões de vagas no período.

Procurado, Marinho não retornou.


“O que [Paulo Skaf] fez foi implantar cobrança [nas escolas] no Sesi, que não tinha antes de sua presidência”
Luiz Marinho (PT)

VERDADEIRO

O Serviço Social da Indústria (Sesi) passou a cobrar taxas escolares no estado de São Paulo em 2007. Paulo Skaf (MDB) é presidente do Sesi desde 2004 – ele se licenciou do cargo para concorrer ao governo do estado. Ou seja, a cobrança só começou durante o mandato de Skaf à frente da entidade.


“O comando do estado (…) está nas mãos de um único partido há 24 anos”
Marcelo Cândido (PDT)

VERDADEIRO, MAS

Desde a eleição de 1994, quando Mario Covas (PSDB) derrotou Francisco Rossi (PDT), o PSDB ganhou todas as eleições e, portanto, elegeu o governador de São Paulo. Entretanto, por dois breves períodos, partidos aliados do PSDB governaram o estado. Em março de 2006, Geraldo Alckmin (PSDB) renunciou para disputar as eleições presidenciais. Quem assumiu o governo até o fim daquele ano foi Cláudio Lembo, então filiado ao PFL, atual DEM. Em 2018, a mesma coisa aconteceu: Alckmin deixou o governo para disputar a presidência e Márcio França (PSB) assumiu o cargo.

Além disso, em nenhuma das eleições o PSDB concorreu sozinho. Segundo o TSE, em 1994, fez coligação com o PFL. Em 1998 e 2002, com dois partidos. Em 2006, com três. Em 2010, o número saltou para seis e, em 2014, foram 13 outras siglas apoiando o candidato tucano.


“O sistema carcerário de São Paulo é um dos que mais abrigam pessoas”
Marcelo Candido (PDT)

VERDADEIRO

Dados do sistema Geopresídios, mantido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mostram que São Paulo é o estado com o maior número de presos do país – 228.694 dos 690.899, ou 33% do total. Em segundo está Minas Gerais com 73.346 presos (10% do total). De acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) mais recente, em julho de 2016, São Paulo abrigava 240 mil dos 727 mil presos do Brasil. O levantamento foi feito pelo Ministério da Justiça.


“Temos mais de 60 Ames”
Márcio França (PSB)

EXAGERADO

De acordo com a Secretaria da Saúde de São Paulo, o estado tem 59 ambulatórios médicos de especialidades (Ames) em funcionamento – não “mais de 60”, como diz o candidato. No dia 30 de junho, Marcio França anunciou a construção de uma nova unidade no município de Penápolis, mas a secretaria de Planejamento não especifica quando a obra ficará pronta.

Os Ames são ambulatórios regionais de atendimento especializado, onde não há serviços de urgência e emergência. No local, também são realizadas cirurgias de baixa e média complexidade.

Procurado, França não retornou.


“Estamos chegando a 85% de coleta [de esgoto] em todo o estado [de São Paulo]”
Márcio França (PSB)

VERDADEIRO

Dados do Instituto Trata Brasil, organização que reúne sociedade e empresas privadas para monitorar avanços no saneamento, mostram que, em 2016, o estado de São Paulo tinha 88,76% do seu esgoto coletado.


“Em duas horas, quase duas mulheres ou menores são violentadas”
Paulo Skaf (MDB)

SUBESTIMADO

De acordo com a Secretaria de Segurança de Pública de São Paulo, o número de estupros registrados no estado a cada duas horas se aproxima de três, e não de dois, como mencionado pelo candidato. Até o final de agosto deste ano, foram 8.015 estupros em SP, o que significa cerca de 33 por dia  e 1,37 estupros por hora. Assim, em duas horas, 2,75 estupros são registrados no estado, uma situação ainda mais grave do que o dito por Skaf.

A assessoria do candidato disse que Skaf apenas arredondou o número para baixo.


“3 milhões de pessoas utilizam a CPTM diariamente”
Paulo Skaf (MDB)

VERDADEIRO

Segundo o Relatório da Administração de 2017 da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), no ano passado, a média de passageiros transportados nos dias úteis foi de 2,752 milhões no ano passado. A circulação de passageiros está neste patamar desde 2014.


“Um filho seu [de Jair Bolsonaro] teve a coragem de apresentar, em uma propaganda eleitoral, uma cena de tortura”
Professora Lisete (PSOL)

EXAGERADO

O vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PSL) publicou em seu Instagram a imagem de um homem, com os dizeres “ele não” pintados no peito, sendo torturado. Não se tratava de uma propaganda eleitoral, já que o vereador não é candidato nessas eleições. A imagem era uma representação de uma cena de tortura, não uma imagem de tortura em si.

A fotografia foi criada por um jovem potiguar como protesto contra Jair Bolsonaro (PSL). Um perfil apoiador do candidato incluiu a frase “sobre pais que choram no chuveiro”, que pode se tratar de uma alusão ofensiva a pais de homossexuais. Carlos republicou a imagem, e disse que a frase dos “pais que choram no chuveiro” seria “a vergonha que um pai deve sentir ao ver um filho postar uma m**** de imagem dessas”.

Procurada, Lisete não retornou.


“Seu vice [do candidato à Presidência Jair Bolsonaro] se pronunciou contra uma das cláusulas pétreas da nossa constituição, que é o 13º [salário]”
Professora Lisete (PSOL)

VERDADEIRO

Em encontro com lojistas no Rio Grande do Sul, o candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro, general Hamilton Mourão (PRTB), criticou o 13º salário, afirmando que “se a gente arrecada 12, como que nós pagamos 13? É complicado”. O 13º salário é um dos direitos dos trabalhadores garantidos no artigo 7º da Constituição Federal e faz parte da lista de direitos e garantias fundamentais previstos no documento. De acordo com a própria Constituição, esses direitos e garantias integram a lista de cláusulas que não serão “objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir” – as chamadas cláusulas pétreas. Elas estão previstas no parágrafo 4 do artigo 60 da CF.


“65% da população carcerária do estado de São Paulo tem até 35 anos”
Rodrigo Tavares (PRTB)

SUBESTIMADO

Segundo a última edição do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), de 2016, a proporção de pessoas com menos de 35 anos nas cadeias paulistas é ainda maior do que a citada pelo candidato – chega a 73%. Segundo o relatório, 28% dos presos têm entre 18 e 24 anos, 25% têm entre 25 e 29 anos e 20% tem entre 30 e 34 anos.

Procurado, Tavares não retornou.


“A reposição inflacionária [nos salários dos policiais] (…) ficou defasada nos últimos anos”
Rodrigo Tavares (PRTB)

VERDADEIRO

Segundo a Associação dos Funcionários da Polícia Civil, em agosto de 2014, o salário de um investigador de polícia de 3ª classe, o cargo mais baixo na hierarquia civil, era de R$ 3.474,90 – incluindo o salário base e a Gratificação pelo Regime Especial de Trabalho Policial (RETP). Hoje, esse cargo recebe R$ 3.743,98, um aumento nominal de apenas 8% em quatro anos. Os policiais militares tiveram um aumento ainda menor. Em 2014, um soldado de 2ª classe ganhava R$ 2.357,76, considerando o salário base e a RETP. Hoje, ganham R$ 2.452,06, um aumento de 4%. O IPCA no período foi de 27,4%.

Editado por: Natália Leal

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VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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