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Foto: José Cruz / Agência Brasil
Foto: José Cruz / Agência Brasil

Ernesto Araújo erra ao falar do crescimento do Brasil no século XX e da posição de Israel nos rankings de inovação

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.mar.2019 | 07h00 |

Na semana que antecedeu a viagem do presidente Jair Bolsonaro (PSL) aos Estados Unidos, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, deu uma aula magna para os estudantes do Instituto Rio Branco e concedeu uma entrevista à Rádio Gaúcha. Nas duas ocasiões, defendeu uma política externa mais direcionada por valores do que por interesses comerciais – e um alinhamento mais nítido com os americanos. A Lupa checou algumas das frases ditas por Araújo nos dois eventos. Veja o resultado a seguir:

“O Brasil (…) foi o país que mais cresceu no mundo mais ou menos entre 1900 e 1975”
Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, na aula magna concedida no Instituto Rio Branco em 11 de março de 2019

Não há dados mundiais sobre crescimento econômico que permita comparar dados de todos os países ao longo do período mencionado pelo ministro. Os números disponíveis para boa parte do século 20 vêm de estimativas, muitas vezes incompletas. Por isso, a frase de Ernesto Araújo é classificada pela Lupa como insustentável.

Em 2006, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou o livro Estatísticas do Século XX, uma compilação de dados sobre o Brasil para aquele período. De acordo com o estudo, entre 1900 e 1999, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita do país cresceu quase 12 vezes, atingindo uma média de 3,5% ao ano. Esse resultado, no entanto, foi superado por Japão, Taiwan, Finlândia, Noruega e Coreia. Ainda de acordo com o IBGE, o período de maior crescimento do PIB per capita ocorreu entre 1920 e 1980. Tanto antes como depois disso houve estagnação econômica no país.

Outra base de dados que faz estimativas históricas sobre o PIB, o The Maddison Project, tem informações sobre todos os anos do período citado por Araújo para apenas 29 países. Nesse caso, a nação que mais cresceu foi a Venezuela – cuja riqueza produzida aumentou 63 vezes entre 1900 e 1975. O Brasil ficou em segundo lugar no ranking, com um aumento de 37 vezes no mesmo intervalo de tempo.

Procurada para comentar esta checagem, a assessoria de imprensa do Ministério das Relações Exteriores não respondeu.


“Depois dos Estados Unidos, [Israel] é o país com mais capacidade de inovação, de startups”
Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em entrevista concedida à Rádio Gaúcha no dia 15 de março de 2019

FALSO

De acordo com rankings elaborados por sites independentes, Israel não é o segundo país com maior número de startups no mundo. O Startup Ranking, catálogo que analisa startups de 188 países, coloca os Estados Unidos em primeiro lugar (com 46.615 startups), seguido pela Índia (com 6.184). Nessa lista, Israel aparece em 13º lugar, com 814 empresas do tipo. O país aparece até mesmo atrás do Brasil, que fica na 10ª posição (com 1.076 startups)

O Startup Blink, que avalia a qualidade do ecossistema de inovação, lista os países com as empresas consideradas mais relevantes e também põe os Estados Unidos como líderes no ranking. Eles vêm seguidos de Reino Unido e Canadá. Israel ocupa a quarta posição. O Brasil fica em 39º lugar.

Uma organização israelense sem fins lucrativos que acompanha esse cenário, a Central Nacional de Startups (Start-Up Nation Central, em inglês), identificou que foram abertas 700 startups naquele país em 2017, enquanto 408 fora fecharam no mesmo ano. Os resultados mostram que, nos últimos anos, menos empresas têm sido abertas e uma quantidade cada vez maior tem encerrado suas atividades.

Procurada, a assessoria de imprensa do ministério das Relações Exteriores não respondeu.


“[O Brasil] É um dos países que mais emitem turismo para lá [os EUA], que mais gastam e, portanto, deixam recursos na economia americana”
Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em entrevista concedida à Rádio Gaúcha no dia 15 de março de 2019

VERDADEIRO

Segundo estatísticas oficiais, o Brasil está na lista dos dez países que mais turistas mandam para os EUA e dos que mais gastam por lá.

Dados do Escritório Nacional para Viagens e Turismo do governo americano (NTTO, na sigla em inglês), mostram que 1,9 milhão de brasileiros viajaram para os EUA em 2017. Isso representa 2,5% dos 76,9 milhões de visitantes estrangeiros nos Estados Unidos. O Brasil é o oitavo país no ranking de nacionalidades que mais visitaram a país naquele ano, atrás de Canadá, México, Reino Unido, Japão, China, Coreia do Sul e Alemanha.

Os turistas brasileiros também estão entre os que mais gastam nos Estados Unidos. De acordo com a Associação de Viagens dos Estados Unidos (US Travel Association, na sigla em inglês), o Brasil ficou em sétimo lugar no ranking dos visitantes com mais despesas no país. Em 2017, foram US$ 11,4 bilhões, o que equivale a 4,6% de um total de US$ 251 bilhões. A lista é liderada por China (14%), Canadá (8,5%), México (8,3%), Japão (6,6%), Reino Unido (6,2%) e Índia (5,8%)


“Um dos maiores emissores [de turistas internacionais](…) são os Estados Unidos.”
Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em entrevista concedida à Rádio Gaúcha no dia 15 de março de 2019

VERDADEIRO

Dados do Banco Mundial mostram que os Estados Unidos são o quarto maior país em número de turistas que deixam sua nação em todo o planeta, atrás da China, da Alemanha e de Hong Kong. Em 2017 (último dado disponível), foram 87,7 milhões de viagens a partir dos Estados Unidos para outros países. Como o mesmo indivíduo pode realizar mais de uma viagem no ano, em algumas nações, como Alemanha e Hong Kong, o número de viajantes supera a população do país.

Os turistas americanos também ocupam a segunda posição entre os que mais gastam ao viajar para o exterior. Foram US$ 135 bilhões em 2017, segundo a Organização Mundial de Turismo (UNWTO, na sigla em inglês), ligada à Organização das Nações Unidas. O ranking é liderado pela China, com US$ 257,7 bilhões em despesas de viagens internacionais.

Editado por: Clara Becker, Nathália Afonso e Cristina Tardáguila

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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