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Foto: Universal, Divulgação
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Green Book: o que é fato e o que é boato no filme vencedor do Oscar 2019

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
25.fev.2019 | 20h53 |

‘Green Book: o guia’ venceu três categorias do Oscar 2019, entre elas o principal prêmio da noite, de melhor filme. Baseado em fatos reais, o filme conta a história de uma viagem feita pelo pianista de jazz Don Shirley e seu motorista e guarda-costas Tony “Lip” Vallelonga em 1962. Lip conduz Shirley, que era negro, em uma turnê pelo Sul dos Estados Unidos durante a vigência da segregação racial.

O Green Book, que realmente existiu, se chamava The Negro Motorist Green-Book e foi publicado até 1967, era um livro que indicava locais onde os negros eram recebidos e atendidos. À época, as leis de separação racial permitiam que muitos estabelecimentos comerciais se negassem a prestar serviços à população negra.

O filme, no entanto, comete imprecisões históricas. A plataforma de checagem americana PolitiFact identificou algumas delas. Veja o resultado:

No filme: Don Shirley e Tony Lip se tornam amigos íntimos

Na realidade: Não há evidência de que eles tenham tido uma amizade duradoura

Gravações de Shirley confirmam que ele considerava Tony mais do que um mero motorista. “Tony e eu nunca tivemos uma relação de empregado-empregador, a gente não tinha tempo para esse tipo de besteira. Minha vida estava nas mãos desse homem. Então, passamos a ser amigáveis um com o outro. Eu ensinei inglês para ele”, afirmou Shirley ao fotógrafo Josef Astor no documentário Lost Bohemia.

Shirley aparece no filme ensinando Tony a pronunciar corretamente as palavras. No início, o motorista resiste, mas acaba até recitando trava-línguas enquanto os dois viajam. Shirley também ajuda Tony com cartas que ele escrevia para a esposa. Ele chegou a ditar algumas delas, mas o filme mostra Tony “pegando o jeito”. As que são mostradas no filme foram adaptadas de cartas que a família do motorista guardou.

A disposição de Shirley para passar seu conhecimento adiante é fiel à realidade, segundo Astor. E não há dúvidas de que os dois estivessem à vontade um com o outro durante a viagem, de acordo com Michael Kappeyne, aluno e amigo de Shirley.

No entanto, a família do pianista alega que a amizade entre ele e o motorista não foi duradoura. Maurice, irmão de Shirley, declarou ao site americano Shadow and Act: “Você me perguntou que tipo de relacionamento ele (Shirley) teve com o Tony? Ele demitiu o Tony! O que é coerente com todas as outras demissões de motoristas que ele teve ao longo da vida.”

Os motivos da demissão de Tony são fiéis aos retratados no filme. “Ele não abria a porta do carro, não ajudava a carregar malas, ele tirava o boné (de motorista) quando Donald saía do carro e várias vezes Donald o encontrava sem o boné e o confrontava”, disse Maurice.  


No filme: as dicas do Green Book levam os personagens a lugares desagradáveis

Na realidade: os lugares listados no Negro Motorist Green-Book eram de um padrão bem melhor do que o retratado no filme

Green Book pode até ser o nome do filme, mas o livro real não ganha muito destaque. No filme, um executivo da gravadora de Shirley entrega o guia a Tony e diz: “ Você vai precisar disso. É o livro sobre o qual eu falei. Às vezes, vocês vão ficar no mesmo hotel. Mas, às vezes, não.”

O ‘Negro Motorist Green Book’ foi um popular guia de viagens voltado ao público negro nos Estados Unidos, publicado entre os anos de 1936 e 1967. Victor Hugo Green, seu criador, era um carteiro negro que vivia no Harlem. Seu primeiro guia cobria, principalmente, a área metropolitana de Nova York. Mas o Green Book cresceu até cobrir todos os 50 estados, além do México e das Bermudas.

No filme, o guia parece desencaminhar os protagonistas. Os dois hotéis em que Shirley se hospeda são retratados como muquifos, longe do que o famoso e exigente músico teria escolhido. Mas as ofertas do livro eram muito mais generosas e sofisticadas do que as que o filme mostra

“Tinha tudo que você podia querer ou precisar no Green Book”, disse Candacy Taylor, autora do livro Overground Railroad, que ainda será lançado e fala sobre o guia. “Não era um guia típico de viagem apenas com opções de hospedagem e comida. Tinha lojas de produtos cosméticos, hospitais, farmácias, boates, postos de gasolina, armarinhos.”  

Taylor contou, ainda, que a maioria da população negra usava o livro, que chegou a ter uma circulação de cerca de 2 milhões de exemplares em 1962. Mas, no filme, Shirley não folheia o guia nenhuma vez – apenas Tony busca um lugar em determinado momento.

Além disso, Kappeyne ressaltou que o artista não lidava com detalhes da sua viagem – a gravadora e Tony que se ocupavam disso.


No filme: Shirley estava afastado de seu único irmão

Na realidade: Ele tinha três irmãos e conversava com eles na época da viagem

Shirley nasceu em Pensacola, filho de um casal de jamaicanos ricos, e cresceu em um “ambiente familiar”, segundo Kappeyne. Seu pai era um pastor episcopal que tinha sua própria igreja. Sua mãe, professora, teve papel fundamental na formação de Shirley como músico. Mas ela morreu quando ele tinha nove anos.

O filme mostra que o pianista tinha apenas um irmão distante, mas ele tinha três irmãos. “Eu tenho um irmão em algum lugar” diz Shirley em uma das cenas de  Green Book. “A gente costumava se encontrar de vez em quando, mas ficou cada vez mais difícil de manter contato. Essa é a praga de ser um músico – você está sempre na estrada”.

Mais uma vez Maurice, o irmão de Shirley desmente o filme: “Àquela altura ele tinha três irmãos vivos com quem ele mantinha contato frequente,” disse Maurice ao Shadow and Act. “Não tinha um mês em que Donald não me ligasse para conversar.”

Shirley se casou uma vez, mas acabou se divorciando. Segundo o próprio, em entrevista a Astor, ele não conseguia conciliar os papéis de marido e pianista.

O co-roteirista e diretor de Green Book, Peter Farrelly, falou à Newsweek que ele tinha a impressão de que não tinham sobrado muitos parentes vivos de Shirley. Ele admitiu que, neste ponto, a equipe de roteiristas cometeu um erro.


No filme: Os personagens dirigem por uma cidade onde há toque de recolher para negros depois do pôr-do-sol no Mississipi

Na realidade: Os toques de recolher eram raros no Sul do país, mas comuns em outras partes

“Não somos daqui,” diz Tony depois de ser parado em um acostamento por um policial em uma cena.

“Não, você não é. Então vou perguntar para você de novo. O que raios você está fazendo aqui? E por que você está dirigindo para ele?”, pergunta o policial, após ver Shirley no banco de trás do carro.

“Ele não pode sair à noite. Essa cidade tem toque de recolher para negros depois do pôr-do-sol”, explica Tony

Desde 1890, milhares de cidades dos Estados Unidos tinham toque de recolher para negros após o pôr-do-sol – e algumas existem até hoje, de acordo com James W. Loewen, autor do livro Sundown Towns, que fala sobre o toque de recolher durante o período da segregação racial. Algumas dessas cidades tinham placas sinalizando o toque, outras, supervisores legais para abordar, expulsar e até assassinar residentes e visitantes negros. Às vezes, outras minorias também eram alvejadas.

Mas, de acordo com Loewen, esse fenômeno ocorria principalmente nas regiões Norte e Oeste do país. No Mississipi, apenas três cidades tinham toque de recolher. No estado de Illinois, por exemplo, eram 506 cidades com essa prática e, em Indiana, mais de 400.

“É um bom filme, mas o que ele fala sobre as cidades com toque de recolher é horrível”, disse Loewen. “Cidades com toque de recolher eram muito raras no Sul. Essa é a forma de Hollywood tratar o racismo severo: se havia racismo severo tinha que ser no Sul do país. Mas os brancos do sul achavam o toque de recolher estúpido – afinal, como fariam com as empregadas?”


No filme: Shirley sai da prisão com uma ligação para o procurador-geral Robert Kennedy

Na realidade: Shirley fez a ligação, mas ele mesmo nunca foi preso

Tony e um policial do Mississipi discutem sobre o fato de que ele está dirigindo para um homem negro. O policial ofende Tony, que lhe dá um soco. A câmera, então, mostra Tony e Shirley em uma cela de prisão. Eles conseguem sair porque Shirley faz uma ligação para Robert Kennedy, à época procurador-geral dos Estados Unidos.

Na história contada por Shirley, Tony não bateu no policial, ele não foi preso e os dois estavam dirigindo por West Virginia. “O que aconteceu foi que eles nos pararam e nos multaram por excesso de velocidade em uma rodovia cujo limite era 35 milhas (por hora) e estávamos indo a 25 (milhas por hora). Mas eles disseram que estávamos a 75 (milhas por horas). Era apenas racismo”, disse Shirley em uma de suas entrevistas a Astor. “Eles ficaram furiosos porque ele (Tony) era branco e estava dirigindo para mim. É disso que se tratava. Eles nos fizeram voltar 50 milhas até McMechen, em West Virginia.”

Shirley nem sequer deu entrada na cadeia, a não ser para tirar Tony de lá. Ele disse que não tinha nenhum dinheiro com ele, e os policiais recusaram seu cartão de crédito, alegando que ele estava “fora de seu estado”. Então, ele pediu para ligar para um amigo, para que lhe mandasse algum valor. Em vez disso, ligou para Kennedy e deixou uma mensagem com sua assistente para que o procurador lhe ligasse de volta.

“Ela contatou Robert Kennedy na Florida. Então, Kennedy ligou para o número (que Shirley havia deixado). O filho da p*** do chefe de polícia atendeu o telefone. E mesmo sendo um idiota, como ele era, reconheceu a voz de Kennedy – como você sabe, era a voz de Kennedy sem erro, com seu sotaque de Boston. Quando ele se identificou, eles não tinham como recusar”, conta o pianista.

O oficial finalmente aceitou o cartão de Shirley e deixou Tony ir. No filme, a ligação telefônica é suficiente para libertá-los.


No filme: Shirley sai no meio da sua apresentação final da turnê, no Natal

Na realidade: O lugar e o tempo são outros

O show final da turnê de Shirley é ambientado em Birmingham, Alabama, logo antes dele e o motorista voltarem para casa, em plena noite de Natal. Antes da performance, Tony e outros dois integrantes do trio de Shirley sentam para jantar no restaurante do hotel em que estão hospedados. Quando Shirley tenta encontrá-los é barrado pelo recepcionista, que cita as regras do local. Surge um impasse, e depois disso, o pianista e o motorista decidem encerrar a turnê ali mesmo. Na realidade, a dupla deixou o show no meio em uma outra oportunidade, na Virgínia ou no Kentucky, como mostra uma gravação de áudio do Tony:

“A gente não fez o show, mas as pessoas que também participariam do evento imploravam para a gente ficar. Eu disse ‘eu não entendo. Como vocês querem que a gente faça o show se não podem alimentar o músico?’, contou Tony. “Eu falei que a gente não faria. Liguei para o advogado (do Shirley), expliquei para ele, e ele disse para irmos embora”.

No filme, depois desse episódio, a dupla vai para o The Orange Bird, um restaurante-bar no fim da mesma rua, com um público majoritariamente negro, onde tocava blues. Enquanto eles caminham, quase são assaltados por um grupo de bandidos escondido atrás do carro, mas Tony atira para cima com seu revólver, e eles vão embora.

Em uma entrevista com Astor, Shirley lembra que ele foi impedido de entrar em um outro bar depois do show. O delegado da cidade, que havia assistido à apresentação, acabou convencendo o dono do local a servi-lo. Ele serviu uma bebida ao pianista e fechou a casa.

Shirley conta ainda que, depois disso, enquanto voltava para o carro, passou por um grupo “de cinco ou seis bandidos com rifles nos ombros! E eu passei por eles, entrei no meu carro e saímos. E eles nunca souberam que eu era a pessoa por quem eles estavam procurando. Nós dirigimos a noite toda e chegamos em Pittsburgh no dia seguinte.”

(Tradução: Clara Becker e Natália Leal)

Editado por: Clara Becker e Natália Leal

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