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Colaboração inédita entre TRE e checadores evitou fraude com cola instantânea em urnas

por Cristina Tardáguila
05.nov.2018 | 14h00 |

Passadas as eleições, queria contar em detalhes o que aconteceu na manhã do dia 28 de outubro: o maior exemplo de que a união entre checadores e profissionais de outras áreas, especialistas bem treinados e dispostos a trabalhar contra notícias falsas, é o caminho a ser trilhado nos próximos meses.

Na manhã do segundo turno, por volta das 10h30, recebi um telefonema do Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia (TRE-RO). Meses antes, havia estado em Porto Velho, ensinando técnicas de checagem de fatos para um grupo de cerca de 30 juízes, desembargadores e fiscais eleitorais. Havia passado quatro horas no tribunal, numa imersão em ferramentas que estão disponíveis online (algumas de forma gratuitas e outras pagas)  de forma a capacitar o grupo a identificar e rastrear postagens duvidosas que viriam a surgir na campanha eleitoral.

“Bom dia, Cristina. Precisamos de uma ajuda sua aqui. Como é mesmo que se faz a geolocalização usando o Tweetdeck?”, perguntava, nitidamente ansioso, um dos técnicos do TRE-RO. “Como faz mesmo para marcar Rondônia nele? Porto Velho?”, continuava, citando um dos sistemas do Twitter.

De cabeça, fiz o passo a passo, mas quis entender o porquê daquilo tudo. “O que está acontecendo por aí?”

Usando algumas das técnicas aprendidas na oficina de checagem, horas antes, o time do TRE-RO havia localizado um vídeo que propunha aos eleitores da região uma fraude absurda: a aplicação de cola instantânea nas teclas das urnas eletrônicas como forma de impedir que os eleitores votassem num determinado candidato à presidência. “[A tecla] Vai estar colada e não vai descer”, dizia o indivíduo na gravação que tinha um minuto de duração e começava a viralizar nas redes sociais. Assistam:

Somando o conteúdo da oficina da Lupa ao ímpeto dos técnicos do TRE-RO, do grupo de inteligência da análise de fontes abertas vinculada à Coordenação de Segurança das Eleições 2018, do Ministério Público Eleitoral local e do corpo policial que estava de plantão naquele dia, por volta das 11h30, Dalvan Queiroz Alves, de 29 anos, foi localizado em sua casa e levado a depor. Precisou explicar o que pretendia com aquela proposta. Ouviu das autoridades que se tratava de um crime e recebeu uma multa de R$ 500, parcelada em três vezes. Às 14h, já tinha virado notícia no G1.

Segundo a assessoria de comunicação do TRE-RO, antes mesmo de Dalvan começar a depor, seu vídeo parou de circular. Por se tratar de fraude eleitoral, foi retirado do Facebook. Mas o melhor – na minha opinião – reside no fato de, naquele dia, o tribunal não registrou nenhuma ocorrência de teclas de urnas coladas. Pode ter sido coincidência? Pode. Pode ter sido um caso pequeno? Talvez. Mas guardo para mim como exemplo claro de como a educação em checagem – para além da bolha do jornalismo – pode render frutos rápidos e evidentes.

Uma urna custa cerca de US$ 800 para ser fabricada, uns R$ 2.900. Isso sai do bolso do contribuinte. Uma cola instantânea pode ser comprada por R$ 5,99 e atrapalhar bastante uma jornada eleitoral.

No dia 22 de outubro, na última vez que estive no Tribunal Superior Eleitoral, defendi uma aproximação entre os checadores e a Escola Judiciária Eleitoral (EJE). Propus que o TSE, que tanto sofreu com as notícias falsas neste ano, se torne um órgão verdadeiramente preocupado com essa questão, que assuma a pauta da educação para criação de cidadãos capazes de checar notícias. Afinal de contas, o pleito de 2020 já está logo ali e as notícias falsas não vão embora. Ao time do TRE-RO, meus parabéns.

*Este artigo foi publicado no site da revista Época no dia 5 de novembro de 2018.

Editado por: Leandro Resende

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