A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Um dragão de olho no seu voto

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
05.out.2018 | 12h00 |

Na história recente do Brasil, não houve uma campanha com tanta desinformação. Há de tudo: convocação para votar em dia errado, camisetas com dizeres deliberadamente adulterados, declarações falsas de voto e vídeos antigos citados como atuais para fraudar e inchar público de manifestações. São conteúdos que propagam ódio e maldade. Mostram desapreço e desprezo pela democracia.

Diante disso, torna-se ainda mais relevante o trabalho checagem de informações. Na reta final do primeiro turno, a Lupa incrementou a maratona de verificação de conteúdos sugeridos por usuários do Facebook. Mostrou que fotos e vídeos, usualmente tomados como prova de verdade, têm sido um dos maiores veículos de mistificação.

Desde a Antiguidade, muitos séculos antes das redes sociais, mentiras vestidas de verdades circulavam pelo mundo. Com o correr do tempo, impressos sensacionalistas se alimentaram delas. O historiador Robert Darnton relata que, em 1780, um impresso noticiou como verdade a captura, no Chile, de um monstro com cabeça de fúria, asas de morcego, corpo gigantesco coberto de escamas e rabo de dragão. Era mentira, claro.

No mundo digital, a enganação permanece. A diferença é que o dragão ganhou as asas das redes sociais. Aprendeu no WhatsApp a não deixar rastros. Não se iluda: ele quer mesmo é engolir seu voto.


O tempo real como desafio

Na quinta-feira (4), a Lupa checou em tempo real o debate promovido pela Rede Globo com candidatos à Presidência. O líder nas pesquisas, Jair Bolsonaro (PSL), faltou ao confronto. Preferiu dar entrevista à Rede Record.

A agência não examinou em tempo real a entrevista de Bolsonaro. Nas redes, leitores cobraram, e tal cobrança só mostra o reconhecimento da relevância do trabalho de verificação.

Na semana passada, a coluna já havia alertado para o fato de agência não ter analisado o vídeo gravado por Bolsonaro no hospital. Depois disso, a Lupa demorou um pouco, mas checou, e bem, as entrevistas concedidas por ele. Na manhã desta sexta publicou a checagem da última entrevista de Bolsonaro.

O esforço da agência deve ser valorizado, mas entendo que o resultado não é o mesmo. Se os demais candidatos são checados em tempo real, o mais correto é que o líder das pesquisas também o seja.


13º salário

A Lupa considerou falsa a afirmação de Fernando Haddad (PT) de que Bolsonaro propõe cortar o 13º salário, por entender que o autor da proposta é o vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão. A checagem lembra que o capitão repreendeu seu companheiro de chapa. Uma leitora questionou: o  vice não representa a chapa?


Reforma trabalhista

A reforma trabalhista foi um dos temas abordados com frequência pelos candidatos durante o debate da Globo. O tucano Geraldo Alckmin afirmou: “Nenhum direito foi tirado. Nenhum.” A Lupa não conferiu. Quando Marina Silva (Rede) disse que a reforma permite que mulheres grávidas trabalhem em local insalubre, a agência deu verdadeiro. Poderia aproveitar e fazer uma verificação ampla sobre o tema da reforma trabalhista, crucial para os brasileiros.

Nota da redação: Checagens ao vivo dificilmente permitem verificações de fôlego sobre um determinado tema. O “verdadeiro” da Marina é contundente quanto à temática em questão.


Nunca diga nunca

No debate entre candidatos à Presidência organizado pela Record, o tucano Geraldo Alckmin afirmou: “Eu nunca fui favorável à PEC do Teto”. A checagem mostrou que, em entrevista ao Jornal do Meio Dia, na TV Gazeta, de Mato Grosso, o candidato disse ser “favorável à PEC 241”, a PEC do Teto de Gastos. Alckmin ganhou um “contraditório”. Nas redes, leitores questionaram a etiqueta. Se o candidato diz que nunca defendeu o teto, e a própria checagem mostra que ele já defendeu… é “falso”. Há tempo para corrigir.

“Nunca”, palavrinha perigosa.


Educação à distância não conta?

Faltou clareza na verificação feita pela Lupa a propósito do número de matrículas no ensino superior. No debate promovido pela Record com os candidatos à Presidência, o petista Fernando Haddad afirmou: “Eu, praticamente, tripliquei o número de universitários no Brasil”.

A agência averiguou e deu “falso”. Diz a Lupa: “Haddad foi ministro da Educação de junho de 2005 a janeiro de 2012. Em 2004, antes de ele assumir a pasta, havia 2.369.717 matrículas nas universidades brasileiras, segundo a Sinopse Estatística da Educação Superior do Inep. Em 2011, último ano dele à frente do ministério, o número de matrículas tinha subido para 2.933.555. Assim, o crescimento foi de 563.838 matrículas – um aumento de 23%. No total – entre universidades, centros universitários, faculdades e centros e faculdades de tecnologia -, o número de matrículas no ensino superior cresceu de 4.163.733, em 2004, para 5.746.762 em 2011 – um crescimento de 38%”.

Ora, as planilhas se referem ao total de matrículas em cursos presenciais em 2004 e 2011. E quem cursava graduação à distância? A Lupa desconsiderou?

O Censo da Educação Superior 2017, divulgado neste ano, traz uma série histórica e contabiliza 6,7 milhões de matrículas em 2011. O resumo técnico do Censo da Educação Superior 2011 cita 6,7 milhões de matrículas naquele ano, 14,7% delas em cursos à distância.

Que as matrículas não triplicaram, parece não haver dúvida. A questão é saber se a Lupa errou nos números. É preciso voltar aos dados e, se necessário, corrigir.

Nota da redação: A reportagem voltará a verificar os números em breve.


Mitos eleitorais

Esclarecedor o conjunto de vídeos sobre mitos eleitorais, produzidos pela Lupa em parceria com o “Por quê?”. O último foi sobre biometria, a coleta de fotos, assinaturas e impressões digitais do eleitor. O vídeo lembra que, nas cidades onde o cadastramento biométrico era obrigatório, quem não registrou as digitais está com o título cancelado e não poderá votar. Esclarece que, se o eleitor se cadastrou, mas a digital não aparecer na hora da urna, não há problema. É possível votar mesmo assim. Faltou, no vídeo, orientação a quem teve o título cancelado: a pessoa deve procurar a Justiça Eleitoral depois da eleição?

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Bom voto!

Editado por: Equipe Lupa

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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A informação está comprovadamente correta
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A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
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A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
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Os dados são mais graves do que a informação
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