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Fotos: Valter Campanato/Agência Brasil, Antônio Cruz/Agência Brasil, Nilson Bastian/Câmara dos Deputados, Marcelo Lelis/Agência Pará
Fotos: Valter Campanato/Agência Brasil, Antônio Cruz/Agência Brasil, Nilson Bastian/Câmara dos Deputados, Marcelo Lelis/Agência Pará

Setor de armas, agronegócio e construção: quem financiou as últimas campanhas dos futuros ministros?

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
22.nov.2018 | 18h50 |

Quatro dos 13 ministros já anunciados pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL) disputaram eleições nas últimas duas décadas. Mas quem foram seus doadores de campanha?

Navegando pelos dados das prestações de contas de campanha, disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Lupa localizou os maiores doadores de Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e Tereza Cristina (DEM-MS), que são deputados federais e se reelegeram. A Lupa verificou também as doações para Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) – que exerce mandato na Câmara, mas não tentou reeleição neste ano – e do astronauta Marcos Pontes, que se candidatou a deputado federal pelo PSB-SP em 2014, mas não se elegeu.

Onyx foi escolhido para a Casa Civil. Tereza Cristina, para o Ministério da Agricultura. Mandetta assumirá a Saúde, e Pontes, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Confira a seguir  o resultado desse levantamento:

Onyx Lorenzoni (DEM) teve doações do setor de armas de 2006 a 2014

Anunciado como futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx é deputado federal pelo Rio Grande do Sul desde 2003. Em 2004 e 2008 se candidatou à Prefeitura de Porto Alegre, mas não venceu. Neste ano, ele se reelegeu para mais um mandato na Câmara, com 183.518 votos. No momento, exerce o cargo de Ministro Extraordinário Coordenador do Gabinete de Transição Governamental.

A campanha de Onyx em 2018 recebeu R$ 1,663 milhão e foi majoritariamente bancada por seu partido, o DEM, que contribuiu com R$ 1 milhão (R$ 50 mil do fundo partidário e R$ 950 mil do fundo eleitoral). Outros R$ 650 mil foram doados pelo empresário Carlos Jereissati (R$ 300 mil), dono da rede de shopping centers Iguatemi e acionista majoritário da Oi. Rubens Ometto, presidente do Conselho de Administração da Cosan, doou R$ 200 mil e sua filha Isabel outros R$ 50 mil. Salim Mattar, fundador da Localiza, repassou R$ 100 mil. Vale lembrar que, desde 2015, a legislação eleitoral não permite doações de pessoas jurídicas.

Em 2014, quando ainda eram permitidas doações de empresas, a campanha de Onyx foi um pouco mais cara. Movimentou R$ 2,062 milhões. Naquele ano, vinte empresas foram responsáveis por 80% dos recursos usados na campanha, entre elas o Shopping Iguatemi (R$ 200 mil), de Jereissati, e a Cosan Lubrificantes (R$ 109 mil), de Ometto.

Também doaram acima de R$ 100 mil as empresas Andrade Gutierrez (R$ 200 mil), Rima Industrial (R$ 150 mil), CR Almeida, Copersucar, Bradesco Leasing e CRBS (R$ 100 mil cada). A Taurus doou R$ 50 mil. O DEM cedeu R$ 300 mil, e Onyx pagou R$ 98 mil do próprio bolso.

Em 2010, a campanha de Onyx arrecadou R$ 1,370 milhão, dos quais R$ 888,5 mil vieram de pessoas jurídicas (exceto partidos). A Fujiwara Equipamentos de Proteção foi a maior doadora delas (R$ 200 mil), seguida pela Taurus (R$ 150 mil), a Associação Nacional da Indústria de Armas e Munições e a Gerdau (R$ 100 mil cada). Outros R$ 450 mil vieram de seu partido, o DEM, que, à época, não era obrigado a especificar a origem do dinheiro.

A Gerdau e a Taurus também foram contribuidoras relevantes na campanha de Onyx em 2006. As duas empresas contribuíram com R$ 110 mil cada, as duas maiores doações que a campanha recebeu. No total, foram R$ 542,4 mil arrecadados, dos quais 85% vieram de empresas. Em 2002, sua primeira eleição para deputado federal, a campanha recebeu R$ 204 mil, dos quais R$ 100 mil vieram da Gerdau.

Onyx ainda foi candidato a prefeito de Porto Alegre em 2008 e 2004. Em 2008, a campanha recebeu R$ 2,052 milhões em doações, dos quais R$ 741,3 mil vieram do partido. Entre os maiores doadores daquele ano, novamente, estavam a Gerdau (R$ 100 mil) e a Taurus (R$ 150 mil). A Companhia Brasileira de Cartuchos (R$ 150 mil) e a Bracol (R$ 500 mil) também fizeram contribuições significativas. Em 2004, ele arrecadou R$ 256,2 mil, dos quais R$ 100 mil vieram da Gerdau e R$ 75 mil do PFL nome do DEM à época.

Tereza Cristina (DEM) recebeu doações do agronegócio e dos transportes

Tereza Cristina é deputada federal pelo Mato Grosso do Sul desde 2015 e se reelegeu para um segundo mandato na Câmara em 2018 com 75.068 votos. Ela foi anunciada como futura ministra da Agricultura.

Neste ano, Tereza recebeu R$ 2,238 milhões em doações. Assim como na eleição de Onyx, a maior parte das receitas da campanha da futura ministra neste ano veio do DEM: R$ 1,35 milhão, sendo R$ 150 mil do fundo partidário e o resto do fundo eleitoral. Um dos financiadores de seu colega de ministério, Ometto também contribuiu com a campanha de Tereza: R$ 50 mil. O CEO da Cosan, Marcos Lutz, também doou para futura ministra da agricultura: R$ 100 mil. O resto dos recursos veio majoritariamente de doadores locais.

Na eleição de 2014, com doações empresariais, ela recebeu R$ 4,298 milhões. Desse total, 92% vieram de um grupo de 44 empresas, das quais nove doaram mais que R$ 100 mil: Iaco Agrícola (R$ 1,025 milhão), Adecoagro (R$ 600 mil, de dois CNPJs diferentes), BTG Pactual (R$ 300 mil), Rodobelo Transportes (R$ 225 mil), Cosan Lubrificantes, Energética Santa Helena (R$ 200 mil cada), Agro Energia Santa Luzia (R$ 165 mil), JBS (R$ 103 mil) e Braskem (R$ 100 mil). À época, ela era filiada ao PSB.

Dez anos antes, em 2004, Tereza concorreu à prefeitura de Terenos, no Mato Grosso do Sul pelo PSDB, e ficou em segundo lugar. Sua campanha naquele ano arrecadou R$ 27 mil, mas não é possível saber que foram seus doadores originais. No site do TSE, consta apenas que os recursos vieram do comitê municipal do partido.

Luiz Henrique Mandetta (DEM) recebeu doações da JBS e da Amil

Anunciado como futuro ministro da Saúde, Mandetta é deputado pelo Mato Grosso do Sul desde 2011. Ele não se candidatou à reeleição em 2018.

Na campanha de 2014, arrecadou R$ 2,114 milhões. Ele próprio contribuiu com R$ 581,5 mil, e seu partido, o DEM, com outros R$ 100 mil. Dezesseis empresas contribuíram com R$ 1,044 milhão. Cinco contribuíram com mais de R$ 100 mil: Digitho Brasil (R$ 319 mil), Buriti Comércio de Carne (R$ 154 mil), GPO – Gestão de Produtos e Obras, Amil e CRBS (R$ 100 mil cada). A JBS contribuiu com R$ 25 mil. Um total de R$ 388 mil foi doado por pessoas físicas, incluindo R$ 100 mil do empresário João Roberto Baird, preso recentemente pela Operação Vostok.

Em 2010, em sua primeira eleição, Mandetta recebeu R$ 1,164 milhão em doações. Um total de R$ 993 mil foi pago por um grupo de 19 empresas, das quais três doaram mais de R$ 100 mil: Bigolin Materiais de Construção (R$ 300 mil), Nautilus Engenharia (R$ 265 mil) e Pactual Construções (R$ 150 mil).

Marcos Pontes sem doações e sem votos

Um dos primeiros a ser anunciado como ministro, o futuro titular do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação tentou ser deputado em 2014, quando era filiado ao PSB. Ao contrário dos colegas, o astronauta não se elegeu.

Enquanto Onyx, Mandetta e Cristina disputaram as eleições de 2014 com orçamentos milionários, Pontes contou com apenas R$ 72 mil em doações, sendo R$ 15 mil de seu próprio bolso. Apenas duas empresas doaram mais do que R$ 10 mil, a Lwarcel Celulose (R$ 15 mil) e a Portally Eventos e Produções (R$ 20 mil).

Editado por: Cristina Tardáguila e Natália Leal

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