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Em entrevistas no hospital, Bolsonaro repete erros de sabatinas e debates

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
02.out.2018 | 11h00 |

Ao longo dos últimos dias, o candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, concedeu entrevistas a programas da Rádio Jovem Pan, RedeTV e Band. Vítima de um atentado no dia 6 de setembro, Bolsonaro passou 23 dias internado em São Paulo e recebeu alta na semana passada, mas segue em recuperação e não tem compromissos públicos previstos para os próximos dias. A Lupa reuniu e checou algumas das frases ditas pelo presidenciável. Veja o resultado a seguir:

“[O voto eletrônico] É um sistema eleitoral que não existe em nenhum lugar do mundo”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, no dia 28 de setembro

FALSO

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral (IDEA Internacional) informam que 32 países utilizam a tecnologia do voto eletrônico para garantir o processo eleitoral. Entre essas nações estão Suíça, Canadá, Austrália e Estados Unidos (em alguns estados). Na América Latina, o México e o Peru também fazem uso do sistema. Contudo, vale ressaltar que o TSE aponta que o Brasil é um dos poucos países que expandiram esse sistema para a “quase totalidade dos eleitores”.

Procurado, Bolsonaro não retornou.


“Eu não estou coligado com ninguém”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista ao RedeTV News, da RedeTV, no dia 28 de setembro

FALSO

Segundo o TSE, a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) tem o apoio do PRTB. À coligação formada pelos dois partidos foi dado o nome “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.  

Procurado, Bolsonaro não retornou.


“Me achem um áudio, uma imagem minha dizendo que mulher tem que ganhar menos do que homem. Não existe”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, no dia 28 de setembro

FALSO

Há registros públicos da afirmação do candidato sobre mulheres ganharem salários menores do que os dos homens. Em 2016, em entrevista à apresentadora Luciana Gimenez na RedeTV!, Bolsonaro afirmou o seguinte (5min28seg): “eu não empregaria [homens e mulheres] com o mesmo salário. Mas tem muita mulher que é competente”.

À época, ele fazia referência à origem dessa polêmica, causada por uma declaração ao jornal Zero Hora em 2014. Naquele ano, o deputado afirmou:  “Entre um homem e uma mulher jovem, o que o empresário pensa? ‘Poxa, essa mulher está com aliança no dedo. Daqui a pouco engravida. Seis meses de licença-maternidade’ (…) Por isso que o cara paga menos para a mulher. É muito fácil eu, que sou empregado, falar que é injusto, que tem que pagar salário igual”.

Procurado, Bolsonaro não retornou.


“Tem uma passagem falsa dele [Adélio Bispo de Oliveira, agressor de Bolsonaro] pela Câmara dos Deputados no dia 6 de setembro”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista à Rádio Jovem Pan no dia 24 de setembro

FALSO

Os registros de uma suposta passagem de Adélio Bispo de Oliveira pelo Congresso Nacional no dia 6 de setembro – data em que ele esfaqueou Bolsonaro durante ato político em Juiz de Fora (MG) – foram feitos por engano, segundo a Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados. De acordo com o diretor da PL, Paul Pierre Deeter, no dia do atentado, um funcionário da Casa tentou verificar se Oliveira já havia passado pelo local e acabou inserindo registros de visita de forma equivocada. Uma investigação sobre o caso chegou a ser aberta – e já foi arquivada.

A história veio à tona no dia 19 de setembro, quando o site O Antagonista divulgou um ofício da PL sobre as supostas entradas de Adélio na Câmara, no dia 6, e sugeriu que se tratava de um possível “álibi forjado”.

Adélio visitou a Câmara em 6 de agosto de 2013, mas não há informação sobre a quais partes do prédio ele se dirigiu naquele dia, já que a Casa não faz esse tipo de registro.

Procurado, Bolsonaro não retornou.


“A própria ex-mulher [Ana Cristina Valle], na matéria, desmente muita coisa”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista ao programa Brasil Urgente no dia 28 de setembro

EXAGERADO

Bolsonaro se referia à reportagem da revista Veja, publicada em 28 de setembro, que mostra detalhes do processo do divórcio dele de Ana Cristina Valle, ocorrido em 2008. À época, Ana Cristina acusou o candidato do PSL de ocultar patrimônio, furtar um cofre do Banco do Brasil e tratá-la com “desmedida agressividade”. Procurada pela revista, ela disse que, “brava, fala besteira” e que, “quando você está magoado, fala coisas que não deveria”.

No processo, Ana Cristina afirmava que, em 2006, a renda mensal do parlamentar ultrapassava R$ 100 mil mensais  – R$ 26,7 mil do salário de deputado federal, R$ 8,6 mil referentes ao salário de militar da reserva, e “outros proventos” que não são identificados no processo. Perguntada sobre isso, disse à Veja “não se lembrar” do que havia afirmado em 2008.

Ana Cristina também anexou ao processo uma cópia da declaração do imposto de renda do deputado à época, o que demonstraria uma ocultação de patrimônio da Justiça Eleitoral. De acordo com o documento, Bolsonaro omitiu a propriedade de três casas, um apartamento, uma sala comercial e cinco lotes de terras em sua declaração de bens registrada nas eleições de 2006. Em entrevistas concedidas nos últimos dias, Ana Cristina disse que mentiu no processo.

Procurado, Bolsonaro não retornou.


“No governo do PT, umas 50 [empresas estatais] foram criadas”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista à Rádio Jovem Pan no dia 24 de setembro

VERDADEIRO

Ao todo, 54 empresas estatais foram criadas durante o governo do PT – de 2003 a 2016. Segundo o Ministério do Planejamento, o Brasil tem 144 empresas estatais.


“Temos até a estatal do trem-bala”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista à Rádio Jovem Pan no dia 24 de setembro

VERDADEIRO

A Empresa de Transporte Ferroviário de Alta Velocidade S.A. (ETAV) foi criada na gestão de Dilma Rousseff (PT), em maio de 2011, para financiar a construção de um trem de alta velocidade entre Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro. Em dezembro de 2012, a ETAV mudou de nome e passou a se chamar Empresa de Logística e Planejamento, com o objetivo de ser “referência em planejamento (nacional, integrado, sustentável)  de transportes e logística até 2020”. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, publicada em agosto deste ano, mostrou que a EPL tem orçamento anual de R$ 69,36 milhões.


“Está previsto na CLT que mulher e homem têm que ter salário parecido, desde que a diferença de tempo de serviço entre ambos não seja superior a dois anos”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, no dia 28 de setembro

VERDADEIRO, MAS

De fato, o artigo 461 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) afirma que trabalhadores em funções idênticas devem receber o mesmo salário ao prestarem “trabalho de igual valor” para o mesmo empregador em um mesmo local, “sem distinção de sexo, etnia, nacionalidade ou idade”. Mas, de acordo com o parágrafo 1º, a diferença no tempo de serviço entre os trabalhadores em questão não pode ser superior a quatro anos – e não a dois, como mencionado pelo candidato.

Além disso, o parágrafo 2º estabelece que o artigo 461 pode não ser levado em conta para fins de equiparação salarial caso a empresa tenha um plano interno de cargos e salários, mesmo que ele não tenha sido homologado ou registrado em órgão público.

Em 2017, as mulheres ganhavam em média R$ 542 a menos do que os homens no Brasil, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC). O Sudeste era a região do país onde a diferença entre os salários era maior: o ganho médio masculino era de R$ 2.810, e o feminino, de R$ 2.053.  


“Eu não aceito resultado das eleições diferente da minha eleição”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, no dia 28 de setembro

CONTRADITÓRIO

Dois dias após dizer ao apresentador José Luiz Datena que não aceitaria o resultado das eleições caso não vencesse, Bolsonaro voltou atrás. Disse, ao jornal O Globo: “sei que não tenho nada para fazer [em caso de derrota]. O que quis dizer é que não iria, por exemplo, ligar para o Fernando Haddad depois e cumprimentá-lo por uma vitória”. Na segunda-feira (1º), o vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão (PRTB), manteve o tom. Ele afirmou que não acredita em contestação do resultado, mas criticou a possibilidade de retorno do PT ao poder.

Procurado, Bolsonaro não retornou.


“Quem criou a CPMF foi o Fernando Henrique Cardoso”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, no dia 28 de setembro

VERDADEIRO

A Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) entrou em vigor em 1997, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. A previsão inicial era durar dois anos, terminando em 1998. Contudo, a CPMF se estendeu até 2007. Naquele ano, por 45 votos a favor e 34 contra, o Senado rejeitou a prorrogação da emenda até 2011.

Vale lembrar que a CPMF não foi a primeira taxa a incidir sobre a movimentação financeira no país. Em 1993, no governo de Itamar Franco, houve a criação do Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira (IPMF), que vigorou até dezembro de 1994.  


“No governo Lula, o senhor Jaques Wagner defendeu o fim do 13º [salário], enquanto ministro do Trabalho”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista ao programa Brasil Urgente no dia 28 de setembro

VERDADEIRO, MAS

Em 2003, no começo do primeiro mandato do ex-presidente Lula, o então ministro do Trabalho, Jaques Wagner, disse à Folha de S.Paulo que o pagamento do 13º salário poderia ser extinto para pequenas empresas, e o dinheiro pago, incorporado ao salário mensal. A proposta, porém, não foi adiante.

O 13º salário é um benefício garantido aos trabalhadores de carteira assinada, previsto em lei desde 1962. Bolsonaro foi instado a comentar o tema porque, na semana passada, o general Hamilton Mourão (PRTB), vice de sua chapa, fez críticas ao 13º salário.   


“O Joaquim Barbosa mesmo disse, nessa época do Mensalão, que eu era o único deputado da base aliada do governo que não pegou dinheiro na Petrobras”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista com Boris Casoy no dia 28 de setembro

EXAGERADO

Durante o julgamento do mensalão, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa mencionou Bolsonaro como um dos parlamentares que votou contra a aprovação da Lei das Falências, feita em 2013. Essa votação foi usada pelo ministro como exemplo de compra de votos no Congresso. O atual candidato do PSL não, foi, entretanto, o único mencionado por Barbosa. Textualmente, ele afirmou o seguinte: “os líderes dos quatro partidos [PTB, PP, PL e PMDB] cujos principais parlamentares receberam recursos em espécie do PT orientaram suas bancadas a aprovar o projeto (…). Somente o sr. Jair Bolsonaro, do PTB, votou contra a aprovação da referida lei”. Além dele, “vários parlamentares do PT também desobedeceram à orientação da liderança do partido e do governo e votaram contra”. O ex-ministro disse, em 2018, em entrevista, que considera Bolsonaro “um risco para o país”. A menção feita por Joaquim Barbosa a Bolsonaro durante o julgamento do escândalo do Mensalão já foi checada pela Lupa em três oportunidades (veja aqui, aqui e aqui)

Procurado, Bolsonaro não retornou.


“O próprio José Dirceu acabou de declarar que ganhar eleição é uma coisa, assumir o poder é outra”
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PSL, em entrevista ao RedeTV News, da RedeTV, no dia 28 de setembro

VERDADEIRO

Questionado pelo jornal El País sobre o que achava de uma possível vitória do PT, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu afirmou que dentro do país é uma questão de tempo pra gente [PT] tomar o poder. Aí nós vamos tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição”.

Editado por: Cristina Tardáguila e Natália Leal

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VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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