A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Carlos Bolsonardo, Ermesto Araújo e a sátira levada a sério virando fake news

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.jan.2019 | 15h00 |

O tuíte da última quinta-feira (17) era uma afronta: “Lembrem-se! O PT roubou mais. Nós estamos aqui faz 17 dias, temos que roubar por mais 12 anos e 337 dias para alguém reclamar!”. Quem navega pelas redes sociais com sangue nos olhos e fogo nas ventas nem parou para respirar. Sentiu o soco no estômago e partiu para a revanche virtual. O vereador e filho do presidente, Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), havia passado da conta. “Ser ladrão tá no sangue! Filho de corrupto, corrupto é!”, disparou um eleitor esquentado no Facebook. “Confissões?”, questionou outro, levantando suspeitas sobre a idoneidade do político.

Fato é que, em cerca de 15 horas, a postagem havia sido retuitada mais de 2,3 mil vezes e agregava mais de 1,4 mil comentários – a maioria deles agressiva. Uma demonstração de que o ódio cega. A conta que emitiu o tuíte não era, no entanto, a de Carlos Bolsonaro, o vereador. Mas a de Carlos Bolsonardo – com um “D”, bem ali no meio. Tratava-se de um perfil satírico que, para alertar o mundo sobre essa sua condição, havia inclusive alterado de forma brusca a fotografia do político, mexendo nos seus olhos e no seu nariz. Entortando tudo, desajeitando tudo. Mas ninguém – ninguém – notou.

Dez dias antes, em 7 de janeiro, o ódio virtual tinha se voltado contra Ernesto Araújo, atual ministro das Relações Exteriores. Novato no Twitter, o chanceler teria postado o seguinte comentário: “Não é hora de combater a fome, a miséria, muito menos o analfabetismo. É hora de combater o PT e o comunismo. Vamos juntos!”. As redes não toleraram: “A loucura vai do presidente aos ministros. É uma vergonha esse Twitter do Ministro Ernesto Araújo!”, escreveu uma senhora. “Tem espécie pior que esse imbecil?”, atacou outra.

E ninguém percebeu que o perfil usado para fazer tal postagem era “@ermestofaraujo”, com a letra “M” no lugar do “N”. Também não notou que, em vez do símbolo de conta verificada, havia uma espécie de furacão azul ao lado do sobrenome do ministro. E mais: não se deu ao trabalho de checar a descrição do perfil remetente daquela frase – que é de todo enfática: “4chan-celer do Brasil. Relações Exteriores sem viés ideológico. Conta satírica. Não-oficial. Repito: conta satírica, não-oficial”. Vou repetir: o ódio cega, Brasil. Depois desse episódio, a conta trocou de nome. Virou “Ernesto Sensato”.

Para não dizer que esse fenômeno acomete apenas um lado do espectro político brasileiro, deixo aqui mais um exemplo de “brincadeiras” que foram postadas em 2019 no Twitter e que acabam sendo tratadas como verdades absolutas por seres humanos desatentos (ou mal intencionados mesmo) e ganharam viés de notícia falsa – obrigando os fact-checkers a agir.

Na última semana, a senadora e presidente do PT, Gleisi Hoffmann, foi atacada por ter supostamente sugerido que as residências contrárias ao decreto sobre posse de armas – aprovado no último dia 15 pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) – pendurasse uma faixa bem grande com os dizeres: “Residência livre de armas”. Ganhou de alguns a hashtag #MulherBabaca.

Tratava-se, porém, de uma montagem usando o perfil da parlamentar. Algo que começara como uma piada, mas que em instantes passou a ser considerada como real e que acabou inclusive o partido a lançar uma nota oficial sobre o assunto.

Ao que parece, 2019 vai ser o ano de repetir: o ódio cega. É preciso redobrar a atenção.

Leia nos links a seguir as checagens feitas pela Agência Lupa sobre Bolsonardo, Ermesto e Gleisi.

Editado por: Natália Leal

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo