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Foto: Antônio Cruz, Agência Brasil
Foto: Antônio Cruz, Agência Brasil

As 10 lições que aprendemos checando as eleições de 2018

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
19.dez.2018 | 07h30 |

O artigo a seguir foi originalmente publicado em inglês, no site da International Fact-Checking Network (IFCN). Ele integra uma série de reflexões escritas por checadores profissionais sobre 2018 e 2019 batizada como “The Future of Facts”. Acesse o conjunto de textos aqui.


Há dois meses o Brasil concluiu seu processo eleitoral e, só agora, a poeira tóxica da desinformação está baixando, permitindo que a gente olhe para trás e reflita sobre o que aconteceu. A seguir, listo 10 lições que aprendemos na Agência Lupa nos últimos meses – e que podem ser úteis para fact-checkers em outras partes do mundo.

1) No mundo das notícias falsas, imagens e memes estão na moda

Quem produz notícia falsa no Brasil percebeu que as URLs consomem muitos dados de navegação e precisam de boa conexão de internet para carregar. Imagens e memes falsos são mais fáceis e baratos de fazer e de compartilhar. Mensagens de texto para WhatsApp também se encaixam nessa descrição. Estejam preparados para esse tsunami.

2) Checagens ao vivo são difíceis, mas valem a pena

Debates de TV ainda são muito populares. Organize seu time, seus bancos de dados, sua estratégia digital e cheque o que os políticos dizem em tempo real. Estude a possibilidade de selar parcerias com ONGs especializadas em segurança pública, educação e saúde para que você consiga ser mais rápido e mais preciso no conteúdo que entrega a seus leitores e seguidores. Considere a possibilidade de convidar um influenciador digital para acompanhar seu trabalho e viver essa experiência por um dia.

3) Nós conseguimos mudar os discursos dos políticos

Pelos menos três candidatos à Presidência da República se corrigiram depois que a Agência Lupa os checou. Jair Bolsonaro (PSL), Henrique Meirelles (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL) ajustaram números errados que estavam usando em debates e entrevistas depois de receberem classificações negativas de nosso time (e nós pedimos pizza para comemorar o fato de que nossa missão estava sendo cumprida!). Um exemplo é o que Bolsonaro dizia sobre audiência de custódia antes e depois de ser checado pela Lupa. Outro é Boulos e seu dado insustentável sobre déficit habitacional. E ainda teve Meirelles que recebeu um exagerado ao falar sobre o tempo de abertura de empresas no Brasil.

4) Eles têm medo de nós

Isso é engraçado. Ao menos três políticos — Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSDB) e Kátia Abreu (PDT) — disseram em entrevistas que seriam cuidadosos com suas afirmações porque sabiam que estavam sendo checados pela Lupa e não queriam receber etiquetas de “falso” no dia seguinte.

5) Nós poderíamos ter feito (muito) mais

Campanhas eleitorais são períodos de muito trabalho para os fact-checkers. Mas, apesar de termos nos dedicado ao máximo, nós poderíamos ter feito mais. Muito mais. Pense sobre todas as notícias falsas que não tivemos tempo de verificar. Sobre todos os formatos que não tivemos tempo de testar nas redes sociais. É claro que fizemos bastante. Mas os fact-checkers ainda estão passos atrás na luta contra a desinformação. Nunca à frente.

6) Haters existem. Esteja preparado

Não importa o que você escreva ou diga. Sempre haverá alguém disposto a odiá-lo, a odiar seu time, seu trabalho, sua empresa, sua marca. Sempre haverá alguém disposto a ser agressivo e ameaçar aquilo (e aqueles) que você ama. Esteja pronto para o discurso do ódio.

Primeiro converse sobre isso com a sua equipe. Debata questões difíceis como: os checadores podem ter opinião pública nas redes sociais? Crie um protocolo para sua empresa: você vai responder os haters? Como? Depois, pense: para quem você vai telefonar se for ameaçado de morte? Por favor não pense que isso só acontece com os outros! Se você for chefe, esteja pronto para as diferentes reações do seu time. E, acima de tudo, seja humano.

7) Seja super, ultra, mega transparente sobre como você faz seu trabalho

Você já pensou em ter um ombudsman? Na Agência Lupa, nós tivemos a Fernanda da Escóssia por 10 semanas e foi muito inspirador. Ela foi responsável por escrever duas colunas semanais – uma pública e uma privada – apontando nossas falhas e nossos acertos. Seguindo as críticas dela, fizemos correções e investimos em pautas que não tínhamos conseguido ver discutindo apenas na nossa redação.

8) Quando o jornalismo e os fatos estão sob ataque, a união é a saída

Não deve haver concorrência quando os jornalistas e o jornalismo estão sob forte ataque, quando a liberdade de expressão está sendo bombardeada. As empresas de jornalismo devem colaborar umas com as outras com mais frequência na luta contra a desinformação. Nos dias 27 e 28 de outubro, durante o segundo turno da disputa eleitoral, oito iniciativas de checagem atuaram juntas e verificaram 50 informações falsas em 48 horas. Uma experiência incrível construída em menos de seis dias, com o apoio de um arquivo aberto na nuvem do Google e de dois grupos de WhatsApp.

9) Sinta a solidão do front de batalha

Não conte com os poderosos para apoiar publicamente o fact-checking ou os fact-checkers nos períodos eleitorais. Menos ainda se você estiver num país polarizado. Em uma campanha, nem os grandes meios de comunicação nem os partidos políticos nem as autoridades eleitorais se sentirão confortáveis para abraçar a checagem de fatos. De agosto a outubro de 2018, foi muito fácil detectar os brasileiros que eram contra o fact-checking (por odiar fatos) e aqueles que estavam solenemente calados. Recorra ao e preze pelo apoio de outros checadores no seu país e na rede internacional.

10) As plataformas sempre podem fazer mais – inclusive falar mais

O Facebook criou seu Projeto de Verificação de Notícias, que ainda está em desenvolvimento. O sistema poderia ser maior e mais transparente, mas está funcionando. O Google apoia iniciativas de news literacy. Poderia ir além – é claro. E espero que vá. O Twitter não dialoga tanto com os checadores no Brasil, mas é a plataforma mais usada para ações em tempo real – e funciona bem.

Mas e o WhatsApp? Nas eleições brasileiras, eles se mantiveram distantes, apesar das diversas tentativas de contatá-los. Num artigo de opinião no The New York Times, sugerimos à empresa três medidas temporárias para reduzir a disseminação de notícias falsas. Por três meses, no entanto, o aplicativo foi usado como plataforma de desinformação e seus responsáveis se mantiveram em silêncio – um silêncio que chegou a doer.

Editado por: Natália Leal

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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