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‘Tá com muito trabalho? Imagina quem checa fake news!’: o meme verdadeiro

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
15.out.2018 | 16h00 |

“Tá com muito trabalho? Imagine quem checa fake news?”. Na última sexta-feira (12), recebi a imagem abaixo de diferentes amigos e familiares. Via WhatsApp e Facebook. Minha primeira reação foi rir. A segunda, lamentar. A terceira, comemorar. A coluna desta segunda é um apanhado do que aconteceu nas últimas semanas. Uma tentativa – enxuta – de explicar, a partir desse meme, o que tem vivido um checador de notícias.

Na primeira vez em que a montagem do jovem sofrendo diante do laptop pipocou no meu celular, eu estava em Buenos Aires. Era intervalo de uma mais de 20 seções do #LatamChequea, o maior evento de fact-checking da América Latina. Tinha acabado de sair de uma sala em que os checadores discutiam formas de ensinar os cidadãos (crianças, adolescentes e até idosos) a serem mais críticos no consumo de notícias. Tinha ouvido uma inspiradora palestra de John Silva, do “News Literacy Project”, incentivando projetos como o LupaEducação, que buscam se associar a escolas e professores, e pensava o seguinte: “É isso aí: além de checar o que dizem os políticos e de enfrentar as milhares de correntes de conteúdo falso do Facebook, do Twitter e do WhatsApp, temos mesmo que assumir o desafio de inserir checagem nos currículos escolares”. E veio o “plim” da mensagem de WhatsApp com a foto acima. Eu ri. “É trabalho demais!”.

Desde agosto, no início da campanha eleitoral, a Lupa publicou mais de 120 colunas, analisando o grau de veracidade de mais de 850 conteúdos (frases, vídeos e imagens). Acompanhou cinco debates presidenciais ao vivo e outros tantos para os governos de São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal. Somando todos os políticos que vigiou no primeiro turno, foram 50. E isso aconteceu sem que sua equipe tirasse os olhos do que circula no Facebook: links, vídeos e fotos com conteúdo majoritariamente enganoso. Mas, mesmo assim, fica a sensação de que muito pouco foi feito. De que o mar da desinformação nem tem horizonte.

Foi nesse espírito, já meio negativo, que apareceu no meu celular pela segunda vez o meme dos checadores exaustos. Agora, uma postagem de Facebook. Respondi, carinhosamente, que a vida dos fact-checkers brasileiros tem sido bem mais dura do que mostra a foto. Nas últimas semanas, precisei ligar o computador no chão do shopping e no saguão de aeroportos. Deixei a filha com a avó, os tios, os vizinhos. Perdi eventos familiares e escrevi textos só com a mão esquerda (por ter passado por um pequena cirurgia que imobilizou o ombro direito). Praticamente esqueci que sono é algo vital, que precisa acontecer. E minha equipe fez o mesmo. Fica aqui a homenagem. E ainda faltam quase duas semanas para o segundo turno, o que mostra que a roda não para! Assim como as ameaças – que continuam vindo de todos os lados, todos os dias. Infelizmente.

E aí chegou o meme pela terceira vez. De uma pessoa que há pouco tempo não entendia direito o meu trabalho. Alguém que em lugar de “fact-checking” costumava dizer “fast-checking”, como em “fast food”. Foi aí que comemorei. De repente, todo esse esforço fez sentido metafórico. Se em 2015, quando a Agência Lupa abriu suas portas e começou a checar a veracidade dos fatos poucas pessoas entendiam por que um grupo de jornalistas tinha decidido dedicar horas de seu dia ao combate da mentira na política, hoje recebo dezenas de pedidos para verificar informações absurdas em todos os canais digitais existentes – pessoais e profissionais. Se em 2015, o brasileiro não entendia que seria indispensável a existência de repórteres dedicados à verificação de links, fotos ou vídeos, hoje compartilham as checagens e as conclusões da Lupa até mesmo comigo e com minha equipe – sem muitas vezes saber que elas são de nossa própria autoria. Prova de que deu certo! De que viralizou.

Até 28 de outubro, o trabalho de checagem vive sua Copa do Mundo, seus Jogos Olímpicos no Brasil. Os checadores profissionais deixam suas vidas de lado e sentem na pele os efeitos da busca pela verdade. Mas a democracia precisa disso. E vamos seguir em frente. O meme que corre nas redes sociais leva a etiqueta de “verdadeiro”.

Editado por: Natália Leal

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