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Foto: Organização G-20
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Cúpula do G-20: erros e acertos dos líderes mundiais no encontro em Buenos Aires

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
30.nov.2018 | 15h41 |

Começou nesta sexta-feira o encontro da cúpula do G-20, grupo das 20 maiores economias do mundo, em Buenos Aires. A Lupa, junto com mais de 20 checadores de pelo menos 15 países, estará verificando, ao longo da sexta e do sábado, os discursos dos principais líderes mundiais presentes no evento. Essa reportagem será atualizada ao longo do dia. 

“O banco [Novo Banco de Desenvolvimento] já se mostrou rentável, tendo multiplicado os mais de US$ 4 bilhões que nele [nós, os BRICS,] investimos”
Michel Temer, em discurso na reunião dos BRICS, no dia 30 de novembro de 2018

FALSO

Em 2014, cada um dos países que compõem o BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – se comprometeram a fazer um investimento inicial de US$ 2 bilhões no Novo Banco de Desenvolvimento. O investimento inicial total acordado foi, portanto, de US$ 10 bilhões. Mas, segundo o próprio governo brasileiro, esse valor é repassado à entidade em aportes e, até agora, o total investido pelos países-membros soma US$ 4,473 bilhões, cifra próxima à citada por Temer em Buenos Aires.

Ao afirmar que o banco já se mostrou rentável, como fez na Argentina, o presidente deveria observar a posição financeira atual e pública da instituição. Em setembro de 2018, documentos oficiais mostravam que o banco tinha US$ 10,354 bilhões. Neste total, já estão computados como parte do patrimônio os US$ 10 bilhões que ainda não foram integralmente repassados. Nas contas do próprio banco, a rentabilidade, desde sua criação, seria de 3,54%. Não teria “multiplicado” como disse Temer.


“Até aqui (…) a nossa instituição aprovou o financiamento de projetos que somam quase o dobro daquele capital”
Michel Temer, em discurso na reunião dos BRICS, no dia 30 de novembro de 2018

FALSO

Até o momento, o Novo Banco de Desenvolvimento aprovou o financiamento de 26 projetos nos países membros, que somam US$ 7,082 bilhões – ou seja, menos do que o investimento inicial de US$ 10 bilhões. Os projetos são na área de energia, saneamento, infraestrutura e administração pública.

Dos cinco países membros, o Brasil é o que menos recebeu dinheiro desses projetos: apenas US$ 621 milhões. São US$ 300 milhões para energia renovável em projeto do BNDES, US$ 50 milhões para projetos de saneamento, infraestrutura rodoviária e telecomunicações no interior do Pará, US$ 71 milhões para rodovia no Maranhão, e US$ 200 milhões para redução de emissões de dióxido de carbono em refinarias da Petrobras.

Além dos projetos para o Brasil, o banco emprestou US$ 1,080 bilhão para projetos na África do Sul, US$ 1,168 bilhão para a Rússia, US$ 1,923 bilhão para a China e US$ 2,290 bilhões para a Índia.

Procurada, a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República afirmou que o investimento total aprovado já está em US$ 8,1 bilhões, e reafirmou que o valor investido pelos países é de US$ 4,473 bilhões, e não de US$ 10 bilhões. Porém, assim como os aportes dos governos, o desembolso desses empréstimos é realizado de forma paulatina. Até o fim de 2017, apenas US$ 24 milhões foram, de fato, desembolsados pelo banco para os projetos já aprovados. Logo, não faz sentido comparar o valor dos empréstimos aprovados com o valor dos aportes já realizados pelos BRICS.


“Modernizamos nossa legislação trabalhista (…). Cumpre estarmos especialmente atentos para a questão da mulher neste mundo de intensas transformações”
Michel Temer, presidente do Brasil, em discurso na 1ª sessão plenária da Cúpula do G-20, no dia 30 de novembro de 2018

CONTRADITÓRIO

Temer sancionou a reforma trabalhista em julho de 2017, e as novas regras da CLT passaram a valer em novembro daquele ano. Um dos pontos mais polêmicos diz respeito ao afastamento de funcionárias gestantes de atividades insalubres – ou seja, uma questão diretamente ligada às mulheres.

Antes da reforma, a lei previa que grávidas ou mulheres que estivessem amamentando deveriam se afastar de trabalhos considerados insalubres. Após a reforma, elas só podem fazer isso se apresentarem atestado médico recomendando o afastamento.

Vale lembrar que Temer chegou a editar uma Medida Provisória que impedia que a nova regra entrasse em vigor, mas essa MP “caducou”, ou seja, perdeu a validade sem ser votada no Congresso. Por fim, o presidente ainda teve a oportunidade de vetar o artigo que tratava sobre esse tópico, mas não o fez.

Procurada, a Presidência não se manifestou.


“O satélite geoestacionário está permitindo que nós levemos a banda larga para todo o Brasil”
Michel Temer, presidente do Brasil, em entrevista coletiva na Cúpula do G-20, no dia 30 de novembro de 2018

AINDA É CEDO PARA DIZER

O primeiro e único Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC) – de uso militar e civil e operado inteiramente por brasileiros – entrou em órbita em maio de 2017. O SGDC foi lançado por encomenda da Telebras S.A. e deveria fornecer serviços de comunicação de banda larga a territórios isolados do Brasil.

Mas uma disputa judicial envolvendo a Telebras e a Viasat, empresa americana contratada para instalar os pontos de conexão, impede seu pleno funcionamento. O caso está no Supremo Tribunal Federal – uma empresa brasileira questiona a capacidade da Viasat de operar no Brasil. Enquanto isso, o satélite é usado pelas Forças Armadas. Cerca de um terço de sua capacidade serve ao Exército, garantindo a comunicação dos militares em áreas de fronteira, entre outros serviços.

Procurada, a Presidência não se manifestou.


“No nosso governo [Temer] (…) o desmatamento da Amazônia foi reduzido em 12%”
Michel Temer, presidente do Brasil, em entrevista coletiva na Cúpula do G-20, no dia 30 de novembro de 2018

EXAGERADO

Em 2016, quando Temer assumiu a Presidência, o Prodes, projeto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que reúne informações sobre desmatamento na Amazônia Legal, indicava que a área desmatada era de 7.893 km². Em 2018, essa área é de 7.900 km². Ou seja: não houve redução.

Os relatórios do Prodes são anuais e mostraram uma diminuição de 12% no desmatamento no período entre 2016 e 2017. Mas o último levantamento, divulgado em 23 de novembro, revelou uma retomada no aumento da área desmatada no último ano de Temer, entre 2017 e 2018. Esse relatório não considera o estado do Amapá. Assim sendo, segundo o próprio Prodes, a área desmatada pode ter crescido ainda mais no último ano.

O boletim mais recente do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que data de agosto de 2018, indica, por sua vez, um aumento de 199% na área desmatada na Amazônia Legal em um ano. Eram 182 km² desmatados em agosto de 2017 e 545 km² neste ano.

Procurada, a Presidência não se manifestou.


 

“A proporção de fontes renováveis na matriz energética brasileira já supera os 40%, frente a uma média mundial que não passa de 14%”
Michel Temer, presidente do Brasil, em discurso em plenária da Cúpula do G-20, no dia 1º de dezembro de 2018

VERDADEIRO

De acordo com dados da Empresa de Pesquisa Energética, subordinada ao Ministério de Minas e Energia, a matriz energética brasileira é composta por 43,5% de fontes renováveis. A energia proveniente de lenha e carvão vegetal, hidráulica, derivados de cana e outras renováveis totalizam quase metade da matriz energética do país. De fato, no mundo, apenas 14,1% do consumo de energia é proveniente de fontes renováveis. As fontes não renováveis de energia são as maiores responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa.


“A própria Constituição brasileira determina essa espécie de política pública [de integração com a América Latina]”
Michel Temer, presidente do Brasil, em discurso na segunda sessão plenária da Cúpula do G-20, no dia 30 de novembro de 2018

VERDADEIRO

O parágrafo único do Artigo 4º da Constituição Federal diz o seguinte: “A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações.”


“Primeira Cúpula do G20 na América do Sul. #G20Argentina”
Maurício Macri, em sua conta de Twitter, no dia 30 de novembro de 2018

VERDADEIRO

Esta é, de fato, a primeira vez que uma Cúpula de Líderes do G20 tem sede na América do Sul. A primeira reunião foi realizada em Washington, nos Estados Unidos, em 2008. Em 2009, Londres (Reino Unido) e Pittsburgh (EUA) receberam os encontros. Toronto (Canadá)  e Seúl (Coreia do Sul) foram as sedes de 2010, assim como Cannes (França) em 2011. Em 2012, os líderes se reuniram em Los Cabos, no México, e em 2013, em San Petersburgo, na Rússia. Brisbane (Austrália, 2014), Antalya (Turquia, 2015), Hangzhou (China, 2016) e Hamburgo (Alemanha, 2017) foram as sedes seguintes.

O G20 foi criado em setembro de 1999 em uma reunião de ministros da fazenda do G7 (um grupo ainda mais exclusivo, que é composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido). No início era apenas um foro de ministros da Fazenda e presidentes de Bancos Centrais. A partir de 2008, com a crise financeira internacional, as cúpulas do G-20 ganharam maior proporção, incluindo reuniões de presidentes e chefes de estado e uma agenda temática mais ampla.

Editado por: Natália Leal

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VERDADEIRO
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VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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