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WhatsApp causa desconforto em reunião do TSE com checadores

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
23.out.2018 | 12h00 |

Faltando apenas seis dias para o segundo turno das eleições 2018, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reuniu em Brasília um time de peso: representantes de oito plataformas profissionais de fact-checking e membros de Facebook, Twitter e Google. O WhatsApp, que está no olho do furacão desde a semana passada, não mandou ninguém à capital federal. Entrou por telão, de seu escritório na Califórnia, fez algumas declarações que caíram mal entre os jornalistas presentes e se desconectou antes que todos os participantes fizessem suas exposições.

A proposta do encontro, convocado pelo Conselho Consultivo para Internet e Eleições logo após o primeiro turno, era ouvir aqueles que estão na linha de frente no combate às notícias falsas. Assim, num auditório com cerca de 70 pessoas, os checadores mostraram o tamanho do problema.

No primeiro turno, apenas dez dos quase 50 boatos checados como “falsos” pela Lupa foram compartilhados 865 mil vezes no Facebook. Nos dias 6 e 7 de outubro, o Aos Fatos desmentiu 12 notícias que, somadas, acumulavam mais de 1,17 milhão de compartilhamentos. São números que, nas palavras do presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e coordenador do projeto Comprova, Daniel Bramatti, mostram que “o problema [das fakes news] existe e que é muito sério”, algo que, “apesar de alguns membros do TSE terem minimizado recentemente (…), está na cara que ronda os milhões”.

E foi nesse contexto – de números gigantescos e histórias sem pé nem cabeça – que o WhatsApp “enviou” à conversa Keyla Maggessy. Segundo o jornal O Globo, Keyla começou a trabalhar para o aplicativo, nos Estados Unidos, no meio das eleições deste ano, vinda do Google. No início de sua fala, pelo telão, ela defendeu que sua empresa trabalha em três vertentes: “na educação dos usuários, na prevenção de abusos e em sintonia com as autoridades investigativas, oferecendo dados”. Ao esmiuçar a questão, no entanto, a “gerente global de respostas a demandas de Justiça” sustentou que o WhatsApp fechou parcerias com diversas plataformas de checagem no Brasil e fez uma lista citando algumas presentes. O mal-estar se instalou na sala. “A informação é falsa”, disse Tai Nalon, diretora do Aos Fatos, quando tomou a palavra. “Nós montamos nosso trabalho no WhatsApp sem nenhum apoio do aplicativo”.

Quando aberto o espaço para perguntas, o Whatsapp foi o principal alvo de questionamentos. O ministro Admar Gonzaga, do TSE, quis saber se o aplicativo é capaz de identificar mensagens massivas vindas de outros países para o Brasil e, sem seguida, perguntou que medida tomaria para enfrentar isso. Keyla não soube responder. Prometeu investigar e retornar.

Ela também não soube dizer qual o tamanho da equipe de comunicação que sua empresa destinou para atender aos brasileiros numa semana tão crucial. Também não sabia responder se a diretoria do WhatsApp havia avaliado a proposta apresentada pela Safernet há uma semana com oito sugestões de ajustes no funcionamento do aplicativo – propostas feitas aos moldes do que fora implantado na Índia em decorrência de linchamentos. Keyla precisou traduzir as perguntas para o inglês e passar a palavra para o americano Ben Sampler, que estivera ao seu lado todo o tempo e que acabou se limitando a dar respostas evasivas.

O ponto alto (ou baixíssimo) da participação do WhatsApp na última reunião do Conselho Consultivo do TSE antes da votação do próximo domingo foi quando os representantes do aplicativo interromperam a fala dos checadores para se despedir. Não poderiam seguir conectados, escutando as proposições daqueles que – sim – estão combatendo a desinformação. Tinham alguma agenda qualquer. A desconexão do WhatsApp significou o esvaziamento da sala.

De positivo da reunião, ficou a apresentação – por parte de sete das oito plataformas de checagem presentes – de um documento robusto que trouxe quatro propostas concretas que podem ser encampadas pelo TSE ainda nesta semana para combater as notícias falsas.

Agência Lupa, Aos Fatos, Boatos.org, Comprova, e-Farsas, Estadão Verifica e Truco/Agência Pública criaram um grupo único de WhatsApp nos últimos dias e propõem ao TSE que o utilize como principal canal de elucidação de dúvidas e comunicação de checagens. O grupo pede que o órgão forneça a essa equipe de profissionais acesso rápido aos TREs, que realizarão a votação de segundo turno, bem como a especialistas em direito eleitoral e em urnas eletrônicas. Por fim, pede que o órgão defenda publicamente a atuação dos jornalistas – que vêm sendo agredidos fisicamente e virtualmente (já foram mais de 130 casos de violência nas eleições deste ano, segundo a Abraji) e que passe a apostar em alfabetização midiática. Leia a íntegra das propostas apresentadas ao TSE aqui.

Os checadores aguardam posicionamento do órgão.

*Este artigo foi publicado na revista Época em 23 de outubro de 2018.

Editado por: Natália Leal

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