A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Myths or Facts Concept
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2018: o ano em que a checagem de fatos do Brasil amadureceu à força

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
31.dez.2018 | 16h00 |

No segundo semestre de 2015, quando abri a Lupa, a primeira agência de notícias do Brasil a trabalhar única e exclusivamente com fact-checking, teve gente que fez nariz torto e jogou praga: “Isso não vai dar certo. Fact-checking é uma bobagem”. Não sabiam que Facebook, Twitter, Youtube, Google e sobretudo WhatsApp ganhariam a força que têm hoje e que passariam a ser grandes fontes de (des)informação pública. Também não sabiam que apareceria no cenário mundial a figura de Donald Trump, catapultando o termo “fake news” a enésima potência e colocando a checagem de fatos de uma vez por todas no centro do debate político mundial.

No segundo semestre de 2015, quando pedi a três corajosos jornalistas que deixassem seus trabalhos e começassem a checar comigo declarações de poderosos, sempre com base no código de ética da então desconhecida International Fact-checking Network (IFCN), teve gente que riu: “Fast o quê? Fast checking como em fast food?”. Não sabiam que, menos de três anos mais tarde, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) recorreria a esses mesmos profissionais e a essa mesma metodologia – já consolidadíssima – para “derrubar” vídeos e postagens que colocariam em xeque a confiabilidade das urnas eletrônicas e, por consequência, a democracia do Brasil.

No segundo semestre de 2015, quando deixei de lado minha vida de repórter/editora e assumi a função de empresária/gestora em um Brasil que parecia se afogar numa ainda emergente crise econômica e política, todas as redações de jornal, revista e site reconheciam empiricamente que checar a veracidade das declarações colhidas por seus repórteres era algo vital, mas poucas efetivamente o faziam. Agora, no fim de 2018, o Brasil conta com ao menos oito projetos ativos de verificação. A checagem tornou-se praticamente obrigatória nas redações e qualquer bom repórter deve ser capaz de realizar uma verificação antes de entregar seu texto para edição. Por conta disso tudo, digo que 2018 foi o ano em que o fact-checking brasileiro amadureceu à força.

Equivocam-se aqueles (são muitos) que pensam que checagem de fatos é algo recente, algo ligado ao surgimento das redes sociais ou mesmo da internet. Não. Não é. O Ad Police, do incrível Brooks Jackson, foi ao ar na CNN de Washington quando George Bush (o pai) ainda tentava a reeleição. Lá atrás. Nos anos 1990. O Politifact.com, do igualmente incrível Bill Adair, ganhou o Pulitzer Prize em 2009 pelo trabalho feito na campanha presidencial americana do ano anterior – quando Barack Obama entendeu que Twitter e política eram uma dupla infalível. Laura Zommer, do Chequedo argentino, vem brilhando há quase dez anos num país polarizado e em crise. Em (quase) tudo parecido com o nosso. Os três são provas irrefutáveis de que não é a checagem de fatos que é nova – é o brasileiro que demorou anos para descobri-la. E, quando o fez, teve que mergulhar de cabeça. Alguns amando-a. Outros odiando-a.

Neste 2018, os checadores precisaram não só construir modelos de negócios capazes de pagar suas contas (e parecem estar conseguindo, ufa!) como também negociar com gigantes como Facebook, Twitter e Google. Selaram com eles parcerias para realização de projetos de educação (aqui e aqui, por exempl0), de automação e de checagem em si. De pequenas figuras de atuação remota no mundo do jornalismo, nós, os fact-checkers, passamos a ser os soldados na linha de frente da batalha contra as notícias falsas. Fomos os primeiros a adquirir o hábito diário de vasculhar as redes sociais e os aplicativos de mensagens, navegando naquele mar infinito de informações sem pé nem cabeça, escrever histórias e avisar aos gigantes do Vale do Silício e aos cidadãos plugados em celulares o que era verdadeiro e o que era falso. Seguimos fazendo isso todos os dias. Não é pouco. Pense bem.

Por conta disso, 2018 foi o ano em que os checadores passaram a ser também detestados por aqueles que detestam os fatos. Sim, esse tipo de gente existe. E esse ódio levou os fact-checkers brasileiros a serem vítimas de assédio e a receberem ameaças reais de morte. “Você não vai ver o próximo presidente do Brasil”, me escreveu certa vez uma conta de Twitter identificada com uma imagem de estátua. E revelo: 2018 foi o ano em que chorei (choramos) de medo, de raiva e – algumas vezes – de solidão. Todos querem informação de qualidade. Poucos querem ajudar a checar. Todos querem a verdade para ontem. Poucos querem pagar por ela.

Em busca da notícia falsa, muitos dos checadores brasileiros viraram noites e perderam eventos familiares. Deixaram filhos com vizinhos, avós e amigos. Esqueceram-se da casa e do próprio corpo. Enxaqueca, gastrite, pânico. Teve de tudo.

Mas 2018 foi também o ano em que vimos nosso trabalho surtir efeito. E que incrível tem sido isso! No primeiro turno das eleições, a Agência Lupa acompanhou 64 políticos (14 candidatos a presidência, 14 candidatos a vice, além de 12 candidatos de RJ, 13 de SP e 11 do Distrito Federal). A equipe cresceu de oito para 15 pessoas e, só no primeiro turno, conseguimos verificar cerca de 850 conteúdos – a maioria deles com algum grau de distorção. E como comemoramos ao ver que frases que continham erros graves no começo da disputa passaram a ser corrigidas e ganharam etiquetas de “verdadeiro”! Nossa! Muito! Lutamos contra dados errados sobre audiências de custódia, déficit habitacional e tempo de abertura de empresas, por exemplo. E deu certo. Os políticos se corrigiram. Nossos dados foram parar na boca deles.

Isso não quer dizer, no entanto, que não haja desafios (enormes) no horizonte. Continuamos com dificuldades para obtenção de dados precisos e essenciais para nosso trabalho. Passou da hora de os gestores públicos entenderem que os dados de seus governos não são deles, mas do povo. E que eles precisam respeitar as leis de acesso à informação, bem como manter atualizados os portais de transparência.

Nós, os checadores, também continuamos trabalhando com equipes reduzidas. Se somarmos todos no Brasil, não somos mais de 50 na ativa. Deveríamos ser muito mais. No front da guerra contra a desinformação, faz falta mais profissionais! Então, qual a saída? Continuar trabalhando. E é isso que a equipe da Agência Lupa vai fazer. É nisso em que acreditamos. Contamos com sua leitura em 2019.

*Este artigo foi publicado pelo site da revista Época em 31 de dezembro de 2018.

Editado por: Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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