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Na feira da desinformação, domingo é o dia D – de democracia

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
25.out.2018 | 13h14 |

Imagine que o dono de uma grande feira de frutas recebe a visita de um perito para atestar a qualidade dos produtos oferecidos. A fiscalização aponta problemas. Há cajus apodrecidos por dentro, embora pareçam suculentos por fora.

O dono da feira retira de circulação parte da mercadoria condenada. Deixa o restante. Alega que há quem queira cajus bichados, apesar do risco à saúde pública.

Cajus podres, assim como informações falsas, há aos montes. Mas retirar uma informação falsa de circulação é mais complexo do que proibir a venda de cajus, por isso trago algumas questões para o debate.

Falo em informação falsa porque não gosto do termo fake news, um paradoxo original. Se é notícia, não deveria ser falsa.

A Lupa já mostrou que, em agosto e setembro, as 10 notícias falsas mais populares checadas pela agência tiveram juntas mais de 865 mil compartilhamentos no Facebook. Nove beneficiavam o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, e uma, que chegou a ser compartilhada pelo candidato, mostrava uma foto de homens armados com um cartaz de apoio a ele.  

Depois, num trabalho de repercussão mundial, a Lupa, em parceria com UFMG e USP, apontou que, das 50 imagens mais compartilhadas em 347 grupos de WhatsApp, só 4 eram verdadeiras. O grupo apresentou à rede propostas para reduzir o fluxo de informações falsas.

O Comprova desmentiu um vídeo enganoso, que circulou às vésperas do primeiro turno deste ano, falando de uma suposta fraude nas eleições de 2014 e insinuando nova fraude em 2018. O vídeo falso teve 2 milhões de visualizações.

Só no fim de semana do primeiro turno, o Aos Fatos desmentiu 12 boatos que, somados, acumularam mais de 1,17 milhão de compartilhamentos no Facebook. Os de maior repercussão, com ao menos 844,3 mil compartilhamentos, foram os relacionados a fraudes nas urnas eletrônicas.

Diante da constatação irrevogável de que foi impossível conter a onda de desinformação, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com atraso, chamou os checadores e o WhatsApp para uma reunião. O WhatsApp saiu antes do fim. Os checadores apresentaram propostas para conter a circulação de conteúdos falsos neste fim de semana eleitoral.

A primeira proposta é abrir um canal de comunicação direto entre o tribunal e as equipes de checagem. Já existe um grupo de checadores formado, e eles sugerem que o TSE ponha seus especialistas em contato com esse grupo para trocar informações sobre boatos em curso. Da mesma proposta consta a criação de um banco de dados com o registro oficial de todas as denúncias efetivamente feitas por eleitores sobre o mau funcionamento de urnas e problemas eleitorais em geral.

O grupo também sugere que o TSE utilize as redes para campanhas de alfabetização digital, mostrando o risco de compartilhar conteúdos duvidosos.

Todas as ideias são de interesse direto do leitor. Até o momento em que esta coluna é publicada, não se sabe o destino delas nem o que fará o TSE.

Na feira da desinformação, a Lupa tem o incômodo trabalho de avisar sobre frutas podres. Não decide o que fazer com elas. Mas a decisão do mercado de manter em circulação conteúdos falsificados respinga em quem as fiscaliza. De que adiantou checar, reclamam os leitores?

Adiantou muito. Alertou, escancarou, exibiu ao mundo o que vem acontecendo no Brasil. A Lupa teve papel central nisso. Precisa seguir cobrando medidas, ações, respostas das redes, do TSE e do Ministério Público Eleitoral.

É fundamental seguir indicando quem se beneficia com os boatos, quem divulga rumor falso sobre urnas, quem chafurda no lixo da violência, quem fala em fechar jornais e intimida jornalistas. Na bela primeira página do jornal O Povo (Link) estão nomes de jornalistas agredidos, assediados e ameaçados nesta eleição. Muitos são checadores, seis são da Lupa.

A checagem jornalística já mostrou que não lhe faltam nem trabalho no Brasil nem expertise para atuar. Neste domingo (28), entretanto, o que se espera dos checadores é mais que excelência técnica. O que está em jogo, como já disse aqui, é “só” a democracia – um valor que cabe também a nós, jornalistas, proteger.


O novo palco de Bolsonaro

Quando se recusou a ir a debates no segundo turno, por motivos médicos e/ou estratégicos, o candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, radicalizou sua opção por fazer das redes o palco de divulgação de seus conteúdos. Concedeu algumas poucas entrevistas.

A Lupa verificou as entrevistas, mas, sem debates, perdeu seu principal material bruto de checagem. Pela natureza pública, pelo confronto aberto, os debates têm sido o lugar de apresentação de ideias, dados, fatos.

Sem participar deles, Bolsonaro reagendou o noticiário. Reposicionou o palco de divulgação de seus conteúdos. Falou nas redes, e seus correligionários fizeram o mesmo. A Lupa tardou um pouco a perceber esse movimento.

Ainda no primeiro turno, demorou a checar o vídeo gravado por Bolsonaro no hospital. No segundo turno, não verificou o discurso do líder das pesquisas na visita ao Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar), no Rio de Janeiro. Ignorou o mais polêmico discurso do candidato, proferido, por teleconferência, para apoiadores na paulista. Foi nele que o candidato defendeu silenciar opositores, ameaçando usar a lei antiterrorismo contra ativistas do MST e do MTST. Bolsonaro também deu entrevista à Rádio Guaíba. A Lupa não checou.

Eivados de opiniões, os discursos de Bolsonaro oferecem dificuldades extras aos checadores. A Lupa não checa opinião. Mas, quando um candidato afirma que prega a não violência e aparece de arma na mão, não há algo a ser checado? Ou, quando fala em imprensa livre, mas “sem Folha de S.Paulo”, não há uma contradição em termos?


Sobre errar e mentir

O cantor Geraldo Azevedo, em show, afirmou que candidato a vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, era um de seus torturadores. Em sabatina realizada por O Globo, Extra, Época e Valor Econômico, o candidato do PT, Fernando Haddad, repetiu a informação, atribuindo-a em seguida ao artista. A agência checou e apontou o erro de ambos.

Há alguns movimentos a serem avaliados. O primeiro é o dos leitores, cobrando por que a agência não falou em mentira. A Lupa não utiliza o verbo mentir, por considerar que mentira pressupõe intenção, e intenção não é passível de verificação. Entendo que foi a Lupa tomou a decisão correta ao falar em erro, bem como ao utilizar o verbo “ecoar” em sua checagem.  

O segundo é o timing da checagem. Deveria a agência ter analisado a declaração de Azevedo, feita no sábado? Ele não é candidato, o que não o torna personagem principal do trabalho da Lupa. Mas fez uma declaração de repercussão, envolvendo um candidato. Se a agência tivesse checado o erro original, teria evitado sua repetição? A avaliar.

O terceiro movimento é o tamanho da notícia. Entendo que a Lupa acertou ao dar ao erro a dimensão devida. Noticiou-o, sem manchetar nem escandalizar.


Verdades inconvenientes

Candidatos costumam repetir declarações, o que às vezes torna o formato das checagens cansativo. Nos últimos debates entre candidatos ao governo do Rio e de São Paulo, a Lupa encontrou uma solução criativa para editar o que foi verificado: listou, de um lado e de outro, verdades inconvenientes. São essas as que doem mais.

Bom voto!

Editado por: Equipe Lupa

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
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A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
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CONTRADITÓRIO
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SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
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