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Foto: Marcelo Camargo, Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo, Agência Brasil

Desemprego, referendo de 2005 e custo de campanha: erros e acertos de Bolsonaro

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
02.jan.2019 | 18h01 |

Eleito com quase 58 milhões de votos, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) tomou posse em Brasília, na última terça-feira (1º). Ele discursou na Câmara dos Deputados e no parlatório do Palácio do Planalto. Conhecido por falas polêmicas, Bolsonaro começou sua trajetória no Exército e foi deputado federal de 1991 a 2018. A Lupa checou algumas das frases ditas pelo novo presidente nos discursos que fez em seu primeiro dia como líder do país. Veja a seguir o resultado:

“Temos o grande desafio de enfrentar os efeitos (…) do desemprego recorde”
Presidente Jair Bolsonaro (PSL), em discurso feito durante sua posse, no dia 1º de janeiro de 2019

FALSO

A taxa de desocupação trimestral mais recente divulgada pelo IBGE é de 11,9% e se refere ao terceiro trimestre de 2018. Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral (Pnadc/T), esse índice não pode ser considerado um “recorde” negativo. Analisando a série histórica da PnadC/T, iniciada em 2012, a mais alta taxa de desemprego aparece no 1º trimestre de 2017, quando o índice chegou a 13,7% – o equivalente a 14,2 milhões de desocupados. Naquele momento, o presidente do Brasil era Michel Temer (MDB). Procurado, Bolsonaro não respondeu.


“[No] Referendo de 2005, quando [a população] optou, nas urnas, pelo direito à legítima defesa”
Presidente Jair Bolsonaro (PSL), no discurso de posse que fez no Congresso no dia 1º de janeiro de 2019

FALSO

O referendo de 2005 não se referiu à legítima defesa. A discussão era se o artigo 35 do Estatuto do Desarmamento, em vigor desde dezembro de 2003, deveria ser alterado ou não – proibindo o comércio de armas de fogo e munições no país. Os eleitores foram questionados da seguinte forma: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. A maioria da população (63%) respondeu “não”. Assim sendo, a comercialização desses produtos foi mantida, seguindo as regras estipuladas pelo estatuto em vigor. Já a legítima defesa – entendida como o uso moderado dos “meios necessários” para repelir injusta agressão a si ou a terceiros – é garantida pelo artigo 25 do Código Penal e nunca foi objeto de referendo no Brasil. Procurado, Bolsonaro não respondeu.


“Reafirmo meu compromisso de construir uma sociedade sem discriminação ou divisão”
Presidente Jair Bolsonaro (PSL), em discurso feito durante sua posse, no dia 1º de janeiro de 2019

DE OLHO

Apesar de, no programa de governo que registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), defender que os brasileiros sejam livres para fazer suas “escolhas afetivas, políticas, econômicas ou espirituais”, Bolsonaro deu, ao longo de sua vida pública, diversas declarações que foram interpretadas como discriminatórias.

Em 2010, em entrevista à TV Câmara, por exemplo, falou sobre os homossexuais e disse o seguinte: “o filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele. Tá certo? Já ouvi de alguns aqui: ‘olha, ainda bem que levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem’”.

Em 2011, no programa CQC, voltou a abordar esse assunto. Disse que ter um filho homossexual nem passava por sua cabeça, porque seus filhos “tiveram uma boa educação.” Na mesma ocasião, ao responder à cantora Preta Gil sobre o que faria se um filho se apaixonasse por uma negra, afirmou que não discutiria “promiscuidade” e que seus filhos “foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu”. Por conta disso, o presidente respondeu a um processo no Supremo Tribunal Federal, que acabou arquivado. À época, Bolsonaro disse que “entendeu errado” a pergunta de Preta Gil e achou que era sobre gays e que sua fala foi editada pela equipe do programa.  

Ao jornal Zero Hora, em 2014, Bolsonaro disse que empresários preferiam não empregar mulheres porque elas engravidam – ideia que reafirmou à apresentadora Luciana Gimenez, em 2016, dizendo, textualmente, que “não empregaria [homens e mulheres] com o mesmo salário. Mas tem muita mulher que é competente”. À Lupa, em abril de 2018, o presidente disse que “buscava explicar sua posição sobre o tema” e que “Se houve um mal entendido em 2016, paciência.” Disse, ainda, que não tinha “opinião nenhuma” sobre a diferença salarial entre homens e mulheres no país.

Em 2017, em palestra no Rio de Janeiro, afirmou que, entre seus cinco filhos, “foram quatro homens. A quinta, eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”. Na mesma ocasião, comentou uma visita a um quilombo. “O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais”. A Procuradoria-Geral da República apresentou denúncia – rejeitada pelo STF – contra o presidente por racismo. À época, a defesa de Bolsonaro disse que a acusação era “vazia e sem nenhum fundamento”.


Eu fui eleito com a campanha mais barata da história”
Presidente Jair Bolsonaro (PSL), em discurso feito durante sua posse, no dia 1º de janeiro de 2019

VERDADEIRO

Segundo a prestação de contas feita ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Bolsonaro gastou em sua campanha presidencial R$ 2,4 milhões, de um total de R$ 4,3 milhões arrecadados. Desde as eleições de 1994, quando o TSE passou a auditar esses valores, é a campanha vencedora mais barata. Antes disso, a campanha mais barata tinha sido a de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2002, que custou R$ 21 milhões – ou R$ 53,6 milhões, em valores corrigidos pela inflação. Vale pontuar que a eleição de 2018 foi a primeira sem doações empresariais desde 1994. Veja o valor das campanhas presidenciais vencedoras nos últimos 24 anos.

Editado por: Natália Leal e Cristina Tardáguila

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VERDADEIRO
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AINDA É CEDO PARA DIZER
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EXAGERADO
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CONTRADITÓRIO
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SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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