A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Foto: Valter Campanato, Agência Brasil
Foto: Valter Campanato, Agência Brasil

Segurança, renda per capita, educação: erros do ministro Weintraub antes de assumir o MEC

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
10.abr.2019 | 11h36 |

Na última terça-feira (9), o presidente Jair Bolsonaro (PSL) deu posse ao economista Abraham Weintraub no Ministério da Educação. O novo titular da pasta foi confirmado na segunda-feira (8), após a demissão de Ricardo Vélez Rodríguez. A Lupa analisou algumas falas do novo ministro em lives e eventos públicos em que ele apresentou suas ideias, antes mesmo de ser cogitado para assumir o MEC. Confira abaixo:

“Os estados onde você teve a maior piora no nível de homicídios (…) é Maranhão, Pará, Bahia, Rio Grande do Sul, Ceará”
Abraham Weintraub, ministro da Educação, em live transmitida pelo YouTube no dia 8 de setembro de 2018

FALSO

Dos estados citados por Weintraub, apenas o Rio Grande do Sul está entre os cinco que mais tiveram crescimento no número de mortes violentas intencionais desde 2013. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o estado com maior crescimento na violência não foi nenhum dos citados pelo ministro. Com 131% de crescimento na taxa de mortes por 100 mil habitantes entre 2013 e 2017, o Acre é quem ocupa a primeira posição neste ranking.

Em segundo lugar aparece o estado de Roraima (101%), seguido por Pernambuco (70%) e Amapá (67%). O Rio Grande do Sul, que Weintraub cita, é o quinto estado onde a taxa de mortes por 100 mil habitantes mais cresceu de 2013 a 2017, com 46%.

As outras unidades da federação às quais o ministro se refere tiveram crescimento mais próximo da média nacional para o período, que foi de 11%. No Pará, o aumento foi de 20%, no Ceará, 17%, na Bahia, 13% e no Maranhão, 12%. Veja o levantamento aqui.

No Atlas da Violência de 2018, Maranhão e Bahia aparecem entre os cinco estados com maior crescimento na taxa de mortes por 100 mil habitantes de 2006 a 2016. O levantamento também indica o crescimento entre 2015 e 2016 – mas só a Bahia aparece no ranking. Há um terceiro indicador, de 2011 a 2016, no qual nenhum dos estados citados pelo ministro é elencado.

Procurado para comentar, Weintraub não retornou.


“[Os países da] América Latina tem uma renda per capita parecida como um todo, sempre teve”
Abraham Weintraub, ministro da Educação, em palestra na Cúpula Conservadora das Américas, no dia 8 de dezembro de 2018

FALSO

O PIB per capita de diferentes países e regiões da América Latina varia bastante atualmente – e sempre variou ao longo da história. Em 1962, o PIB per capita da Argentina, economia mais desenvolvida da América Latina à época, era de US$ 1.148. Isso representava 16 vezes o PIB per capita do Haiti, que era o país mais pobre da região, 10 vezes o da Bolívia, país mais pobre da América Hispânica e 4,5 vezes o do Brasil.

Em 1980, 18 anos depois, a Venezuela era o país mais rico da região, com PIB per capita de US$ 3.852. Isso representava 16 vezes o PIB do Haiti, seis vezes o da Nicarágua, então o país mais pobre da América Hispânica, e o dobro do PIB per capita do Brasil.

Em 2017, último ano com dados disponíveis, o Uruguai era o país mais rico da América Latina. Seu PIB per capita, US$ 16.245, era 21 vezes maior do que o do Haiti, sete vezes maior do que o da Nicarágua e 1,5 vez o do Brasil. Os dados são do Banco Mundial.

Procurado para comentar, o ministro não retornou.


“Hoje o Brasil está com quase metade da renda per capita do Chile”
Abraham Weintraub, ministro da Educação, em palestra na Cúpula Conservadora das Américas, no dia 8 de dezembro de 2018

EXAGERADO

Segundo o Banco Mundial, em 2017, último ano com dados disponíveis para os dois países, a renda per capita do Brasil era de US$ 9.821, 64%, ou cerca de dois terços, do PIB per capita do Chile: US$ 15.346.

Procurado para comentar, o ministro não retornou.


“O que o Brasil gasta [com educação] é no mesmo patamar do que os países que estão em boas posições gastam”
Abraham Weintraub, ministro da Educação, em live transmitida pelo YouTube no dia 8 de setembro de 2018

EXAGERADO

Segundo o estudo Education at a Glance 2018, os gastos do Brasil com educação eram, em 2015, de US$ 3,8 mil anuais por estudante dos ensinos fundamental e médio. Esse valor é menos da metade da média gasta pelos países da OCDE – que é de US$ 9,4 mil. O gasto por estudante do Brasil é um dos mais baixos dos países avaliados, à frente apenas do México e da Colômbia.

Entretanto, quando consideramos o valor proporcional ao PIB, as despesas do setor público brasileiro em educação, do ensino fundamental ao nível superior, equivaliam a 5,5% do PIB. A média da OCDE é de 4,5%.

Segundo a própria OCDE, essa discrepância é explicada pela diferença no porte das economias. “Apesar de o gasto com educação como percentual do PIB no Brasil estar entre os mais altos entre a OCDE e seus países parceiros, o PIB per capita do país é mais baixo, o que significa que o gasto por estudante é um dos mais baixos”, diz o relatório.

Procurado para comentar, Weintraub não retornou.


“Metade dos estupros cometidos no Brasil são contra criança. (…) Não é o pai, nem o padrasto. É o amigo [quem mais comete estupro contra crianças]”
Abraham Weintraub, ministro da Educação, em live transmitida pelo YouTube no dia 8 de setembro de 2018

VERDADEIRO

De fato, metade, ou 50,9%, dos casos de estupro registrados no país em 2016 foram contra crianças de até 13 anos. Um terço dessas agressões são cometidas por amigos e conhecidos da vítima. Outros 30% são familiares mais próximos somados – como mãe (2,48%), pai (12,03%), irmãos (3,26%) e padrastos (12,09%). Os dados são do Atlas da Violência 2018.

*Esta coluna foi publicada pelo UOL em 10 de abril de 2019.

Editado por: Natália Leal

O conteúdo produzido pela Lupa é de inteira responsabilidade da agência e não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização prévia.

A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

Esse conteúdo foi útil?

1 2 3 4 5

Você concorda com o resultado desta checagem?

Sim Não

Leia também

SIGNATORY- International Fact-Checking Network
Etiquetas
VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
DE OLHO
Etiqueta de monitoramento
Seções
Arquivo