A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Ministro Ernesto Araújo, venha conhecer – de perto – quem combate notícias falsas

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
19.nov.2018 | 16h00 |

Em 6 de setembro, quando o hoje presidente eleito, Jair Bolsonaro, foi esfaqueado por Adélio Bispo de Oliveira em Juiz de Fora (MG), dezenas de fotos sugerindo que o atentado não tinha passado de uma encenação do então candidato do PSL ganharam as redes sociais em tom crítico à vítima. A ação do agressor ocorrera por volta das 16h. A resposta dos fact-checkers não tardou. As primeiras imagens falsas foram apontadas como tal às 17h40.

Na mesma campanha eleitoral, uma foto do rosto de Bolsonaro viralizou no Facebook ao carregar consigo o seguinte texto: “Um paciente com câncer custa muito caro para o Estado. Vamos cortar essa farra”. Os checadores de fatos não hesitaram em aplicar nela a etiqueta de falso e devolver às redes o dado correto: o político jamais havia dito tal barbaridade. Mas o ódio à família Bolsonaro continuou.

O senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) foi vítima de pelo menos duas grandes notícias falsas na última corrida eleitoral. Numa delas, aparecia de corpo inteiro, andando pelas ruas do Rio de Janeiro. Na imagem, usava uma camisa polo com a frase “Movimento nordestinos voltem para casa. O Rio não é lugar para jegue!” no peito. Era uma montagem. A versão original da vestimenta – identificada pela equipe da Agência Lupa em poucos minutos – era lisa. Sem qualquer referência pejorativa aos nordestinos.

Na outra fake news contra Flávio, o jovem político era apontado como autor de uma frase que sugeria que um garçom negro morto no RJ tinha ‘assumido risco’ ao andar com um guarda-chuva na mão perto de uma favela. “Um elemento negro, andando perto de uma favela, com um guarda-chuva na mão. Queria o quê? Correu o risco. A culpa não é da polícia”.

Não há registros públicos de que Flávio tenha dito tamanha sandice. E, ao se deparar com esse conteúdo nas redes, os fact-checkers profissionais atuaram com agilidade. Trabalharam para evitar que a imagem dele não fosse arranhada por um ataque tão baixo. Durante a campanha eleitoral, mais de dez posts no Facebook foram marcados como falso pela Lupa por espalhar essa informação errada sobre o filho de Bolsonaro.

Mas apesar de todos esses exemplos – e de muitos, muitos outros que podem ser encontrados no site e nas redes sociais da empresa que dirijo desde 2015 -, li com tristeza que, aos olhos do futuro ministro de Relações Exteriores do Brasil, o embaixador Ernesto Araújo, os checadores de fato seriam, na verdade, um grupo de “marxistas” que não veem “a hora de desligar o interruptor da internet autêntica”. Não, ministro. Não somos. Insisto: não somos.

Os fact-checkers do Brasil – e do mundo todo – trabalham incansavelmente contra informações incorretas, venham elas de onde vierem. São profissionais que seguem uma metodologia certificada por instituições jornalísticas internacionais e que respondem a um código de ética severo. Nenhum fact-checker que conheço trabalha para impedir que alguém expresse sua opinião, exponha seu ponto de vista ou mesmo minta. Eles acreditam no seu dever profissional de mostrar à sociedade onde há um erro factual e onde os cidadãos podem localizar o dado correto. Na checagem de fatos não há nada além disso.

Em miúdos, ministro, trabalhamos, para evitar que aconteça no Brasil o que foi visto na Índia. Para evitar que boatos relacionados a sequestros infantis jamais concretizados levem ao linchamento e à morte de pessoas. Nos esforçamos para evitar que a desinformação promova no Brasil situações semelhantes às vistas em Myanmar, onde o ódio virtual levou a massacres reais. Também trabalhamos para que reputações como a do futuro presidente, de seus familiares e de seus opositores não sejam destruídas por histórias falsas. Repito: os checadores não censuram nada. Apontam onde há uma informação equivocada e indicam o dado correto. Além disso, checadores trabalham com transparência, indicando as fontes de informações que publicam e, em caso de erro, se retratam e mostram – mais uma vez – o dado acertado.

Na última quinta-feira (16), recebi um alerta de e-mail de que @ErnestoAraújo, “Twitter Oficial do Futuro Ministro das Relações Exteriores do Governo Bolsonaro.”, gostaria de ser meu seguidor no Twitter. Seja bem-vindo à rede e saiba, desde já, que, se nesse espaço (ou em qualquer outro) for alvo de notícias falsas, os checadores da Agência Lupa aplicarão as mesmas técnicas para trazer à tona fatos concretos e corretos. E mais: se além de conhecer meu perfil no Twitter quiser visitar a redação da maior plataforma de checagem do Brasil, saiba que será um prazer recebê-lo. Quem sabe não se dispõe a conhecer algumas técnicas básicas de verificação e deixar de lado o simples ataque aos que se esforçam tanto para combater notícias falsas.

*Este artigo foi publicado pelo site da revista Época no dia 19 de novembro de 2018.

Editado por: Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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