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A eleição brasileira, o boato desigual e o futuro da checagem

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
01.nov.2018 | 12h42 |

A campanha eleitoral de 2018 entrará para a história da política brasileira como aquela em que a desinformação esteve entre os protagonistas. A checagem jornalística, voltada primordialmente para o escrutínio de entrevistas e debates eleitorais envolvendo personagens públicos, ganhou função extra. O cenário das redes sociais favoreceu a proliferação de boatos, e os checadores, diante das denúncias, mergulharam no trabalho de desmentir inverdades. Dentro da verificação, o ramo chamado de “debunking” ganhou relevância.

Os boatos analisados pela Lupa foram uma parte ínfima do universo de desinformação que circulou pela rede. A agência pautou-se a partir de informações denunciadas a ela ou ao Facebook como supostamente falsas. Não atuou, portanto, no universo total da desinformação, e o resultado de seu trabalho não pode ser tomado como tal. Muitos outros conteúdos falsos circularam pela rede sem que tenham sido denunciados nem checados.

Mesmo assim, algumas análises são possíveis, e faço a minha. Ao final do primeiro turno, a Lupa indicou quais foram os dez boatos mais compartilhados no Facebook e flagrados por sua equipe desde agosto. Dos dez mais, nove foram a favor do então candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, e de suas ideias – como a denúncia de fraude nas urnas – ou atacavam seus adversários.

Depois, num trabalho inédito, a Lupa, em parceria com USP e UFMG, examinou 50 imagens compartilhadas em 347 grupos de WhatsApp. Só 4 foram totalmente verdadeiras. Das oito totalmente falsas, todas defendem ideias associadas a Bolsonaro, atacam seus adversários ou reforçam a condenação a bandeiras já criticadas por eleitores do capitão reformado.

Em busca de outro recorte, observei as 15 checagens publicadas pela agência no fim de semana do segundo turno, 27 e 28 de outubro, sobre boatos que circularam nas redes. Dos 15 boatos desmentidos pela Lupa, 10 foram claramente favoráveis a Bolsonaro ou contra seus adversários. Nos outros cinco, havia casos e casos, como o vídeo de uma eleitora apontando fraude em urna. Segundo informou o TRE paulista, foi a eleitora que errou. Sem indicação de voto dela, tal boato foi classificado por mim como neutro, embora a campanha bolsonarista tenha abraçado as suspeitas sobre as urnas eletrônicas.

Por fim, num derradeiro recorte, listei os 64 boatos sobre eleição que circularam no Facebook e foram desmentidos pela Lupa em setembro e outubro. Excluí desse total os boatos sobre o Museu Nacional (2) e a única informação verdadeira (a presença, ao lado de candidatos que quebraram a placa em homenagem a Marielle Franco, do então candidato Wilson Witzel, agora governador eleito do Rio).

Dos 64 boatos, 50 foram indubitavelmente a favor de Bolsonaro ou suas ideias, ou contra seus adversários. Uma análise temática do conjunto mostra a confluência de alguns temas: o apelo moral, a suspeição sobre as urnas eletrônicas, o espectro do “comunismo” e a ideia de uma campanha invencível, com apoios falsos ou descontextualizados. Mas isto é assunto para outro artigo.

Já discuti neste espaço se a checagem deve tratar igualmente os desiguais. O balanço do trabalho da Lupa permite afirmar que, na eleição brasileira de 2018, é impreciso falar, de modo genérico, apenas em onda de desinformação. A onda foi desigual: a maior parte dos boatos checados e desmentidos pela agência propagava cenas, ideias e bandeiras favoráveis ao candidato vencedor – o agora presidente eleito Jair Bolsonaro – ou contra seus adversários. De novo, são uma amostra não estatística do que foi denunciado nas redes.

O desafio da Lupa é checar a futura administração, já a partir no período de transição. A agência começa bem ao mostrar que o presidente eleito repete, em suas primeiras entrevistas, erros cometidos durante a campanha. Como será no governo?

Bolsonaro também faz ameaças à liberdade de imprensa, pilar da atividade jornalística. Denúncias de constrangimento à liberdade de expressão se espalham pelo país. Todo esse cenário dá ao jornalismo a obrigação de ser ainda mais relevante, sem se deixar intimidar.


Para além dos grandes temas, assuntos da vida cotidiana mobilizam os leitores. Muitos cobraram análise mais atenta sobre o preço do bilhete único no Rio e São Paulo. O valor é igual, mas o bilhete garante o mesmo número de viagens? – foi a pergunta de quem usa transporte público.

A Lupa não respondeu. Assim como deixou sem resposta críticas sobre o  tempo gasto pelo trabalhador de casa ao trabalho.

O mesmo aconteceu com questões sobre o preço do botijão de gás. A planilha oficial informa que o preço médio no país é R$ 68,48. Mas, na prática, o botijão custa muito mais, afirmam os leitores. A Lupa deveria, de planilha na mão, percorrer os pontos de venda.

Tenho insistido na necessidade de que  a verificação seja feita também na rua, abraçando a boa e velha reportagem. A metodologia permite, e os leitores ganham.


Resultou útil para o leitor a inédita coalizão de seis plataformas de checagem para potencializar o trabalho no fim de semana do segundo turno. Parabéns a todos.

A Lupa foi incansável, com destaque para o monitoramento das redes e a parceria com USP e UFMG. Houve erros? Há sempre, e falei de alguns neste espaço. Mas a agência sai do processo eleitoral maior do que entrou. A checagem brasileira, idem. Com os checadores talvez meio desencantados por não terem conseguido barrar a desinformação. Frustrados diante da pouca e tardia ação do Tribunal Superior Eleitoral, do Ministério Público Eleitoral e da Polícia Federal. Nas empresas que mandam nas redes sociais, há ritmos diferentes de reação, que vai do razoável ao inexistente. Mas recompensados por saber que os brasileiros estão mais alertas sobre o perigo dos boatos.

Esta eleição nos fez repensar a forma de fazer e de ensinar jornalismo. E, na despedida, não há como não lembrar a sala de aula. “Professora, jornalismo é desencanto?”, uma aluna querida me perguntou. “Todo dia”, respondi. Mas, talvez por ter que dizer algo aos alunos, aos filhos, a mim mesma, respondi também que o encanto há que ser maior que o desencanto. E, como já escrevi aqui, quando tudo isso for História, cada um poderá contar aos bisnetos o que andava fazendo em 2018.


O trabalho da ombudsman para a Agência Lupa se encerra nesta coluna. Poucos veículos de comunicação no Brasil apostam na crítica explícita de um profissional contratado para isso e, no cenário internacional de fact-checking, a Lupa foi pioneira em ter um, ou uma, ombudsman. À agência e à IFCN (International Fact-Checking Network), meus  agradecimentos pelo convite.

Às leitoras e aos leitores, obrigada pela companhia e pela paciência.

 

Editado por: Equipe Lupa

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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