Pinterest oculta busca por ‘vacina’ e ‘cura do câncer’ – mas só em inglês
Farto de ser usado como plataforma para distribuição de informações falsas relacionadas à saúde, o Pinterest tomou uma decisão ousada que surpreendeu até mesmo os fact-checkers profissionais. Hoje, quem procurar na rede social das imagens e fotos as palavras “vaccine” ou “cancer cure” (vacina ou cura do câncer, em inglês), por exemplo, receberá uma mensagem de erro: “Não foi possível encontrar pins para esta pesquisa”. Entre exibir uma lista de resultados ampla e caótica, que misturava dados corretos com informações absurdas, e não mostrar absolutamente nada – apenas uma página em branco, a plataforma acabou escolhendo a segunda opção. A medida, no entanto, ainda não está ativa nem em português nem em espanhol.

“Nós somos um lugar onde as pessoas vão para buscar inspiração. E não há nada de inspiracional em conteúdos que podem causar dano [à saúde]”, disse Ifeoma Ozoma, gerente de políticas públicas e impacto social do Pinterest, em entrevista ao jornal The Guardian. “Entendemos que não somos a plataforma para isso.”
Segundo Ozoma, a ideia é fazer com que a rede social caminhe para ser tecnicamente capaz de mostrar apenas resultados cientificamente corretos e seguros. Para tanto, a plataforma trabalha com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e com o Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC). Mas até que isso esteja ativo e tenha sido testado, diz ela, é “preferível” que a busca por termos como “vaccine” e “cancer cure” não mostre nenhum resultado.
Quem acompanha a luta contra desinformação lembra que, em fevereiro de 2016, a plataforma foi altamente criticada por conta da quantidade de pins (postagens) de má qualidade que comportava. Na época, pesquisadores da Virginia CommonWealth University fizeram um levantamento e detectaram que 75% dos conteúdos relacionados à vacinação eram negativos ou contrários à prática, algo questionado pelas autoridades médicas. E, naquele ano, o Pinterest já era um gigante. Tinha cerca de 100 milhões de usuários cadastrados (hoje tem mais de 250 milhões) e não parecia lá muito preocupado com o conteúdo trocado em sua rede.
Mas a coisa mudou. A plataforma deu ouvidos à crítica. Atualizou seus termos de uso e incluiu na lista de motivos para banimento um aviso claro: “O Pinterest proíbe coisas como a promoção de falsas curas para doenças crônicas ou terminais e conselhos antivacinação. Por isso, não é permitido salvar conteúdo que inclua conselhos que possam ter efeitos imediatos e prejudiciais sobre a saúde de alguém ou sobre a segurança pública”.
A medida ganhou os meios de comunicação em língua inglesa nos últimos dias. O Wall Street Journal também escreveu sobre a medida (em sua versão paga, fechada a assinantes) – e a comparação com os esforços feitos por outras redes sociais pareceu inevitável. Seria essa uma solução para impedir o avanço de informações falsas que realmente podem matar?
De acordo com dados levantados pela comScore, em maio do ano passado, o número de usuários ativos do Pinterest no Brasil chegou a 31 milhões (tendo dobrado em 12 meses), e 6 milhões de pins são salvos na rede todos os dias. Na manhã desta segunda-feira (25), entrei na rede e fiz algumas buscas, na esperança de ver o bloqueio de informações falsas funcionando em português. Ao procurar “vacina”, encontrei dezenas de calendários de vacinação infantil e ofertas de lindas cadernetas de vacinação para bebês – verdadeiras pérolas do artesanato nacional. Mas também encontrei – bem rankeadas – postagens do tipo “vacina causa câncer e diabetes” e uma foto das vacinas de febre amarela com a etiqueta “veneno mortal” em cima. Ambas feitas pelo usuário Evangelistas do Apocalipse. Veja a seguir:

Mas o que me preocupou mesmo foi o resultado para a busca “cura do câncer”. Cenoura, graviola, “ultrassom que destrói tumores”, médico milagroso que “já curou mais de 45 mil pessoas”, semente que acaba com as células cancerígenas e até mesmo uma foto do presidente Jair Bolsonaro. Fiquei apreensiva quanto à efetividade e as consequências do que se vê e se lê por ali.

Fiz, então, buscas em espanhol – e constatei que o mecanismo que correu o mundo anglo saxão na semana passada parece ter se restringido a ele. Ao digitar “vacuna” no Pinterest, vi posts do usuário La verdad nos librará (A verdade nos libertará) informando que “a vacina contra a gripe é uma grande fraude”, bem como um “alerta” do site Despertares.org para o “fato” de que “as vacinas são armas biológicas”. Nesta última, o criador incluiu o rosto de Bill Gates, o criador da Microsoft. Era seu jeito de tentar dar mais credibilidade a uma informação de péssima qualidade.

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