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Foto: Marcello Casal Jr., Agência Brasil
Foto: Marcello Casal Jr., Agência Brasil

Ministro da Educação não errou apenas frase de Cazuza, mas também relação professor-aluno nas universidades públicas

Repórter | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
06.fev.2019 | 07h30 |

O ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, falou recentemente à revista Veja. Na entrevista, disse que as universidades representam uma elite intelectual e que uma solução para financiar o ensino superior seria a cobrança de mensalidades de acordo com a renda familiar dos estudantes. Vélez Rodríguez também defendeu mais investimentos do governo federal no ensino básico. “O brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola”. A Lupa checou algumas das falas do ministro. Confira, a seguir, o resultado:

“Liberdade não é o que pregava Cazuza, que dizia que liberdade é passar a mão no guarda”
Ricardo Vélez Rodríguez, ministro da Educação, em entrevista à revista Veja no dia 1º de fevereiro

FALSO

O cantor e compositor Cazuza (1958-1990) não é o autor da frase citada pelo ministro. A mãe do artista, Lucinha Araújo, fez uma carta aberta a Vélez Rodríguez contestando a afirmação. “Considero inadmissível uma pessoa, ocupando o cargo que ocupa, não ter a preocupação de, sem compromisso com a verdade, citar uma pessoa pública”, escreveu.

A frase tem autoria anônima e foi reproduzida pelo grupo humorístico Casseta e Planeta, nos anos 1980. O texto original, que dizia “Liberdade é passar a mão na bunda do guarda”, estampou uma camiseta vendida pela revista Casseta Popular.

Procurada, a assessoria do ministro não respondeu. No Twitter, o ministro postou um pedido de desculpas.


“A relação entre professor e aluno nas faculdades públicas [brasileiras], por exemplo, é de um para sete, um para oito”
Ricardo Vélez Rodríguez, ministro da Educação, em entrevista à revista Veja no dia 1º de fevereiro

EXAGERADO

De acordo com o Censo da Educação Superior 2016, versão mais recente do levantamento produzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), havia, naquele ano, um professor para cada 11,73 alunos nas universidades públicas brasileiras. Ou seja, o número de professores é menor e o de alunos, maior do que o insinuado por Vélez Rodríguez.

Em 2016, o Brasil tinha 1.990.078 estudantes matriculados em universidades públicas, centros universitários, faculdades, Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs) e Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets). O total de professores com especialização, mestrado ou doutorado no mesmo ano era de 169.544.

Procurada, a assessoria do ministro não respondeu.


“Em nenhum país a universidade chega a todos”
Ricardo Vélez Rodríguez, ministro da Educação, em entrevista à revista Veja no dia 1º de fevereiro

VERDADEIRO, MAS

Um levantamento feito pelo projeto Our World in Data (Nosso Mundo em Dados, em português) mostra que, de fato, nenhum país tinha 100% das pessoas com formação universitária em 2010. Mas o índice brasileiro estava entre os mais baixos do ranking. Apenas 5,63% da população brasileira tinha nível superior de instrução naquele ano.

Na América do Sul, o número era inferior aos de Colômbia (18,55%), Peru (12,27%), Bolívia (8,43%) e Chile (5,92%). As taxas mais altas foram registradas na Coreia do Sul (30,04%), na Irlanda (26,8%) e nos Estados Unidos (26,76%). A análise baseia-se em dados do Banco Mundial.

Dados mais recentes compilados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que incluem seus integrantes e outros países, também indicam que o Brasil tem um dos percentuais mais baixos do mundo de pessoas com nível superior. Em 2015, só 16,6% da população de 25 a 34 anos tinha terceiro grau completo.

No levantamento da OCDE, o Brasil só superou Indonésia (16,1%) e África do Sul (6%), ficando atrás de outros 41 países que tiveram resultado melhor. Na média geral entre os países analisados pela organização, 44,47% da população em idade universitária conclui o ensino superior. A primeira colocada é a Coreia do Sul, com 69,75%.


“[Na Colômbia], paga-se [a universidade] de acordo com a renda”
Ricardo Vélez Rodríguez, ministro da Educação, em entrevista à revista Veja no dia 1º de fevereiro

VERDADEIRO

Os alunos de universidades públicas colombianas têm que pagar pela matrícula para estudar. Isso costuma ocorrer a cada semestre e o valor é calculado de acordo com a situação econômica de cada família e, às vezes, com o curso. Não há mensalidades.

Editado por: Natália Leal e Cristina Tardáguila

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VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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