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Coalizão inédita de checadores flagra 50 notícias falsas em 48 horas

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
29.out.2018 | 15h00 |

Na linha de frente do combate às notícias falsas sempre – sempre – estarão os jornalistas. E, no último fim de semana, os brasileiros mostraram ao mundo que estão prontos para ensinar como isso é feito.

De forma colaborativa e organizada, com união e troca de informações, entre a manhã de sábado e a noite domingo, seis plataformas de checagem somaram esforços e se jogaram nas redes sociais com a hashtag #CheckBR. Tudo para fazer frente ao mar de desinformação que se formou. Numa coalizão de checadores jamais vista, Agência Lupa, Aos Fatos, Boatos.org, Comprova, e-Farsas e Fato ou Fake mantiveram-se articulados entre si e com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para evitar que boatos se espalhassem pelo Facebook, Twitter e WhatsApp e atrapalhassem o processo eleitoral. Os resultados surpreenderam.

Em 48 horas de trabalho, 50 conteúdos suspeitos foram detectados nas redes, checados com base em fontes oficiais e classificados como “falsos”. Isso dá uma média de mais de uma mentira por hora ao longo do fim de semana eleitoral – o que mostra a dimensão do combate travado.

A articulação do grupo de checadores – composto por não mais de 50 profissionais – começou logo depois do primeiro turno das eleições deste ano, publicamente marcado pela avalanche de notícias falsas relativas a fraude nas urnas eletrônicas. Ganhou força na segunda-feira, 22 de outubro, quando o TSE abriu as portas para os fact-checkers em Brasília e deu sinal verde para uma aproximação inédita entre seus especialistas e assessores de comunicação com o grupo de “soldados da informação”.

Na sexta-feira (26), sob a coordenação da presidência da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), surgiram dois grupos de WhatsApp: um conectando os checadores ao TSE e outro reunindo apenas os repórteres e editores das seis plataformas de checagem. Na manhã do sábado (27), Sérgio Lüdtke, do Comprova, operacionalizou a iniciativa:

“A checagem colaborativa usou ferramentas simples e disponíveis a qualquer um. Criamos grupos no WhatsApp, para conversações e alertas, e compartilhamos um documento no Google para informar sobre as pautas que estavam sendo apuradas, o status de cada uma delas [em andamento, publicada ou arquivada] e o link para republicação. Todos tinham conhecimento do que estava sendo produzido por cada um”.

O uso compartilhado das conclusões foi autorizado por todos os envolvidos e liberado a todas as plataformas, desde que respeitado o crédito do responsável pela apuração original. E Lüdtke defende o espírito por trás dessa ideia: “A colaboração é parte do futuro de um jornalismo que, além de ser livre, precisa ser aberto”.

Graças a esse esforço e a essas trocas, as 50 checagens do #CheckBR foram publicadas não só nas redes sociais de cada uma das plataformas como também nos parceiros a que elas atendem. O Comprova, por exemplo, envolve 24 redações de jornais, revistas e televisões. O Fato ou Fake reúne G1, TV Globo, Globo News, CBN, O Globo e Valor. A Lupa entrega seu conteúdo para os portais Yahoo, Terra e Metrópoles, além da revista piauí e da Folha de S.Paulo. Neste fim de semana, a agência também contou com o apoio internacional do site de checagem argentino Chequeado e ainda utilizou a maior parte das verificações no projeto de verificação de notícias no Facebook.

Isso tudo significa que as checagens do #CheckBR voaram longe. Surfaram em vários formatos, plataformas e até idiomas, diminuindo consideravelmente o impacto das notícias falsas. Só no Twitter, entre as 8h de domingo e 11h desta segunda-feira (29), houve ao menos 679 mil impressões (visualizações) dos conteúdos com essa hashtag, aponta relatório da ferramenta TweetReach.

Para o TSE foi uma iniciativa que deu certo:

“A parceria com o grupo de fact-checkers foi uma iniciativa fundamental para o esclarecimento das fake news com agilidade e precisão”, disse nesta manhã de segunda-feira (29), Ana Cristina Rosa, chefe de Comunicação do órgão. “A melhor maneira de enfrentar a mentira é apresentar a verdade (…)  e esse enfrentamento foi ainda mais eficiente por termos trabalhado em rede, de forma conjunta com os checadores”.

As plataformas envolvidas também fazem uma análise positiva da iniciativa:

“A união das agências no sábado e domingo foi uma boa iniciativa, num momento crucial da eleição, fazendo um trabalho que isoladamente seria impossível, pois se previa um enorme volume de checagens”, destacou Marcelo Moreira, coordenador do Fato ou Fake.

“O #CheckBR nos permitiu ter um maior número de respostas diretas do TSE. O banco de dados dos parceiros também ajudou na construção de desmentidos sobre assuntos que voltaram a circular, como a capa da Veja do Joaquim Barbosa ou a tese de que as urnas são fraudadas”, disse Edgard Matsuki, do Boatos.org. “Unidos conseguimos ser mais eficientes”.

“Checadores precisam amplificar seu trabalho para chegar às pessoas que mais precisam dele. Por isso, é importante que haja colaborações como esta, para que sejamos mais ágeis, relevantes e eficientes”, defendeu Tai Nalon, do Aos Fatos.

“Essa iniciativa foi pra mim um grande aprendizado!”, arrematou Gilmar Lopes, do e-Farsas.

Daniel Bramatti, presidente da Abraji e um dos jornalistas envolvidos no processo, resume bem a iniciativa: “Quando o desafio é grande, os recursos são escassos e a causa é de interesse público, faz muito mais sentido colaborar do que competir. Que esse ótimo exemplo seja seguido em outras oportunidades”.

*Para ver toda a produção da Lupa no fim de semana do 2º turno de 2018 clique aqui.

**Este artigo foi publicado no site da revista Época em 29 de outubro de 2018.

Editado por: Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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