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O urgente, o útil e o inútil na checagem jornalística

por Fernanda da Escóssia
11.out.2018 | 12h15 |

Urgente é começar a checar as denúncias, cada vez mais frequentes, de agressões a eleitores. Se a notícia falsa marcou as últimas semanas do primeiro turno, o segundo turno se desenha numa escalada da violência e da intimidação. Nas conversas, nas redes e no noticiário, há relatos seguidos de agressões contra mulheres e LGBTs, nos quais os agressores se apresentam como partidários do candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro.

A violência política é um soco na democracia brasileira. O próprio Bolsonaro foi vítima de uma facada. O quadro só piora.

Diante da repetição de casos, aos poucos começam a ser organizados bancos de dados sobre as agressões. Relatos pungentes estão disponíveis nas redes. Quem lê só a Lupa não tem a temperatura dessa escalada de medo. A agência tem que olhar para esses conteúdos e encontrar uma forma de produzir algo a respeito deles.

Como já escrevi aqui, a checagem não precisa se limitar às declarações. A metodologia da Lupa prevê: “Ainda pode ir a campo [o repórter da Lupa], levando consigo os meios tecnológicos que julgar necessários para a apuração: foto, áudio ou vídeo”. A agência pode fazer reportagem de fact-checking. Checagem e reportagem combinam, até rimam, e o leitor ganha.


Denúncia de fraude é que era fraude

Útil para combater um boato é afirmar sem subterfúgios, como fez a Lupa, em pleno domingo de eleição: resultou de uma montagem o vídeo que mostrava uma urna “autocompletando” o voto em favor do candidato petista à Presidência, Fernando Haddad.

Um técnico do TRE de Minas Gerais analisou o vídeo e mostrou que fora editado. A Lupa, com base nesta constatação do tribunal mineiro, informou sobre a falsificação.

O conteúdo adulterado foi compartilhado pelo candidato ao senado Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), agora senador eleito. A agência não informou isso em sua verificação.

A Lupa ajudaria ainda mais a memória do leitor se re-editasse juntas, num post único, só as checagens sobre supostas fraudes nas urnas eletrônicas – permitiria entender como se construiu o movimento de levantar suspeitas sobre elas e como a família Bolsonaro se comportou.

Na análise da avalanche de notícias falsas do primeiro turno, um furo da Lupa surgiu num artigo que poderia ser só um balanço: das notícias flagradas por seus checadores desde o mês de agosto, as dez mais populares superaram 865 mil compartilhamentos no Facebook.

Quem lê o balanço percebe que, das dez mais, nove são a favor de Bolsonaro e de suas ideias – como a denúncia de fraude nas urnas, por exemplo – ou contra seus concorrentes. A décima é uma foto de homens armados mostrando um cartaz de papelão onde se lê “Bolsonaru é bala. CV”. O próprio candidato do PSL compartilhou essa informação – e depois apagou. A foto é adulterada, pois o cartaz não existe na imagem original.


Sem atualização

A Lupa publicou checagem a respeito dos boletins de urna no Japão e na Nova Zelândia. Informou que, segundo o TSE, ainda não era possível atestar a veracidade dos documentos. Isso foi no domingo, 7 de outubro. No dia 8, a Lupa informou que era falso, segundo o TSE, um boletim de uma urna na cidade japonesa de Nagóia. E os demais boletins? É preciso atualizar a checagem.

Nota da redação: após o alerta da ombudsman, o texto foi atualizado.


Falar sem dizer nada

Inútil é verificar declarações anódinas, detalhes sem importância, platitudes. Em debate no primeiro turno, a então candidata  ao Planalto Marina Silva (Rede) afirmou: “Tenho dito que desde 2010 que vou governar com os melhores”. A Lupa checou. Mostrou que Marina repete isso desde 2010 e deu “verdadeiro”.

Alguns leitores questionaram se a Lupa estava checando o futuro, o que é contra sua metodologia. Entendo que nem se trata disso. Marina de fato repete, desde 2010, que quer governar com os melhores. E daí? O que isso importa?

O risco é virar meme.


Sem resposta

A Lupa tem deixado sem resposta ponderações dos leitores, muitas feitas por intermédio das críticas internas ou neste espaço. Houve reclamações seguidas, por exemplo, sobre uma checagem a respeito do tempo gasto de casa ao trabalho. Não veio resposta da agência. Também houve compromisso de revisar os dados sobre o número de matrículas no ensino superior. Se a Lupa o fez, não avisou.

Por outro lado, a agência corrigiu dois “exagerados” dados a Geraldo Alckmin e Marina Silva. Mudou para “falsos”. Corrigir é atitude que revela transparência e respeito aos leitores.

Nota da redação: A Lupa se compromete com correções e atualizações amplas e irrestritas. Os ajustes sobre Alckmin e Marina foram feitos e informados nas redes sociais. Os demais serão avaliados pela equipe.

Editado por: Cristina Tardáguila

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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Os dados são mais graves do que a informação
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