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Manipulada, foto emblemática da ditadura militar vira desinformação em redes sociais

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
01.abr.2019 | 13h30 |

Na manhã desta segunda-feira (1), ganhava força no Facebook uma versão adulterada da foto histórica que Evandro Teixeira fez em junho de 1968 no Rio de Janeiro. No lugar do rosto do estudante de Medicina que caía, nitidamente desesperado, diante de dois policiais com cassetetes em punho, via-se o rosto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A montagem, feita para misturar dois ingredientes explosivos – a efeméride dos 55 anos do Golpe Militar e a prisão do petista – vinha acompanhada da seguinte legenda: “militares botando Lula pra correr desde 1964”. Falso e falso. A imagem foi feita em 1968, na chamada Sexta-feira sangrenta, e ela, obviamente, não mostra Lula.

Lá se vão cinco anos de dedicação à checagem de fatos. Ainda assim, surpreendo-me, quase que diariamente, com a baixíssima qualidade dos assuntos que viralizam nas redes sociais. São postagens contendo texto, imagens ou vídeos que, de alguma forma, buscam tirar a atenção do brasileiro de temas que, a meu ver, realmente merecem ser debatidos.

Por isso, vou insistir aqui numa tecla sobre a qual já falei. No combate às notícias falsas, é urgente mobilizar escolas e universidades. O Brasil precisa de cidadãos mais críticos. Homens e mulheres – de todas as idades – capazes de usar o celular e o computador para analisar o grau de veracidade daquilo que recebem antes de passar esses conteúdos adiante.

Amanhã, 2 de abril, é Dia Internacional da Checagem (#FactCheckingDay). A comunidade de fact-checkers fará anúncios e estenderá as mãos de forma clara e explícita, pedindo a colaboração de educadores de todo o planeta.

A International Fact-checking Network (IFCN), rede de verificadores que dirijo desde início de março, reúne mais de 150 plataformas de checagem e sabe que, no front da guerra contra a desinformação, é preciso ter professores. Seria maravilhoso se os educadores brasileiros se somassem a esse esforço de construção de uma sociedade disposta a buscar dados de melhor qualidade

É importante que esse grupo aprenda técnicas básicas de checagem para, logo em seguida, ensiná-las. Ideal mesmo é que governos construam e assumam currículos escolares que contenham essa disciplina. Ganhariam todos. Afinal de contas, as fake news não vão acabar, e elas atingem a absolutamente todas as correntes políticas.

Para se ter uma ideia, só na última semana, os checadores profissionais do Brasil mostraram que é falso que Pabllo Vittar apresentará programa infantil na TV Globo. Deixaram claro que Michelle Bolsonaro não disse que a lua é mais importante do que o sol e que não existe essa história de que médicos americanos estão buscando pacientes com lábio leporino para serem operados no Hospital Militar. Conteúdos que ganhavam força nas redes sociais e aplicativos de mensagem no país.

Isso sem falar do caso peculiar que provocou gargalhadas (e até certa irritação) na redação da Agência Lupa. Com 32 mil compartilhamentos no Facebook, uma postagem viralizava com a “informação” de que a polícia de Houston, nos Estados Unidos, teria prendido um homem responsável pelo desaparecimento de ao menos 31 pessoas na última década.

O criminoso teria admitido que era canibal e que havia comido entregadores de pizza, testemunhas de Jeová e carteiros. A informação era tão falsa, vinda de um site satírico, que gerou debate entre os fact-checkers. Quem acredita nisso? O trabalho de verificação é tão intenso e tão diverso que se faz urgente ampliar o “exército” de checadores. Assim, fica aqui, mais uma vez, o convite aos professores. Que todos tenham um feliz Dia Internacional da Checagem.

*Esta coluna foi publicada pelo site da revista Época no dia 1 de abril de 2019.

Editado por: Gilberto Scofield Jr. e Natália Leal

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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