A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Cristina Tardáguila, fundadora e diretora da Lupa, recebe o prêmio El Periódico em Madri (Foto: Divulgação)
Cristina Tardáguila, fundadora e diretora da Lupa, recebe o prêmio El Periódico em Madri (Foto: Divulgação)

Lupa vence prêmio de jornalismo na Espanha por trabalho contra desinformação

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
30.nov.2018 | 16h29 |

A Agência Lupa recebeu, na noite da última quinta-feira (29), o prêmio de jornalismo El Periódico, um dos principais da Espanha e que, neste ano, comemora o aniversário de 40 anos da publicação de mesmo nome. Cristina Tardáguila, fundadora e diretora da Lupa, foi quem recebeu o prêmio, em Madri. Ela foi escolhida por um grupo de jurados composto por jornalistas e integrantes de grupos de comunicação espanhóis.

Com o troféu em mãos, Cristina falou sobre a importância do fact-checking e lembrou o trabalho desenvolvido pela Lupa durante as eleições – um dos destaques que levaram à premiação. Também insistiu na necessidade de ser frear o bombardeio de conteúdos falsos e de se formar novas gerações atentas a isso – uma das frentes de trabalho da Lupa, com o projeto LupaEducação. “Cinco repórteres da Lupa e eu estamos na lista pública de mais de 150 jornalistas que vivem sob ameaças em nosso país. Todo dia nos dizem, nas redes sociais, que vão nos pegar um por um e que não conheceremos o próximo presidente. Mas seguiremos, amigos. Seguirei porque respiro jornalismo. Nos meus sonhos, edito textos, faço manchetes e brigo com boatos. Seguirei lutando contra a desinformação, a palavra do ano”, disse ela.

O diretor do El periódico, Enric Hernàndez, salientou que a desinformação é uma ameaça para a democracia e, também, uma prova de que o jornalismo segue sendo indispensável. “É mais importante do que nunca o jornalismo de qualidade, verdadeiro e rigoroso, sem concessões à demagogia populista. Nossa intenção é mostrar aos leitores que a mentira é muito barata para ser fabricada, enquanto buscar a verdade é uma atividade trabalhosa e cara”, disse Hernàndez em seu discurso.

 

Veja o discurso feito por Cristina Tardáguila durante a premiação:

Um prêmio para tocar o céu

Pouquíssimos foram os dias de minha vida em que me senti realmente grande. Sempre fui assim, baixinha. Um metro e meio. Uma das menores da classe. Já sabem como é… Mas hoje sinto que, sem muito esforço, poderia tocar o céu de Madri. E o que me faz grande nesta noite é este prêmio, esta festa. Que emoção e que honra!

Vou contar-lhes brevemente como cheguei aqui e como vejo o jornalismo de onde estou. Sou diretora da Agência Lupa, a primeira empresa do Brasil a se dedicar exclusivamente ao fact-checking, ou seja, à checagem de dados. Comecei em 2015, com três jornalistas e o apoio de um investidor que teve muita coragem. Vieram a crise política e econômica brasileira, o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Donald Trump. As fake news se tornaram mundialmente conhecidas e, hoje, na Lupa, somos 15 pessoas trabalhando dia e noite, vendendo conteúdos checados para jornais, revistas, rádios e sites de circulação nacional.

Em 2017, me dei conta de que, no Brasil, éramos 200 milhões de mentirosos e que alguém precisava montar uma espécie de exército de fact-checkers. Assim nasceu o LupaEducação. Desde então, ensinamos técnicas de verificação a mais de 4 mil pessoas – desde crianças em idade escolar até universitários, passando por empresas de diferentes setores e chegando até a membros de tribunais eleitorais. E foi muito interessante sair do meio jornalístico e comprovar que a checagem de informações é algo que qualquer um pode fazer!

Neste mês de novembro completamos três anos e celebramos o fato de termos sobrevivido às eleições brasileiras de 2018. De agosto a outubro, checamos cerca de 850 frases de 64 políticos e identificamos que mais da metade delas eram falsas. Observamos quase 350 grupos sobre política no WhatsApp – o que equivale a mais de 18 mil pessoas e os quase 800 mil conteúdos que elas compartilharam neste período. Decidimos analisar muito de perto e com especial atenção as imagens, porque nos chamava atenção a má qualidade delas. Das 50 mais compartilhadas, descobrimos que apenas quatro eram verdadeiras. Quatro, entre 50. Isso poderia ser um sinal de que só 8% do que circula pelo WhatsApp no Brasil é verdadeiro.

A luta contra a desinformação é enorme em meu país. Mas outras lutas seguem em paralelo. No Brasil, os diretores dos meios de comunicação, em geral, são homens. Na Lupa, entre 15 empregados, somos 10 mulheres. No Brasil, as redações não costumam ter muitos negros. No nosso escritório, no Rio de Janeiro, são quatro. E mais: cinco repórteres da Lupa e eu estamos na lista pública de mais de 150 jornalistas que vivem sob ameaças em nosso país. Todo dia nos dizem, nas redes sociais, que vão nos pegar um por um e que não conheceremos o próximo presidente.

Mas seguiremos, amigos. Seguirei porque respiro jornalismo. Nos meus sonhos, edito textos, faço manchetes e brigo com boatos. Seguirei lutando contra a desinformação, a palavra do ano, porque tenho uma equipe espetacular que merecia estar aqui nesta noite. A eles, mandou um beijo muito carinhoso.

Seguirei, também, porque tenho o apoio do meu marido, David, e da minha princesa, Clara, de 9 anos. Da minha família espanhola, que está no auditório, e da minha família brasileira, que não pôde viajar até aqui.

Seguirei porque tenho, acima de tudo, a memória do meu pai, que quando era jovem e ainda sonhava em ser engenheiro, foi a uma construção no Nordeste do Brasil para pedir trabalho e escutou do responsável pela obra que fosse para casa, porque ali não tinham nem sequer uma mesa para que ele trabalhasse. Pois o meu querido Bira voltou para casa, construiu uma mesa, voltou à obra com ela na cabeça e disse ao senhor: “Aqui está a mesa. Quando começo?” Porque é assim, estimados amigos, que se empreende em países em desenvolvimento.

Termino agradecendo ao Grupo Zeta por reconhecer a importância do fact-checking, a importância da luta contra a desinformação, por apoiar a uma equipe que tem uma mulher como líder e, claro, pela oportunidade que me deu de me sentir gigante mais uma vez. Talvez eu possa mesmo tocar o céu quando sairmos daqui nesta noite.

Muito obrigada.

 

Editado por: Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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